Filhos mantêm legado de Verdelírio Barbosa e desafiam a era tecnológica com jornal impresso

Mais de três décadas, o compromisso continua o mesmo, apesar das mudanças no cenário da comunicação

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    Em tempos de informação rápida, consumo imediato e avanço da inteligência artificial, manter um jornal impresso diário é, para muitos, um desafio quase impossível. Em Maringá, no entanto, o Jornal do Povo segue resistindo e mostrando que o desafio pode ser uma realidade — impulsionado pelo legado deixado por Verdelírio Barbosa e pela dedicação dos filhos, que transformaram a herança em missão.

    À frente do administrativo, o filho mais velho Deny Barbosa, relembra que a história com o jornal começou muito antes da formação em Direito. “Eu estou no jornal desde 1990, quando meu pai fundou o Jornal do Povo. Comecei como digitador, na época em que tudo era feito na lauda, no papel. Era um processo totalmente manual”, contou.

    Mais de três décadas depois, ele afirma que o compromisso continua o mesmo, apesar das mudanças no cenário da comunicação.

    “Saiu da prensa, está feito. Diferente da internet, que você apaga e corrige, no impresso o erro precisa ser assumido publicamente. Isso exige muito mais responsabilidade”, destacou.

    Resistência em meio à pressa

    Dentro da redação, o ritmo é puxado. O compromisso continua o mesmo, apesar das mudanças no cenário da comunicação. Foto: Rafael Bereta/Maringá Post


    Com a transformação digital, o comportamento do leitor também mudou — e isso impacta diretamente o jornalismo. “Hoje as pessoas estão imediatistas. Leem o título e acham que já entenderam tudo. Às vezes nem o resumo querem mais ler”, observou Denni.

    Ainda assim, ele acredita que o jornal impresso encontrou um novo papel. “O jornal virou uma curadoria. A gente pega o que é relevante, aprofunda e entrega com contexto. É quase uma biografia diária da cidade”, disse.

    A crítica também se estende ao uso crescente da tecnologia na produção de conteúdo. “A inteligência artificial pode ajudar, mas não substitui o humano. Não tem emoção, não tem vivência, não tem a escuta que o jornalismo exige”, completou.

    Rotina intensa e paixão pela notícia

    Dentro da redação, o ritmo é puxado. As irmãs Danyani e Day Barbosa, que também seguem à frente do jornal, destacam que o trabalho vai muito além do horário formal.

    “É uma realização continuar o sonho do nosso pai, mas também é uma responsabilidade enorme. Tudo que a gente escreve fica registrado”, afirmou a editora-chefe, Danyani Barbosa.

    Day reforça o desafio diário de manter o interesse do leitor. “A gente precisa se colocar no lugar de quem lê. Pensar: o que o maringaense quer saber? A manchete precisa chamar atenção, mas com conteúdo de verdade”, explicou.

    Jornalista Day Barbosa, folheando páginas de umas das primeiras edições do impresso. Foto: Rafael Bereta/Hoje Maringá


    A rotina começa antes mesmo da redação abrir. “De manhã a gente já está acompanhando notícias, recebendo pautas. À tarde vira um fervo, e muitas vezes saímos daqui à noite”, contou.

    Legado reconhecido

    Em meio a esse trabalho contínuo, o legado de Verdelírio Barbosa voltou a ganhar destaque. Na manhã dessa terça-feira, 31, a Câmara Municipal de Maringá inaugurou a Sala de Imprensa que leva o nome do jornalista, além de homenagear profissionais que fizeram parte da história do impresso na cidade.

    A iniciativa, proposta pelo vereador Angelo Salgueiro, reforça a importância de quem ajudou a construir a comunicação local ao longo de décadas.

    Representando os homenageados, o jornalista Wall Barrionuevo destacou a influência de Verdelírio na profissão. “Ele foi um jornalista combativo, direto e apaixonado. Aprendemos muito com ele, e esse reconhecimento também valoriza toda uma geração que viveu o impresso intensamente”, afirmou.

    Parte do acervo do Jornal do Povo. Foto: Rafael Bereta/Hoje Maringá

    Mais que um jornal, uma memória

    Para a família, seguir com o Jornal do Povo é mais do que manter um negócio — é preservar uma história. Ao revisitar edições antigas, a equipe percebe que muitos temas se repetem ao longo dos anos.

    “Mudam os personagens, mas os problemas são parecidos. Isso mostra como o jornal também é um registro histórico da cidade”, comentou Danyani.

    Mesmo diante das dificuldades, a convicção permanece firme. “Uma cidade sem jornal não é uma cidade”, resume Denni. “E enquanto a gente puder, vamos continuar contando essa história todos os dias.”

    As irmãs Danyani e Day Barbosa, que também seguem à frente do jornal, destacam que o trabalho vai muito além do horário formal. Foto: Rafael Bereta/Maringá Post

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