Tempo estimado de leitura: 5 minutos
O Natal chega todos os anos cercado de luzes, compras e compromissos, mas nem sempre acompanhado de silêncio, reflexão e sentido. É a partir desse contraste que o podcast Ponto a Ponto, do Jornal Maringá Post, apresenta um episódio especial com o arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, em uma conversa profunda conduzida pelo jornalista Ronaldo Nezo. Ao longo da entrevista, o religioso propõe um olhar mais humano, simples e reconciliador para este período do ano.
Franciscano, com mais de quatro décadas de vida sacerdotal, Dom Severino fala com a autoridade de quem viveu diferentes realidades da Igreja no Brasil. Natural de Petrolândia, em Santa Catarina, foi ordenado padre em 1982 e passou por missões marcadas pelo contato direto com populações vulneráveis, como no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Em agosto de 2020, no auge da pandemia da Covid-19, assumiu a Arquidiocese de Maringá, tomando posse em uma catedral vazia — um gesto simbólico de um tempo difícil, mas também de esperança.
O Natal além do consumo
Durante a entrevista, Dom Severino chama atenção para o risco de o Natal se transformar apenas em um evento comercial. Para ele, o brilho das vitrines e das decorações pode acabar ofuscando a luz de Belém, representada por uma criança pobre, nascida em uma manjedoura. “Os sinais do Natal são importantes, mas eles precisam entrar no coração, não apenas nos olhos”, afirma.
O arcebispo reconhece que o comércio cumpre seu papel, mas reforça que cabe às pessoas cristãs e às famílias ressignificarem esses sinais. Um presente, por exemplo, pode deixar de ser apenas um objeto e se tornar um gesto de cuidado, afeto e presença. Nesse sentido, o lema episcopal de Dom Severino — acolher e cuidar — atravessa toda a conversa como um convite prático para o cotidiano.
Polarização, fé e responsabilidade
Outro ponto central do episódio é a polarização política e seus reflexos nas relações pessoais e familiares. Dom Severino defende que a Igreja não deve se confundir com projetos partidários, mas também não pode se omitir diante das injustiças sociais. Para ele, o desafio está em denunciar o que precisa ser denunciado sem transformar a fé em instrumento ideológico.
Ao relatar situações vividas ao longo de sua atuação pastoral, o arcebispo explica que cada padre, como cidadão, tem suas convicções políticas, mas que essas escolhas não devem ser levadas ao altar. “Como pastor, eu preciso acolher todos. Para mim, não há sigla; há serviço. O que importa é o cuidado com o povo”, resume.
O Natal como tempo de reconciliação
A entrevista também aborda um fenômeno cada vez mais comum: famílias divididas por disputas políticas. Dom Severino reconhece que, nos últimos anos, almoços e ceias de Natal se transformaram, em muitos casos, em ambientes de tensão ou silêncio constrangedor. Para ele, a celebração natalina pode — e deve — funcionar como um tempo de reconciliação.
Segundo o arcebispo, a conversão cristã passa pela mudança de olhar e pela disposição de conviver com o diferente. “Todos nós precisamos nos converter”, afirma, ao explicar que conversão não significa convencer o outro, mas rever a própria postura, abandonar bolhas ideológicas e recuperar o diálogo maduro.
Dor, luto e esperança
Em um dos momentos mais emocionantes do episódio, Dom Severino compartilha a experiência da perda de um sobrinho às vésperas do Natal. Ao falar sobre luto, ele mostra como a fé cristã não elimina a dor, mas oferece caminhos para ressignificá-la. Para o arcebispo, o nascimento de Jesus ajuda a compreender a vida e a morte como partes de um mesmo mistério, no qual a esperança pode superar a tristeza.
Esse olhar pastoral se estende especialmente aos jovens e às pessoas que, segundo ele, têm perdido o sentido da vida em meio à ansiedade, à pressão social e ao excesso de estímulos. Dom Severino destaca a importância da escuta, do olhar atento e da presença — valores que, segundo ele, precisam ser recuperados com urgência.
Fazer o “movimento contrário”
Ao final da conversa, o arcebispo propõe o que chama de “movimento contrário”: desacelerar, questionar a lógica que sufoca a vida moderna e abrir espaço interior para o essencial. Em um mundo marcado por notificações, boletos e pressa, o Natal surge, para Dom Severino, como uma oportunidade concreta de reencontro consigo mesmo, com o outro e com Deus.
O episódio especial de Natal do Ponto a Ponto com Dom Frei Severino Clasen está disponível no canal do Jornal Maringá Post no YouTube.
A entrevista integra a proposta do podcast de promover diálogos profundos sobre temas que atravessam a cidade, a sociedade e a experiência humana, especialmente em momentos simbólicos como o fim de ano.









Comentários estão fechados.