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Doutor em sociologia, professor universitário, assessor político, analista requisitado pela imprensa nacional e músico. O currículo de Tiago Valenciano destoa do perfil tradicional de um gestor público de carreira. É, no entanto, esse caráter “multifacetado” que ele levou para o comando de uma das pastas mais sensíveis, ideologicamente, da Prefeitura de Maringá: a Secretaria de Cultura.
Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo, no podcast Ponto a Ponto do Maringá Post, Valenciano trata desse novo momento em sua trajetória profissional. Ele, que por anos analisou os bastidores do poder, agora é o protagonista. A mudança, admite, é de perspectiva: de conselheiro para “vidraça”. “Quando você está no bastidor, você fica ali articulando […]. Nesse caso, não. Você tem que ser o estrategista de si próprio”, refletiu.
Essa exposição testa um traço de sua personalidade que ele defende com afinco. “Isso [ser multifacetado] incomoda as pessoas”, disse Valenciano, citando como é visto por atuar em tantas frentes, do futebol à política. Segundo ele, nem todo mundo entende seu gosto por fazer tantas coisas diferentes.
Ao assumir a Cultura, ele herda não apenas um calendário de eventos, mas um campo minado de expectativas. Na conversa, o secretário reconheceu a diversidade de “tribos” do setor.
“Temos grupos ideologicamente mais voltados à esquerda, outros mais voltados à direita… Cada um vai defender o seu próprio interesse. Isso é justo, válido, necessário”, afirmou.
É nesse cenário de pressões cruzadas que o sociólogo apresenta sua tese de gestão. Questionado por Nezo sobre como navegar essa “militância” diversa, Valenciano foi direto: sua missão não é participar da briga, mas desarmá-la. É a filosofia que ele acredita ser a única saída para uma pasta marcada por paixões, definindo seu papel de forma clara.
“Construir pontes, não caçar encrenca”
O ponto central da conversa foi a definição de Valenciano sobre seu papel. “Estou na Secretaria da Cultura para construir pontes, não ficar caçando encrenca e confusão”, declarou.
Num momento em que a cultura nacional é frequentemente palco de “guerras ideológicas”, o secretário se posiciona deliberadamente fora da briga.
“Alguns falam que eu sou centrão. Sempre fui mesmo uma pessoa mais de centro. […] Não me interessa muito esse jogo”, afirmou, defendendo que a “patrulha ideológica”, seja de direita ou esquerda, não constrói a política cultural.
Essa filosofia tem sido testada na prática. Sobre a polêmica organização da Virada Cultural, onde a proposta inicial da gestão foi rejeitada pela classe artística, Valenciano falou em “descompasso de expectativa” e pregou a correção de rota.
“Bom, vocês não querem isso, não tem problema nenhum, a gente conversa, dialoga, volta atrás e está tudo certo”, disse, creditando o recuo à disposição para o diálogo.
Cultura como “Maratona”: os planos para Réveillon e Carnaval
Essa visão de longo prazo, que ele define como uma “maratona, não uma corrida de 100 metros”, é o que, segundo o secretário, pauta os planos para os grandes eventos.
Na entrevista, Valenciano confirmou a realização do show do Réveillon 2026 em Maringá, mas anunciou uma novidade relevante: a descentralização da festa. “Nós estamos programando fazer um pré-Réveillon nos distritos de Maringá. […] Uma em Floriano e outra em Iguatemi”, revelou.
Para o Carnaval, a ambição é maior. O secretário falou em “dar um upgrade” na festa, com planos já em andamento para trazer uma atração de porte nacional em 2026, visando consolidar Maringá como um polo da festa no Noroeste do Paraná.
O analista e os “pepinos” milionários
Questionado sobre a “novela” do Cine Plaza, Valenciano deu uma explicação didática sobre o impasse. Ele confirmou que R$ 9 milhões de um financiamento (FINISA) estão reservados para a desapropriação, mas o dinheiro está parado. O motivo: “Os herdeiros [do imóvel] estão recorrendo do valor, por conta de uma avaliação do mercado que eles alegam que é abaixo do preço”.
O Cine Plaza não é apenas do município. O espaço reservado para as apresentações culturais pertence a prefeitura, mas outras estruturas do prédio são de particulares. E embora a cidade tenha interesse em comprar o imóvel para reformá-lo, os herdeiros do prédio querem mais dinheiro.
Ainda que a compra se resolva, o desafio seguinte seria ainda maior. Valenciano estima que uma reforma coerente do espaço custaria, por baixo, R$ 30 milhões.
Já ao falar sobre o orçamento para a Cultura de Maringá, Valenciano rejeitou a metáfora do “cobertor curto”, afirmando que a realidade é pior: “Ele esfarela na mão e acaba rapidinho se você não souber investir”.
O desafio final
No Ponto a Ponto, o secretário também falou sobre sua “outra vida” como pesquisador, proprietário de uma empresa de pesquisas políticas e analista político em diferentes veículos de comunicação.
Ao refletir sobre o atual momento da política nacional, detalhou como a fé e os valores, muitas vezes mais que as propostas, definem o voto do eleitor em disputas legislativas.
Mas, ao fim, a visão do sociólogo e do gestor convergem para um objetivo estratégico: transformar a cultura em algo que faça parte do cotidiano da população e também movimente a economia local.
Para isso, segundo Valenciano, o maior desafio da pasta não é apenas fazer eventos, mas criar público. “O grande desafio da cultura hoje talvez seja esse: você criar uma plateia engajada”, definiu.
O objetivo final, segundo ele, é conectar o evento gratuito ao comércio local: “É [o público] que está indo no evento cultural gratuito e depois está indo ao restaurante, está indo num dogão, está tomando um café. […] Criar essa plateia […] para que aquilo que a Prefeitura oportuniza gere economia.”
A entrevista completa com Tiago Valenciano está disponível no canal do Maringá Post no YouTube.









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