De empregada doméstica a professora estadual em Maringá: conheça a história e as posições políticas da futura vereadora Vilma Garcia (PT)

Por: - 14 de agosto de 2018
Vilma Garcia recebe o prêmio Dorcelina Folador na Câmara de Maringá (Imagem/Arquivo pessoal)

A hegemonia masculina na Câmara de Maringá será quebrada, pelo menos por 120 dias, período em que a professora Vilma Garcia da Silva (PT) assume o lugar do vereador Mário Verri (PT), que se afastará do legislativo para disputar o cargo de deputado estadual. Pela primeira vez concorrendo às eleições, Vilma recebeu 1.886 votos.

A professora de 54 anos, que divide a vida entre a presidência Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Paraná (APP-Sindicato), a vice-presidência do PT em Maringá e as aulas de Matemática no Colégio Estadual Silvio Magalhães de Barros terá mais uma função: fiscalizar o Executivo e atender as demandas sociais como a primeira mulher da atual legislatura e a 13ª da Câmara.

Ela saiu de Nova Esperança, onde nasceu, e veio para Maringá em 1985. Como muitos jovens, tentava entrar na universidade com a certeza que só a educação poderia transformar a realidade em que vivia. Até concluir o Ensino Médio e passar no vestibular de Ciências Econômicas na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Vilma trabalhava como empregada doméstica na casa de dois filhos de um médico da cidade natal.

Nos primeiros anos de UEM, Vilma continuou trabalhando como doméstica, mas logo se aventurou em outras áreas. “Fiz muita coisa nessa vida”, diz ela se referindo ao trabalho no setor financeiro de uma empresa de médio porte e na secretaria de um colégio da rede estadual. Licenciada em Matemática, em 2006 ela passou no concurso e tornou-se professora do Estado.

Casada, mãe da Izabele, de 21 anos, e do Matheus, 19, Vilma se descreve como militante do movimento negro, LGBTQI+ e feminista. Moradora do Conjunto Thaís, região periférica da cidade, a vereadora afirma que pretende representar as vozes que ainda não são ouvidas na Câmara de Maringá e priorizar a educação.

“Em uma sociedade onde mais de 50% são mulheres é muito complicado não haver representatividade feminina na Câmara. A gente precisa ampliar e reforçar o debate dos segmentos que efetivamente não tem representação, não só na Câmara de Maringá, mas no Congresso Nacional também”, afirma.

O discurso político ligado ao campo ideológico de esquerda se acirrou em 1999, quando Vilma, ainda funcionária administrativa do Estado, decidiu se filiar ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Paraná (APP-Sindicato). Em 2003, mesmo não estando ligada a nenhum partido, ela começou a atuar como militante política, fazendo campanhas para candidatos a cargos públicos.

Em 2005 ela se filiou ao PT e em 2015 assumiu a presidência da APP Sindicato. De acordo com a futura vereadora, o estopim para que ela assumisse a causa sindicalista e se voltasse para a defesa das minorias aconteceu durante a faculdade, principalmente com os desafios que enfrentou. Desempregada, ela procurou emprego até como camareira de motel.

“A formação acadêmica abre os horizontes e te dá a possibilidade de avaliar a sociedade que a gente vive. Para uma mulher negra, na década de 80, o mercado não dava oportunidades. Senti na pele a dificuldade de arrumar emprego em Maringá. Na década de 80, os anúncios exigiam boa aparência, o que significava ser branco. E aí todas essas dificuldades me empurraram”, diz.

Nas redes sociais, Vilma faz postagens em apoio ao ex-presidente Lula e em tom crítico ao Supremo Tribunal Federal. Atuante em greves e protestos dos servidores públicos do Estado, a vereadora também declara apoio ao movimento feminista negro.

Posted by Rodrigo Pedro Casteleira on Friday, July 27, 2018

Qual será a posição política da vereadora na Câmara?

Vilma deve assumir o lugar do vereador Mário Verri por 120 dias a partir de sexta-feira (17/8). Caso Verri se eleja deputado, a professora continuará no cargo.

Ela diz não ter expectativa de continuar na Câmara e que as decisões são tomadas em conjunto com outras lideranças. “Eu nunca tive a pretensão de ocupar uma cadeira eletiva, não era o ideal da minha vida. Quando você entra para um sindicato, você é colocado à disposição. Se o grupo compreende que meu nome vai ajudar os maringaenses, aí a gente se coloca”.

A vereadora diz que tem projetos prontos para serem apresentados na área de educação e desenvolvimento da cidade, mas não quis revelar detalhes. A professora acrescenta ser favorável a compra de vagas na rede particular de ensino, desde que seja uma medida provisória para que o Município comece a trabalhar outras saídas que resolvam o problema.

Durante o mandato, ela pretende não ser situação ou oposição à administração municipal. “O que for bom para a cidade vamos apoiar sim, não tem essa condição de fazer oposição sem pensar no conjunto de moradores. Também não dá para dizer que vamos apoiar incondicionalmente”, declara.

Vilma afirma que vê “com bons olhos” a gestão do prefeito Ulisses Maia (PDT). “A cidade tem outra cara do que há dois anos. Talvez não atenda todas as demandas, mas dialoga e isso é importante. Lógico, uma cidade do tamanho de Maringá não é fácil atender e em dois anos de mandato tem muita coisa a ser feita.”

Há 50 anos, primeira vereadora mulher era eleita

Há 50 anos, em 1968, a fisioterapeuta Sebastiana Costa Tobias foi a primeira mulher eleita para a quinta legislatura, de 1969 a 1972. Historicamente,  a maioria da Câmara sempre foi masculina. Quando estiveram em maior número na Casa, as mulheres eram quatro, o que correu entre 1996 e 2000.

Entre todas as mulheres eleitas, outra professora, Edith Dias de Carvalho, foi a que ficou na Câmara de Maringá por mais tempo, sendo reeleita em cinco legislaturas consecutivas, desde 1989 até 2004.

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