A estreita relação entre moda e cinema

O cinema e a moda são duas indústrias intimamente ligadas, quase que desde o nascimento do cinema. Depois da década de 30, então, o cinema foi talvez o principal meio de difusão de moda, que acontecia por intermédio das grandes estrelas de Hollywood como Greta Garbo, Marlene Dietrich, Mae West e Joan Crawford. Essa última, inclusive, foi protagonista de um dos fenômenos mais significativos envolvendo as duas indústrias, quando em 1932 no filme Letty Lynton apareceu usando um vestido criado pelo figurinista Gilbert Adrian. A peça ficou tão popular que a Macy’s em Nova York vendeu cerca de 500 mil cópias do vestido. Sim, em 1932. O evento ficou conhecido como efeito Letty Lynton. Desde então foram diversas as parcerias entre grandes costureiros ou marcas e produções audiovisuais – que seguem até os dias de hoje; separei algumas das mais importantes (e das minhas preferidas). 

 

[Hupert Givenchy em A bonequinha de luxo]
Talvez uma das parcerias mais famosas entre moda e cinema. O figurino da produção é assinado pela icônica figurinista Edith Head, em parceria com Pauline Trigere e o estilista Hupert Givenchy, responsável pelo famoso vestido preto que Holly Golightly (vivida por Audrey Hepburn) usa diversas vezes no filme, trocando apenas os adornos. Mas por que tanto alvoroço por causa de um vestido preto aparentemente simples, para além do fato de ser assinado por Givenchy? Nas décadas de 50 e 60 o preto não era tão comum no estilo das mulheres, que vestiam cores e vestidos florais. O vestido preto era associado a viúvas e mulheres fortes, independentes e sedutoras – que estavam na contramão das dóceis donas de casa da época. Além disso, a demonstração da versatilidade da peça durante todo o filme transformou o vestido em ícone.


[Yves Saint Laurent em A bela da tarde]
Yves Saint Laurent foi outro estilista que assinou figurinos de cinema em sua carreira, e entre eles está o de A bela da tarde (1967), do diretor Luis Buñuel. Saint Laurent ficou responsável pelo visual da protagonista Séverine Serizy, interpretada por Catherine Deneuve; o figurino tem toda uma relação com a narrativa da personagem. No início da trama, Séverine usa cores claras, que remetem à pureza e inocência, em peças mais clássicas. Conforme a luxúria vai entrando na vida da personagem, surgem cores mais escuras e materiais com apelo sensual, como couro, vinil e pele.

 

Paco Rabane em Barbarella, com Jane Fonda.

A década de 60 foi marcada pelo futurismo, especialmente na moda, e a temática espacial era bastante frequente. Paco Rabanne, um dos expoentes da estética, foi responsável pelo figurino do filme Barbarella (1968), juntamente com o figurinista Jacques Fonteray. O trabalho de Rabanne na época era marcado pelo uso de placas de alumínio na construção das roupas, o que foi aproveitado para o filme. Barbarella, interpretada por Jane Fonda, é uma viajante espacial sexy, e seu visual reflete também a luta pela liberdade sexual da mulher nos anos 60. Materiais como plástico, vinil, metal foram amplamente usados na construção da imagem da protagonista.

 

Pulando para 2010, temos a marca das irmãs Kate e Laura Mulleavy no projeto do figurino do suspense de Darren Aronofsky. A dupla ficou responsável pelo visual da bailarina Nina Sayers, interpretada por Natalie Portman. Com amplo conhecimento têxtil e apurado trabalho manual, as irmãs da Rodarte criaram cerca de 40 figurinos em parceria com a figurinista oficial, Amy Westcott. Aqui temos outro exemplo do uso das cores na narrativa de uma personagem que se abre sexualmente para a vida: logo de início, numa expressão muito infantil, a bailarina ainda usa cor-de-rosa enquanto seus colegas vestem cinza e branco; a primeira vez que Nina veste preto é quando se envolve com outra personagem, Lily. Em 2011 peças do figurino do filme entraram para a exposição Rodarte: States of Matter, que aconteceu em Los Angeles.  

 

Em 2011, o diretor espanhol Pedro Almodóvar lançava A pele que habito, uma mistura de drama com ficção científica. Jean Paul Gaultier, que já havia assinado o figurino de outras produções do diretor (como Kika e Má Educação), ficou responsável pelo guarda-roupas de Vera, interpretada por Elena Anaya. O visual da personagem consistia em uma malha bege, similar às cintas pós-cirúrgicas, uma segunda pele que dava a ilusão da nudez. A aparente simplicidade do figurino traz em suas camadas mais profundas um quê de sofisticação e a ressignificação do erotismo, que permeia toda a trama.

 

Miuccia Prada em O grande Gatsby

A versão de 2013 de O grande Gatsby contou com a colaboração de um dos nomes mais importantes da moda mundial na criação dos figurinos deslumbrantes da década de 20. O filme baseado no clássico homônimo de F. Scott Fitzgerald é um retrato dos anos loucos, com suas festas dionísicas e trajes luxuosos. Miuccia Prada trabalhou em conjunto com a figurinista Catherine Martin para criar 40 looks que traduziram perfeitamente a atmosfera glamourosa da aristocracia norte-americana da época. Vários dos figurinos criados são releituras de itens de coleções da Prada e da Miu Miu. 

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