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Cansaço extremo, sensação de estar sempre conectado e a impressão de não produzir o suficiente. Esses sinais são cada vez mais comuns na rotina de profissionais brasileiros e mostram como a saúde emocional no ambiente corporativo se tornou um dos maiores desafios da atualidade. Esse foi o tema do episódio mais recente do podcast Ponto a Ponto, produzido pelo Maringá Post em parceria com o V Mark Estúdio, que recebeu a psicanalista e especialista em gestão de pessoas Jussara Costa.
O olhar para a saúde emocional
Com atuação em recursos humanos desde 2002, Jussara conta que o interesse pelo tema surgiu antes da pandemia de Covid-19, quando percebeu a necessidade de ouvir os colaboradores de maneira mais próxima. Segundo ela, a pandemia agravou os problemas que afetam a saúde emocional dos trabalhadores, mas, antes disso, já era possível identificar a necessidade de cuidar dos colaboradores.
“Trabalho com recursos humanos desde 2002, quando ainda havia muita confusão entre departamento pessoal e RH. Mas, bem antes da pandemia, já sentia a necessidade de dar voz aos trabalhadores. Foi quando criei um projeto de escuta ativa, antes mesmo de se falar tanto em saúde mental dentro das empresas”, relatou.
A partir dessa experiência, especialmente no chão de fábrica, Jussara notou como pequenas ações podiam gerar grandes mudanças. Ela citou o caso de mulheres que deixavam de fazer exames preventivos com medo de perder benefícios por faltar ao trabalho. Projetos simples, segundo ela, trouxeram impacto direto no bem-estar e nos resultados das empresas.
Pandemia e burnout: problemas acelerados
Questionada sobre os impactos da pandemia, Jussara explicou que o período apenas acelerou questões já existentes. Ela lembrou que o preconceito contra o cuidado psicológico ainda é um obstáculo.
“Não se falava muito de saúde mental. Muitas pessoas viviam em sofrimento psíquico, mas não entendiam. Esse sofrimento, muitas vezes, somatizava no corpo, com palpitações, dores, sintomas que não tinham diagnóstico clínico. A pandemia apenas escancarou esse cenário”, afirmou.
Ela destacou ainda o avanço dos casos de burnout no Brasil, considerado pela OMS um dos países com maiores índices. Para Jussara, não se trata mais de uma questão individual, mas de uma responsabilidade coletiva que inclui as empresas. A entrada da saúde mental na NR-1, norma de segurança do trabalho, reforça esse dever.
O mito de “deixar os problemas em casa”
Para a psicanalista, a ideia de que os trabalhadores devem separar totalmente vida pessoal e profissional já não faz sentido.
“Antigamente se dizia: ‘deixo meus problemas fora do trabalho’. Mas nós somos seres biopsicossociais. Carregamos nossas emoções para dentro da empresa. A geração Z já entende isso de outra forma: busca propósito, qualidade de vida e quer um ambiente saudável”, observou.
Esse novo perfil exige que as organizações se adaptem. Segundo Jussara, a responsabilidade por um ambiente emocionalmente saudável não é apenas do indivíduo, mas também da empresa que precisa reconhecer as necessidades de seus colaboradores.
Sinais de alerta e papel da liderança
Jussara também destacou os sinais de que algo não vai bem. Entre eles estão esgotamento físico, irritação constante, desatenção e apatia. Muitas vezes, o próprio trabalhador não identifica o que está acontecendo.
“Recebo pessoas que dizem: ‘chego no fim de semana e só consigo dormir’. Isso já é um indício de esgotamento emocional. Nesses casos, o líder precisa ter sensibilidade, abrir espaço para conversa e acionar o RH, em vez de simplesmente cobrar resultados ou demitir”, explicou.
A mudança cultural, segundo ela, passa por uma liderança mais empática, capaz de olhar além das metas. “Quando um colaborador que sempre performou bem tem queda de rendimento, é hora de perguntar o que está acontecendo, e não de criar uma cultura do medo”, reforçou.
Mudança de cultura é desafio coletivo
Jussara reconhece que transformar a cultura empresarial não é simples nem rápido. Trata-se de um trabalho “de formiguinha”, que exige envolvimento da alta gestão, gestores, RH e colaboradores.
“A cultura nasce com o fundador da empresa e mudar isso não acontece da noite para o dia. Mas é possível criar um ambiente mais saudável com ações integradas, treinamentos, espaços de escuta e valorização da saúde emocional”, afirmou.
Ela lembrou ainda que a preocupação com saúde mental já é um diferencial competitivo. Certificações como o Great Place to Work, que agora também avalia empresas no quesito saúde mental, estão cada vez mais valorizadas por profissionais que buscam qualidade de vida.
Uma pauta para o presente e o futuro
Para a psicanalista, olhar para a saúde emocional dos colaboradores deixou de ser opcional. É uma exigência das novas gerações, uma recomendação da OMS e uma necessidade para empresas que desejam crescer de forma sustentável.
“Não dá para ser só discurso. O ambiente precisa ser autêntico, atrativo e saudável. Isso não é apenas bom para o colaborador, mas também para a empresa, que reduz custos com rotatividade e conquista profissionais mais engajados”, concluiu.









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