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Às vésperas do início da temporada 2026, o Maringá Futebol Clube vive um momento que mistura expectativa, responsabilidade e ambição. Consolidado no cenário nacional após o acesso à Série C e três vice-campeonatos estaduais recentes, o clube busca dar mais um passo em um projeto que, segundo seus dirigentes, é pensado muito além do placar dos jogos.
Essa visão ficou evidente na entrevista concedida por Rafael Dacome, Diretor Jurídico e de Futebol do clube, ao podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post. Ao longo da conversa com o jornalista Ronaldo Nezo, Dacome detalhou bastidores da gestão, abriu números do orçamento, explicou decisões que costumam gerar críticas da torcida e projetou o futuro do clube.
Da advocacia à gestão do futebol
Formado em Direito pela Universidade Estadual de Maringá, Rafael Dacome construiu sua trajetória profissional fora do futebol antes de assumir funções estratégicas no clube. Atuou por anos na advocacia e depois na gestão comercial de uma empresa familiar, até ingressar como acionista do Maringá FC, em 2017.
“A partir de lá nós já passamos a tentar transformar o Maringá Futebol Clube numa empresa, organizar processos, orçamento, planejamento”, relembra. A dedicação ao projeto aumentou com o passar dos anos, até que, em 2023, ele assumiu integralmente a função de Diretor de Futebol, passando a cuidar diretamente de orçamento, contratações, metas esportivas e relacionamento com os acionistas.
SAF, responsabilidade e crítica ao modelo tradicional
Ao falar sobre o futebol brasileiro, Dacome faz uma crítica direta ao modelo histórico de gestão dos clubes. Para ele, o problema central não está apenas em ser ou não uma SAF, mas na responsabilidade com o dinheiro.
“Em um clube associativo, o dinheiro não tem dono. O presidente está ali de passagem e muitas vezes investe de forma irresponsável para tentar se manter no poder”, afirma. Segundo ele, a transformação em SAF traz um elemento essencial: responsabilização patrimonial. “Quando os responsáveis passam a responder com patrimônio próprio, a forma de lidar com o dinheiro muda completamente.”
Ainda assim, o dirigente pondera que não existe fórmula mágica. “O que manda, de fato, é a gestão”, diz, ao citar exemplos de clubes associativos bem administrados e SAFs que enfrentam dificuldades.
Venda de jogadores: necessidade, não escolha
Um dos pontos mais sensíveis para a torcida — a venda frequente de atletas — é tratado por Dacome de forma direta. Ele reconhece a frustração do torcedor, mas reforça que, para um clube jovem e ainda deficitário, negociar jogadores é questão de sobrevivência.
“O torcedor sempre quer ver o time ganhando, e nós também queremos. Mas isso tem um preço”, afirma. “Não é inteligente manter um jogador valorizado se o clube precisa daquele recurso para continuar existindo.”
Ao citar casos concretos, como a venda do atacante Rodrigo, o dirigente explica: “Eu poderia não ter vendido. Mas consegui reduzir o prejuízo do clube, manter o acionista motivado e isso não garantia, de forma alguma, o acesso.”
Segundo ele, o Maringá seguirá sendo um clube formador e vendedor de ativos. “A negociação de jogadores continuará sendo uma tônica do nosso projeto, seja por empréstimo ou venda definitiva.”
Bastidores do departamento de mercado
Para sustentar esse modelo, o clube investe cada vez mais em inteligência de mercado. Atualmente, cerca de 120 jogadores são monitorados simultaneamente, com apoio de tecnologia, análise de dados e observação presencial.
“A tecnologia ajuda muito, mas assistir ao jogador no campo é fundamental”, explica. “Na TV, a câmera segue a bola. No estádio, você observa o comportamento do atleta sem a bola, a postura, a tomada de decisão.”
Além do aspecto técnico, o clube avalia o perfil humano dos atletas. “Antes de trazer o jogador, você traz a pessoa. O homem entra em campo, não só o atleta”, diz.
Orçamento aberto e números raros no futebol
Diferentemente do que ocorre na maioria dos clubes brasileiros, o Maringá FC adota uma política de transparência interna e externa sobre suas finanças. Para a temporada 2025, o orçamento aprovado previa uma receita de cerca de R$ 15 milhões e despesas na faixa de R$ 25 a 26 milhões.
“Começamos o ano com um déficit de aproximadamente R$ 10 milhões”, afirma Dacome. Esse valor foi apresentado previamente aos acionistas, que assumem o aporte de forma planejada ao longo do ano.
Receitas extraordinárias, como a campanha na Copa do Brasil e a superação da meta de vendas de jogadores, ajudaram a reduzir esse déficit. “No final do ano, o aporte deve ficar entre R$ 6 milhões e R$ 6,5 milhões”, detalha.
Para 2026, o orçamento projetado gira em torno de R$ 34 a 35 milhões, ainda com déficit, mas com crescimento nas receitas de patrocínio, matchday, sócio-torcedor e venda de produtos.
Dinheiro ajuda, mas não garante resultado
Apesar do crescimento orçamentário, o Maringá não figura entre as maiores folhas salariais das competições que disputa. Na Série C de 2025, o clube tinha a 11ª maior folha, posição semelhante à colocação final no campeonato.
“O dinheiro não está diretamente ligado ao desempenho esportivo, mas ajuda muito”, pondera Dacome. “Nós nunca teremos as maiores folhas, mas investimos muito em pessoas, staff e comissão técnica para potencializar o que temos.”
Infraestrutura, estádio e gramado
Outro tema recorrente entre torcedores é a condição do gramado. Segundo o dirigente, cuidar de um estádio público exige diálogo constante com o poder público e contrapartidas claras.
O clube investiu cerca de R$ 1,2 milhão na reforma do campo do centro de treinamento, com troca de gramado, drenagem e irrigação moderna. No estádio Willie Davids, o valor que seria pago em aluguel é revertido em melhorias estruturais.
“Todo o recurso que o Maringá deveria pagar de aluguel é transformado em infraestrutura”, explica. “Gramado, arquibancada, banheiros, corrimões. É uma relação de ganha-ganha com a Prefeitura.”
Oscilações, pressão e a temporada 2025
A avaliação da temporada passada é feita com equilíbrio. Vice-campeão paranaense, boa campanha na Copa do Brasil e permanência na Série C são vistos como resultados positivos, ainda que o clube tenha enfrentado uma queda de rendimento ao longo do Brasileiro.
“Quando você entra num looping de resultados negativos, perde confiança”, afirma Dacome. “Um time jovem sente isso. A pressão cresce, e sair desse ciclo só acontece com vitórias.”
Sobre a troca de comando técnico, ele destaca o respeito ao trabalho realizado. “O [Jorge] Castilho escreveu o nome dele na história do clube, mas chegou um momento em que o ambiente já não permitia reagir.”
Base: formação esportiva e humana
A base é tratada como um dos pilares estratégicos do projeto. Atualmente, o clube mantém categorias do Sub-10 ao Sub-17, com atletas alojados no centro de treinamento e acompanhamento escolar e psicológico.
“A gente começa cuidando da pessoa, do ser humano, para que ele se torne um bom jogador e um cidadão”, diz Dacome. Em 2025, 16 atletas da base foram negociados com clubes de maior expressão, mesmo antes de chegarem ao profissional.
Onde o Maringá quer chegar
Ao olhar para o futuro, o dirigente não foge da ambição. “Daqui a cinco anos, na Série A”, afirma, sem rodeios. Ele reconhece os desafios, mas reforça a convicção no modelo adotado.
“Quando você faz um bom trabalho, com gestão, organização e pessoas certas, a tendência é que, no médio e longo prazo, os resultados apareçam.”
Serviço
O episódio completo do Ponto a Ponto está disponível no canal do Youtube do Maringá Post. O podcast é apresentado pelo jornalista Ronaldo Nezo e gravado no VMark Estúdio.






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