Inteligência artificial no RH: “A máquina não tem viés, mas a decisão final precisa ser humana”, diz Wil Teixeira

Cofundador da RH Gestor, o jornalista e empreendedor afirma que a tecnologia deve apoiar — e não substituir — o olhar humano no recrutamento e desenvolvimento de pessoas.

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    Para o jornalista e cofundador da RH Gestor, Wil Teixeira, a inteligência artificial está redesenhando o papel dos profissionais de recursos humanos, mas ainda há muito equívoco sobre como usá-la. “Criar currículo é um trabalho extremamente operacional, a máquina faz isso para você. Ela pode ajudar a criar, organizar e até filtrar currículos, mas o olhar humano continua essencial”, afirma.

    Ele lembra que, em grandes empresas, a dimensão do desafio é quase incontrolável. “É humanamente impossível, por exemplo, você ter uma empresa de dez mil colaboradores, que contrata 300 pessoas por mês, e um RH de três ou quatro profissionais dar conta de ler milhares de currículos com qualidade”, explica. “No Brasil, essa ainda é uma realidade distante.”

    Wil usa uma metáfora bem-humorada para descrever a rotina dos recrutadores: “O recrutamento às vezes parece aqueles programas do Silvio Santos, em que jogavam as cartas para cima e pegavam uma. É quase isso.”

    O papel da inteligência artificial na triagem

    É nesse contexto que a tecnologia e a IA se tornam aliadas, ajudando a eliminar a sobrecarga e dar mais eficiência ao processo. “Muita gente acha que a inteligência artificial é um mal porque o algoritmo exclui pessoas. Eu penso diferente. Se você preencher os dados corretamente, o algoritmo elimina o viés humano”, diz.

    “A máquina não tem viés. Ela vai olhar: o candidato tem essas skills, o histórico dele mostra isso — e pronto. Ela ajuda a ranquear, não a excluir.”

    Para Wil, a IA deve ser vista como uma ferramenta de triagem e priorização, e não como substituta da decisão. “Se a vaga exige inglês fluente, por exemplo, a IA pode fazer essa triagem básica. Mas entre os candidatos com inglês fluente, quem é o mais indicado? Aí entra o ser humano.”

    A tecnologia como apoio à estratégia

    Wil faz questão de diferenciar o uso inteligente da automação de uma postura reducionista. “Eu não concordo com a IA excludente, que seleciona pessoas sozinha. A seleção precisa manter o contato humano.”

    Para ele, a função da tecnologia é liberar o RH das tarefas repetitivas, para que ele possa atuar de forma mais estratégica. “Automação serve para ganhar performance e colocar o RH num lugar de gestão, de visão de negócio. Ao invés de ficar apagando incêndios, o gestor pode pensar: como o RH pode gerar lucro? Como pode ser motor de crescimento?”

    O desafio da execução: aplicar o básico com consistência

    Apesar do entusiasmo com as novas ferramentas, Wil lembra que o segredo não está em fórmulas mágicas, mas na execução. “Eu sempre digo que não existe nada de muito mágico. É algo processual. Existe um playbook, uma cartilha básica de atividades que você deve seguir para desenvolver uma equipe de sucesso.”

    “O problema é que, na prática, o maior desafio é ser feito. Execução é o gargalo de muitas empresas — no RH e em qualquer outra área.”

    Para ele, o diferencial de um time de alta performance está menos na inovação tecnológica e mais na disciplina em aplicar o que precisa ser feito.

    O RH como motor do crescimento

    Wil reforça uma tese que aparece em várias passagens da entrevista: o RH deixou de ser um setor de apoio e passou a ser o centro da estratégia empresarial.

    “Eu bato muito nessa tecla: o RH precisa pensar como área de resultado. É ele que ajuda a empresa a crescer, a escolher e desenvolver as pessoas certas. A tecnologia é uma ferramenta — quem faz a diferença continua sendo gente.”

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