As empresas estão de olho no seu feed

Por: - 27 de julho de 2021

Às vezes, rolando o feed do LinkedIn, vejo algumas publicações em que imagino: “Postando esse tipo de conteúdo, essa pessoa nunca vai conseguir um bom emprego”. E pelo visto não sou apenas eu que estou de olho nos feeds das redes sociais. As empresas também estão. Mas elas podem fazer isso? Que tipo de conteúdo “desagrada” as contratantes? É o que eu quero discutir com você a seguir. 

Esse tema, apesar de não ser novo, veio à tona recentemente na “bolha dev” do Twitter. Dois casos foram emblemáticos e tiveram repercussão forte na comunidade tech. O primeiro foi fruto de uma mensagem, recriminando uma influenciadora de tecnologia, por conta de suas ideias e pelo fato da mesma possuir um OnlyFans. O resultado foi a hashtag #devspelades, onde seguidores e outras celebridades de tecnologia, manifestaram o seu apoio – seja por palavras, ou compartilhando fotos semi-nuas, como reação à mensagem recebida. 

https://twitter.com/WonderWanny/status/1407867424100265986?s=20

O segundo caso foi envolvendo dois outros influenciadores da área técnica. Reconhecidos pelo seu apoio à comunidade de tecnologia, seus nomes foram aventados durante reunião do CNCF KDC Brazil – evento voltado aos usuários de Kubernetes – mas não de uma forma positiva. Foram citados, segundo o que foi possível apurar, como pessoas polêmicas, desalinhadas ao código de conduta do evento. O caso, segundo um dos organizadores, “não passou de um mal-entendido”. Mas já era tarde. A comunidade técnica se revoltou contra as ações dos organizadores e outro evento foi agendado para o mesmo dia. O DevOps Extreme #Antifacista.

https://twitter.com/badtux_/status/1413782990702923777?s=20 

Ao ler sobre isso, talvez a sua primeira dúvida seja igual a minha: Eles “podem” realmente fazer isso? Eu procurei a Dra. Ana Carolina Caldari, mestra em direito, para obter respostas. Segundo a advogada, apesar dos casos demandarem maiores estudos – afinal cada caso é um caso – a regra geral que vale é a Constituição Federal. E ela reza no seu artigo 5º, VIII que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Dado que a Constituição é o maior documento de leis do país, não há acordo, contrato, código de conduta que possa contradizer o seu texto. “No caso do evento, a organização poderia inclusive responder judicialmente pela sua postura” completa a Dra. Ana Caldari.

Mas não é toda “convicção filosófica” que está sob esta proteção. Manifestações homofóbicas, por exemplo, por serem criminosas, poderiam sim resultar em uma demissão por justa causa. Ainda, de acordo com a Dra. Ana Caldari, a empresa pode utilizar o dano moral, causado pelas manifestações ou ações do funcionário, como justa causa para demissão. Ou seja, a reação das pessoas em relação às marcas, pode justificar sim o rompimento de um contrato de trabalho.

Os problemas, no entanto, não são apenas jurídicos. Existem pesquisas que comprovam que ambientes diversos conseguem alavancar a performance das empresas. E para encorajar a diversidade, é preciso que seja construído um ambiente seguro, que permita a cada pessoa expressar a sua diversidade: quer seja de ideias, de identidade, de raça, de grupo ou qualquer outra. E isso se consegue, apenas, evitando comportamentos que menosprezem ou que machuquem as pessoas. Falando diretamente: evitando comportamentos e falas racistas, xenófobas, homofóbicas, machistas e tantas outras.

Nós estamos prontos para isso? A resposta curta é: não. A pessoa da área de tecnologia é, em geral, o puro reflexo da sociedade. É especialista em códigos, mas completamente rasa no que diz respeito a questões políticas e sociais. Não raramente repetimos o bordão “agora é tudo mimimi”, minimizando a importância das pautas das minorias sociais. Não raramente apoiamos mudanças nas leis, que virtualmente possam nos favorecer de alguma forma, sem pensar nos impactos, que essas mesmas leis, terão para outras frentes de trabalho.

Na contramão dessa percepção geral, o que tenho observado é um número crescente de pessoas, com alinhamento mais progressista, ganhando evidência entre as comunidades. Pode ser uma percepção errônea, partindo de uma análise casuística? Não tenho dúvidas. Mesmo assim, o sentimento de “representatividade filosófica” dá aquele quentinho no coração, com um pingo de esperança de que é possível mudar esse cenário. E ainda, que pessoas técnicas com softskills apuradas tem maior destaque diante da massa que “não gosta dessas paradas sociais”.

Se as empresas entenderam que diversidade lhes traz maiores lucros, é fácil inferir que a contratação de pessoas tóxicas podem lhes causar prejuízo. O que pode agravar o “apagão das vagas tech” que já estamos vivendo. Afinal, não basta que você seja bom com códigos; você também precisa ser uma boa pessoa. E se não for, talvez amargue algum tempo na fila do desemprego. Será?

 

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