A gente morre, sim, no trânsito

“O médico Fábio Tokunaga perdeu a vida dirigindo seu veículo a 67,3km por hora. Não deu tempo de desviar de outro veículo, que invadiu a pista da esquerda após uma malfadada manobra de conversão à direita.” 

  • Por Wilame Prado
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    A gente reclama de tudo no trânsito. Dos motociclistas apressados, das faixas de pedestres não respeitadas e dos radares que limitam velocidades a 50km por hora ou 40km por hora. A gente entra num veículo já acostumado ao estresse, não importa o tamanho da cidade, seja ela grande, média ou pequena. 

    A gente desmerece o perigo que há num volante, e se permite olhar as notificações do celular ou dividir a atenção com a música, com a conversa do passageiro ou com algo para beber no porta-copos. A gente perdeu o medo da violência que pode existir no trânsito.

    Um acidente fatal marcou o novembro de Maringá porque parecia improvável morrer numa manhã de uma sexta-feira ensolarada, em uma avenida arborizada e simpática, ao lado de um bosque agradável. Mas a gente morre, sim. E pouco importa se estamos desrespeitando limites de velocidade ou se estamos atravessando a rua olhando para a tela do celular. 

    O médico Fábio Tokunaga perdeu a vida dirigindo seu veículo a 67,3km por hora. Não deu tempo de desviar de outro veículo, que invadiu a pista da esquerda após uma malfadada manobra de conversão à direita. 

    Na maioria das colisões como aquela, teríamos danos materiais apenas. Um parachoque a ser trocado, farois esfacelados e aquele estresse básico de acionar o seguro, bater foto da batida, respirar fundo após o susto do impacto e seguir a vida.

    Talvez ainda tivesse dado tempo de buscar a filha na escola, de ter almoçado no shopping com os pais ou de ter ido para casa buscar aqueles documentos que mais tarde seriam encaminhados a algum cartório da cidade. Mas a gente morre, sim, no trânsito. E não precisa estar em cima de uma moto, andar a mais de 100km por hora ou então ficar mais de 5 segundos respondendo a uma mensagem no celular. 

    Após a colisão, o golpe do destino jogou o veículo de Tokunaga contra uma árvore. O carro capotou e pegou fogo quase que instantaneamente. Não foi possível fugir das chamas a tempo. Não foi possível viver o restante daquela sexta-feira normalmente. Não haverá mais atendimentos médicos – ele era oftalmologista. E nem provas de velocidade em algum autódromo preparado para a adrenalina que pilotos profissionais gostam de ter ao se aventurarem com os motores.

    A justiça julgará os culpados pelo acidente “besta” com vítima fatal na região central de Maringá. Pouco importa, pois a gente morre, sim, segurando volantes ou sobre duas rodas. A gente também morre a pé atravessando ruas, ou sentados em cadeiras na calçada após veículos desgovernados invadirem ferozmente mesas de bares compostas por gente feliz em uma happy hour qualquer. A gente morre até mesmo quando o freio de mão não foi acionado e o próprio veículo nos esmaga saindo da garagem de casa.

    Dizer que o trânsito mata é uma frase vazia, pois é a gente mesmo que se mata no trânsito, todos os dias. No fundo, a nossa pressa ao dirigir não faz sentido algum: tudo pode esperar, menos a morte. No fundo, aquela mensagem no celular não precisaria ter sido respondida nos minutos em que deveríamos estar concentrados na direção de um carro ou pilotando uma moto. Mas a gente dá sopa pro azar. E, infelizmente, a gente morre, sim, no trânsito.

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