Tempo estimado de leitura: 5 minutos
A rotina simples de costura foi interrompida por uma dor inesperada — e impossível de ignorar. “Eu estava sentada costurando quando senti uma dor muito forte, como se fosse dor de dente. Foi do nada”, relembra Eselma Servente, moradora de Maringá.
Por isso, o episódio marcou o início de uma jornada com a neuralgia do trigêmeo, uma condição considerada por especialistas como uma das mais dolorosas existentes. A neuralgia do trigêmeo é uma desordem nervosa crônica que causa dor facial intensa, súbita e lancinante, frequentemente descrita como choque elétrico ou fisgada. A dor afeta um lado do rosto, sendo tipicamente causada pela compressão do quinto nervo craniano por um vaso sanguíneo.
A doença é descrita por pacientes como choques elétricos intensos. No caso de Eselma, o diagnóstico veio rápido — algo incomum.
“Uma cliente minha, que era bucomaxilar, entrou no meu ateliê e pediu para ver o exame. Quando olhou, disse que eu provavelmente tinha neuralgia do trigêmeo. Em três dias, já estava confirmado”, conta.
Segundo ela, a rapidez no diagnóstico evitou uma peregrinação por consultórios, comum entre pacientes da doença.
“Tem gente que leva meses ou até mais de um ano para descobrir, porque nem sempre aparece na ressonância. Depende muito da avaliação clínica.”
Dor que paralisa
Se o diagnóstico veio rápido, o impacto foi imediato e profundo. A dor mudou completamente a rotina de Eselma.
“É uma dor alucinante, como se alguém abrisse sua cabeça com um machado. Não dá pra comparar com nada”, descreve.
As crises podem ser desencadeadas por movimentos simples. Atividades cotidianas, como falar, mastigar ou até abaixar a cabeça, passaram a ser evitadas.
“Eu não consigo costurar como antes. Só de inclinar a cabeça, a dor vem com tudo. Tem dias que não dá pra fazer nada”, afirma.
No entanto, a imprevisibilidade também pesa. “Você vive com medo. Qualquer coisa pode desencadear uma crise.”
Cirurgias e sequelas
Com o avanço da doença e a falta de resposta aos medicamentos, Eselma passou por procedimentos cirúrgicos na tentativa de aliviar a dor. O primeiro foi a rizotomia com balão, técnica utilizada para reduzir a sensibilidade do nervo. O resultado, porém, foi frustrante.
“Depois da cirurgia, a dor ficou ainda pior. E eu fiquei com sequelas. Perdi a sensibilidade do lado direito do rosto. Não consigo nem tomar uma sopa sem dificuldade”, relata.
A segunda tentativa foi a descompressão do nervo trigêmeo, considerada um procedimento mais complexo. “Eles colocam um material entre a artéria e o nervo, para evitar o contato que causa a dor”, explica.
No entanto, o alívio não durou. “Esse material não é fixado. Com o tempo, ele pode sair do lugar. Um mês depois da cirurgia, a dor já tinha voltado.”
Mesmo com os tratamentos, a condição persiste. “A neuralgia pode entrar em remissão, mas não tem cura. Comigo, ela sumiu por um tempo e depois voltou com mais intensidade.”
Impacto emocional
Além das limitações físicas, a doença trouxe consequências emocionais severas. Eselma relata que enfrentou um período de depressão profunda.
“Eu não tinha vontade de viver. Não queria sair da cama, não via sentido nas coisas”, diz.
O cenário começou a mudar quando ela decidiu compartilhar a própria experiência com outras pessoas que enfrentavam o mesmo problema.
“Um dia eu senti que precisava ajudar. Pensei: se eu estou passando por isso, outras pessoas também estão.”
Da dor à solidariedade
O convívio com a dor intensa deu origem a um grupo de apoio que hoje reúne mais de 3 mil pessoas. O espaço funciona como rede de acolhimento, troca de informações e suporte emocional.
“As pessoas se entendem. Quem não sente essa dor, muitas vezes não acredita. Acham que é dor de cabeça, mas não é. É algo muito mais intenso”, afirma.
O grupo, criado em 2018, ultrapassou fronteiras. “Hoje tem gente do Brasil inteiro e até de outros países, como Suíça e Estados Unidos”, conta.
Segundo Eselma, o objetivo é ampliar a conscientização sobre a doença e oferecer apoio a quem ainda está em busca de diagnóstico ou tratamento.
“Às vezes eu entro só para ler. Um ajuda o outro, compartilha experiência, indica caminhos. Isso faz muita diferença.”
Entre crises, cirurgias e recomeços, a história dela revela não apenas o peso de uma dor invisível, mas também a capacidade de transformar sofrimento em apoio e acolhimento.
Diagnóstico em Maringá
Dados da Prefeitura de Maringá apontam que 53 pessoas vivem na cidade com o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo. Essas pessoas são atendidas atualmente na rede municipal de saúde — número que não inclui pacientes da rede privada.
O município também oferece suporte por meio do programa Paraná Sem Dor, da Secretaria de Estado da Saúde, que garante acesso a medicamentos para o controle da dor.
Serviço
Interessados em participar do grupo de apoio podem entrar em contato com Eselma pelo telefone (44) 9 9118-9398.









Comentários estão fechados.