Juros altos, dívidas e custo de vida esfriam consumo e atingem restaurantes e comércio em Maringá

Com orçamento apertado, famílias reduzem gastos com lazer e alimentação fora de casa, enquanto empresários relatam queda no movimento e buscam alternativas para manter as vendas em alta

  • Tempo estimado de leitura: 3 minutos

    Restaurantes mais vazios, comércio em ritmo lento e consumidores cautelosos já fazem parte da rotina em Maringá. A desaceleração no consumo, percebida por empresários e moradores, tem como pano de fundo juros altos, inadimplência crescente e custo de vida cada vez mais pesado.

    Além disso, dados do SPC Brasil, utilizados pela Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim), mostram que a inadimplência no Paraná cresceu 9,2% em fevereiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Cada consumidor negativado no Estado devia, em média, R$ 6.043.

    Para o economista da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Arthur Gualberto Bacelar da Cruz Urpia, o peso das dívidas e do crédito caro reduz diretamente a circulação de dinheiro na economia.

    “O Brasil continua entre os países com as maiores taxas de juros do mundo. Isso encarece financiamentos, parcelamentos e empréstimos. Quando a renda fica pressionada, as famílias cortam primeiro os gastos considerados não essenciais, como lazer, restaurantes, cinema e compras por impulso”, afirma.

    Segundo ele, o impacto é sentido rapidamente nas cidades.

    “Quando muita gente está endividada, o dinheiro deixa de circular no comércio local. O consumidor passa a priorizar aluguel, supermercado, combustível e contas básicas. O restante fica para depois”, explica.

    Já Arthur, também chama atenção para um fator local: o custo para viver em Maringá.

    “Maringá é uma cidade organizada, atrativa e com boa qualidade de vida, o que naturalmente valoriza o mercado. Mas o custo de moradia é alto. Quando boa parte do salário vai para aluguel e despesas fixas, sobra menos para consumo e entretenimento”, diz.

    De acordo com o economista, esse movimento tem levado parte da população a buscar cidades vizinhas.

    “Muitas famílias procuram Sarandi, Paiçandu e municípios próximos em busca de moradia mais acessível. Isso mostra como a habitação pesa no orçamento”, completa.

    A percepção nas ruas de Maringá confirma esse cenário. A recepcionista Raiane Souza afirma que sente no bolso a alta do custo de vida.

    “Eu amo morar aqui, mas é nítido que as coisas estão muito caras. Muitas vezes o salário não acompanha o custo da cidade. Como sou mãe solteira, acaba ficando mais difícil”, relata.

    Consumo no setor de alimentação

    No setor de alimentação fora do lar, por outro lado, empresários também relatam queda no movimento. O presidente da Abrasel Noroeste, Rafael Cecato, afirma que a redução no fluxo de clientes vem sendo percebida desde o segundo semestre do ano passado.

    “A gente vem notando essa redução nos últimos meses, especialmente depois de setembro. O principal relato dos empresários hoje é a diminuição no movimento e no número de clientes”, afirma.

    Para ele, o cenário é resultado de vários fatores ao mesmo tempo.

    “O endividamento das famílias pesa muito. Quando o orçamento aperta, o consumidor corta lazer, reduz refeições fora de casa e busca opções mais baratas. Isso afeta diretamente bares e restaurantes”, explica.

    Rafael também aponta mudanças no perfil do consumidor, especialmente entre os mais jovens. Segundo ele, a geração Z tem consumido menos álcool e buscado hábitos mais saudáveis. Isso impacta bares e casas noturnas. Ao mesmo tempo, cresce a procura por bebidas sem álcool e opções mais leves.

    Outro fator citado por ele é o avanço dos medicamentos para emagrecimento, que também alteram hábitos de consumo.

    “É uma mudança nova, mas já percebida pelo setor. Pessoas com menos apetite acabam consumindo menos quando saem”, afirma.

    Mesmo com o momento de cautela, o setor busca alternativas para reagir.

    “O empresário precisa se reinventar. Investir em experiência, promoções, novos formatos e entender esse novo consumidor. O mercado mudou e é preciso acompanhar”, avalia Cecato.

    Para Arthur Bacelar, a retomada do consumo depende de uma melhora no cenário econômico nacional.

    “Se houver queda consistente dos juros, aumento da renda e redução do endividamento, a tendência é de recuperação. Mas hoje o consumidor está mais seletivo e pensa muito antes de gastar”, finaliza.

    O reflexo já aparece nas ruas de Maringá: consumidores mais cautelosos, movimento menor em alguns setores e empresários atentos a cada venda.

    Comentários estão fechados.