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O que começou como o sonho de ter uma Bíblia própria se transformou em uma das maiores coleções particulares do Brasil. O pastor Carlos Saloá, hoje morador de Campo Grande (MS), reúne um acervo impressionante com 1.093 exemplares catalogados oficialmente e versões em 311 idiomas diferentes, além de relíquias raras como uma Bíblia à prova d’água, miniaturas, exemplares em Braille, manuscritos antigos e até uma réplica da famosa Bíblia de Gutenberg, o primeiro livro impresso do mundo.
De passagem por Maringá, o pastor explica em entrevista para o Maringá Post que a paixão começou ainda na infância, no interior de Pernambuco, quando ter uma Bíblia completa parecia um sonho distante.
“Eu morava no Nordeste, era muito pobre e a gente só tinha o Novo Testamento que os Gideões entregavam nas escolas. Meu sonho era ter uma Bíblia completa”, relembra.
Aos 12 anos, ele decidiu se batizar apenas para ganhar sua primeira Bíblia.
“Eu me batizei para ganhar aquela Bíblia. Na época eu nem entendia muito sobre conversão, mas queria muito aquele exemplar. Foi minha primeira Bíblia completa.”
Pouco tempo depois, a perda desse primeiro exemplar marcou profundamente sua história.
“Meu irmão acabou jogando essa Bíblia fora. Não sei se foi sem perceber ou por outra razão, mas aquilo mexeu muito comigo. Foi ali que nasceu o desejo de ter várias, para que nunca mais acontecesse aquilo.”
Em 2001, já convertido na Assembleia de Deus, Carlinhos ganhou sua segunda Bíblia e decidiu que começaria sua coleção.
“Depois veio a Bíblia Pentecostal, depois a Plenitude e outras edições. Eu dizia: um dia ainda vou ter muitas Bíblias. Só não imaginava que seriam tantas.”
Raras e histórias improváveis

A coleção cresceu ainda mais quando ele passou a viajar para fora do Brasil. Em uma temporada na Alemanha, conheceu um projeto que doava Bíblias para imigrantes e começou a receber exemplares em línguas estrangeiras.
Hoje, são exemplares em hebraico, urdu, hindi, tibetano, galês, russo, francês, romeno, além de línguas indígenas como xavante, caiuá, quéchua e kaingang.
“Tenho Bíblias em línguas que já nem existem mais. Algumas são verdadeiras relíquias.”
Uma Bíblia em farsi, idioma do Irã, datada de 1904, está entre os principais destaques da coleção e quase foi apreendida durante uma viagem a Israel.
“Fiquei detido algumas vezes porque os policiais acharam que eu estava me convertendo ao islamismo. Precisei explicar que era apenas coleção.”
Outro destaque é uma edição rara da segunda tradução da Bíblia em português, feita pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo.
“Devem existir apenas seis ou sete no Brasil. É uma relíquia.”
Há também uma Bíblia autografada pelo Papa João Paulo II, que pertenceu ao motorista do Papa Móvel e foi doada ao pastor durante a pandemia.
“Ela chegou no meu aniversário de 30 anos. Foi um presente emocionante.”
Bíblia à prova d’água e miniatura com lupa

Entre os exemplares mais curiosos está uma Bíblia à prova d’água, criada especialmente para povos indígenas. “Ela não é feita de papel comum. É um material impermeável. Você molha, seca e ela continua intacta.”
Hoje, ele possui duas dessas edições e planeja expor uma delas dentro de um aquário. “Quero deixá-la submersa para mostrar às pessoas como ela realmente funciona.”
Também chama atenção uma Bíblia miniatura, tão pequena que só pode ser lida com lupa. “Ela cabe praticamente na palma da mão. É fascinante.”
Além disso, há exemplares com capa de madeira vindos da Suécia, Bíblias de 32 quilos, versões divididas em 17 volumes, edições em Braille e mais de 100 exemplares com capa de leão.
O xodó da coleção
Apesar da dificuldade em escolher uma favorita, duas ocupam lugar especial.
“Tenho uma Bíblia de 1910 em alemão que amo muito e a réplica da Bíblia de Gutenberg, por ter sido o primeiro livro impresso do mundo.”
A Bíblia de Gutenberg original ocupa lugar entre as obras mais valiosas da história da humanidade.
“Algumas páginas são vendidas por centenas de milhares de dólares. Uma Bíblia completa pode ultrapassar cifras milionárias.”
Um museu no futuro

Hoje, o acervo está avaliado em cerca de R$ 200 mil, mas para ele o valor é muito maior.
“Se quiserem me comprar, nem por milhões eu vendo.”
O pastor já planeja o futuro da coleção: a criação de um Museu da Bíblia em Saloá, sua cidade natal, em Pernambuco.
“Não quero isso apenas guardado para mim. Quero que as pessoas tenham acesso e entendam a importância da Bíblia.”
A ideia é doar todo o acervo em formato de usufruto, permitindo exposição pública enquanto ele estiver vivo. “A Bíblia está traduzida em mais de quatro mil línguas. Isso precisa ser conhecido.”

Mais que coleção, propósito
Além da coleção, Carlinhos também carrega uma história marcada pela superação. Diabético tipo 1, ele já enfrentou 11 comas diabéticos, uma parada cardíaca e foi o primeiro caso de Covid-19 registrado em Mato Grosso do Sul.
Mesmo assim, mantém a fé como centro da vida. “Todos os dias eu acordo sorrindo porque estou vivo. Nunca reclamei. Tenho gratidão.”
Para ele, a Bíblia nunca foi apenas um objeto. “A Bíblia é meu manual de vida. Tem resposta para tudo. Para casar, para viver, para decidir. Ela é o fundamento da minha fé.”
E conclui com a mesma convicção que sustenta sua coleção.
“Tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro. Luxo de verdade é ter salvação e vida eterna.”









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