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A superdotação ainda é um tema pouco conhecido do grande público, mas que mobiliza famílias, educadores e pesquisadores em todo o mundo. No Brasil, estima-se que entre 3% e 5% da população escolar tenha altas habilidades, mas apenas uma fração ínfima desses estudantes é identificada e acompanhada de forma adequada.
Foi para jogar luz sobre esse universo que o Ponto a Ponto Podcast, apresentado pelo jornalista Ronaldo Nezo e produzido em parceria com o V Mark Estúdio, reuniu três convidadas em um episódio de uma hora e dez minutos. No bate-papo, elas discutiram os principais mitos em torno do tema, os desafios do diagnóstico precoce, o papel da família e da escola, além da urgência de políticas públicas que deem conta dessa realidade.
Representando o Colégio Platão de Maringá: Maria Lúcia Zapata Lorite Tavares, coordenadora pedagógica, Karliny Uchoa, neuropsicóloga, e Silvia Altoé, mestre em Altas Habilidades/Superdotação.
O que é superdotação?
Logo no início da conversa, as convidadas foram enfáticas: superdotação não é sinônimo de notas altas ou de genialidade em todas as áreas.
“Superdotação não é só matemática ou português. Ela pode se manifestar na criatividade, na liderança, nas artes. Se a escola não tiver sensibilidade, esse potencial passa despercebido”, explicou uma das especialistas.
Essa afirmação ajuda a desmontar um dos mitos mais resistentes: o de que o aluno superdotado é “gênio” em tudo. Na prática, a realidade é diversa. Crianças com altas habilidades podem apresentar dificuldades em algumas disciplinas, mas se destacam em outras. Reconhecer essa pluralidade é o primeiro passo para que não sejam invisibilizadas.
Mitos e preconceitos
Outro equívoco comum é pensar que estudantes superdotados “não precisam de ajuda”. Essa crença, segundo as convidadas, é perigosa porque leva à negligência.
“Muitas vezes o superdotado é visto como alguém que não dá trabalho, que se vira sozinho. Só que, sem estímulo, ele se desmotiva e pode até apresentar problemas de comportamento”, destacou Maria Lucia, coordenadora do Colégio Platão.
A sociedade, acostumada a olhar para dificuldades de aprendizagem, ainda não está preparada para lidar com o oposto: um potencial acima da média que exige desafios constantes. Esse preconceito pode transformar um talento em frustração.
O desafio do diagnóstico precoce
O episódio também mostrou como o diagnóstico precoce é fundamental — e raro. Em muitos casos, a superdotação só é identificada quando a criança já apresenta sinais de desinteresse ou até de sofrimento emocional.
“É comum que o superdotado seja confundido com um aluno indisciplinado, justamente porque questiona, porque se entedia facilmente. Isso não é rebeldia, é necessidade de desafio”, explicou Silvia Altoé.
Essa confusão revela a falta de preparo das escolas e dos profissionais de saúde para reconhecer os sinais. O resultado é que muitas famílias peregrinam em busca de respostas, quando poderiam receber orientação logo nos primeiros anos escolares.
Família e escola como parceiras
As convidadas foram unânimes em afirmar que família e escola são pilares indispensáveis nesse processo. O acolhimento familiar dá segurança emocional; o olhar atento da escola garante estímulo intelectual.
“Quando a escola acolhe, a criança floresce. Quando não acolhe, ela se retrai. Em alguns casos, pode até abandonar os estudos”, alertou Silvia Altoé.
Foram citados exemplos de projetos que transformaram a experiência de alunos, como oficinas criativas e atividades que valorizam a autonomia. Para além das iniciativas pontuais, o que se espera é que as instituições de ensino incorporem a ideia de que cada estudante tem um ritmo e um potencial próprio.
As consequências do não reconhecimento
Ignorar a superdotação não é apenas desperdiçar talentos; é também expor crianças e jovens a riscos emocionais sérios. O episódio destacou que, sem apoio, muitos superdotados desenvolvem ansiedade, depressão e até rejeição à escola.
“É preciso olhar para além das notas. Quando a criança apresenta desânimo, irritabilidade ou queda repentina de desempenho, pode estar pedindo ajuda”, afirmou Karliny Uchoa.
Esses sinais, se não forem identificados, podem levar ao isolamento social ou até à evasão escolar. A mensagem central das especialistas foi clara: a superdotação precisa ser tratada como uma demanda legítima de cuidado e investimento.
Políticas públicas ainda insuficientes
Embora algumas cidades brasileiras já contem com núcleos de atendimento a alunos com altas habilidades, ainda falta uma política nacional consistente.
“Temos esforços isolados, mas não uma estratégia ampla. Isso mantém muitas crianças invisíveis”, avaliou Silvia.
As convidadas defenderam mais investimento em formação de professores, produção de materiais adequados e programas específicos para esse público. Também lembraram que o Brasil já possui diretrizes legais sobre a educação especial, mas ainda não conseguiu implementar plenamente as ações voltadas aos superdotados.
Em outros países, como Estados Unidos e Coreia do Sul, programas nacionais de estímulo já existem há décadas, o que mostra o quanto o Brasil precisa avançar para não desperdiçar seu capital humano.
A cultura que precisa mudar
A discussão também passou pelo ambiente cultural das organizações educacionais. Muitas vezes, a lógica escolar está centrada na média, e não nos extremos — o que deixa de fora tanto os alunos com dificuldades quanto os superdotados.
“Não é fácil mudar a cultura, porque ela nasce junto com a escola. Mas se quisermos transformar, precisamos começar pela mentalidade de gestores, professores e famílias”, disse Maria Lúcia.
Esse ponto reforça a ideia de que não basta criar programas pontuais. É necessário um movimento cultural que valorize a diversidade de talentos e permita que cada aluno seja reconhecido em sua singularidade.
Inclusão como princípio
O episódio concluiu com uma mensagem forte: a superdotação não deve ser vista como privilégio, mas como parte da diversidade humana.
“Valorizar a superdotação é valorizar o futuro do país. Esses talentos são riqueza coletiva e precisam de apoio para florescer”, resumiu Karliny.
Mais do que formar indivíduos bem-sucedidos, apoiar crianças e jovens superdotados é investir em inovação, cultura e desenvolvimento social. É garantir que o Brasil não desperdice potenciais que podem transformar a sociedade.
Assista ao episódio completo
O episódio sobre superdotação já está disponível no canal do YouTube do Maringá Post. O Ponto a Ponto Podcast é apresentado por Ronaldo Nezo e produzido em parceria com o V Mark Estúdio.
Assista aqui ao episódio completo:









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