Adoecimento de professores deixa de ser exceção e expõe problema estrutural na educação do Paraná

Deputada Ana Júlia Ribeiro afirma que afastamentos por saúde mental revelam falhas estruturais nas condições de trabalho da rede estadual.

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    O número de professores afastados por problemas de saúde mental no Paraná acende um alerta que vai além de casos individuais. Segundo a deputada estadual Ana Júlia Ribeiro, o adoecimento docente já se tornou um problema estrutural dentro da rede pública de ensino e está diretamente ligado às condições de trabalho impostas aos profissionais da educação.

    Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post, a parlamentar afirma que mais de 10 mil professores da rede estadual estão atualmente afastados por sofrimento mental. “Quando você chega num número desses, não é mais uma questão individual. É um problema estrutural”, diz.

    Para Ana Júlia, o cenário é resultado de uma combinação de fatores que se acumulam ao longo do tempo: salários defasados, ausência de concursos públicos, pressão por metas, assédio moral e, principalmente, a perda de autonomia dentro da sala de aula. “Os professores não têm mais autonomia para elaborar seus planos de aula conforme o que estudaram e conhecem. Eles precisam seguir cartilhas feitas por pessoas que nunca entraram naquela escola”, critica.

    Segundo a deputada, esse modelo tem transformado o professor em um executor de tarefas pré-determinadas, esvaziando o sentido pedagógico da profissão. “Hoje, em muitos casos, o professor não é mais responsável pela maior parte da avaliação do estudante. A nota vem de plataformas, de sistemas em que o aluno pode simplesmente copiar e colar respostas”, afirma.

    Ela avalia que essa lógica compromete não apenas a qualidade do ensino, mas também a saúde mental dos educadores. “Você estuda, se prepara, sonha em dar aula, em formar pessoas. Quando chega na escola, encontra um ambiente de pressão constante, sem reconhecimento e sem liberdade de cátedra. Isso adoece”, resume.

    Outro ponto destacado é a sobrecarga emocional enfrentada pelos docentes em salas cada vez mais cheias e heterogêneas, sem que haja estrutura adequada para lidar com diferentes realidades. “Ter 40 alunos em sala, sem apoio, sem autonomia e sob constante vigilância, é extremamente desgastante”, afirma.

    Para Ana Júlia, a naturalização desse adoecimento é um dos aspectos mais preocupantes. “Durante muito tempo se construiu a ideia de que o professor era um privilegiado. Isso já não corresponde à realidade há muito tempo”, diz. Na avaliação da deputada, o afastamento em massa de profissionais deveria ser tratado como um sinal claro de que algo não funciona no modelo atual.

    Ela defende que discutir educação pública passa, necessariamente, por discutir as condições de trabalho dos professores. “Sem professor valorizado, saudável e respeitado, não existe educação de qualidade”, afirma.

    A entrevista reforça um debate que, segundo a parlamentar, precisa sair dos bastidores e ganhar centralidade nas políticas públicas: o cuidado com quem está diariamente na linha de frente da formação de crianças e jovens.

    O episódio completo com a deputada Ana Júlia Ribeiro está disponível no YouTube do Maringá Post, no Ponto a Ponto Podcast, apresentado por Ronaldo Nezo e gravado na V Mark Produtora e Estúdio.

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