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Por Edson Calixto Junior
Entre 1990 e 1995, quando era repórter de um conhecido jornal do interior mineiro, fiz uma brincadeira com os indicados ao Oscar de melhor filme. Três décadas depois, resolvi retomar essa tradição. Não por nostalgia, mas porque o Brasil insiste em produzir versões próprias de qualquer roteiro internacional (contém ironia). E enquanto a cerimônia não chega (será dia 15 de março nos E.E.U.U.), a gente “viaja” em algumas histórias bem brasileiras.
Em 2025, comemoramos Ainda Estou Aqui. Este ano, a torcida é por O Agente Secreto, indicado a quatro estatuetas. Já os demais concorrentes — Pecadores (favoritaço), Uma Batalha Após a Outra, Frankenstein, Marty Supreme, Bugonia, Sonhos de Trem, Hamnet, Valor Sentimental e F1 — ganhariam, em versão nacional, adaptações mais ou menos assim:
Uma Batalha Após a Outra
Documentário quase em tempo real mostrando o esforço diário da assessoria de comunicação do Governo Federal para desmentir fake news produzidas com disciplina industrial pela oposição. A cada manhã, uma crise; a cada tarde, uma nota oficial; à noite, outra batalha. Sequência garantida.
Agonia
Professores de uma universidade pública federal são sequestrados e submetidos à mais cruel das torturas mentais: maratonas de reality shows, discursos de extrema direita em volume máximo e clipes intermináveis de sertanejo universitário. Alguns pedem habeas corpus acadêmico. Outros imploram por silêncio bibliográfico.
F5
A saga de um jornalista viciado em atualização. Vive abrindo e fechando abas, recarregando portais, perseguindo a próxima manchete como quem caça oxigênio. Não há descanso — apenas notificações. O suspense não está na notícia, mas na ansiedade.
Frankenstein
Acompanha os percalços do Governo Brasileiro tentando encaixar, a fórceps, emendas parlamentares no orçamento anual da União. Cada pedaço costurado exige concessão; cada ponto mal dado ameaça desandar. O resultado final sempre anda — ainda que com algumas partes desconectadas do corpo original.
Nicolet
Retrato da vida pregressa de um típico mauricinho antes de se eleger deputado. Entre viagens internacionais, networking seletivo e discursos ensaiados diante do espelho, descobre sua vocação pública. A transformação é rápida: do condomínio fechado para a tribuna aberta.
Pecadores
Ambientado dentro do Congresso Nacional, acompanha parlamentares com rotina dupla. De dia, defensores da moral e dos bons costumes. Entre quatro paredes, negociadores habilidosos de versões, favores e conveniências. A culpa é sempre do roteiro — jamais do personagem.
Marta Suprema
A trajetória de uma jogadora de futebol nascida no interior do Nordeste que supera estrutura precária, descrédito e machismo até se tornar a melhor de todos os tempos. Aqui não há metáfora: há talento, disciplina e recordes suficientes para calar qualquer crítico de arquibancada.
Valor Sentimental
A jornada de um ex-presidente e seus assessores na delicada missão de explicar — ou ocultar — um lote de joias recebido de autoridades árabes. Para uns, patrimônio público. Para outros, lembrança pessoal. O suspense gira em torno da pergunta clássica: de quem é, afinal, o brilho?
Sonhos de Trem
Um garoto foge para o Estado de Minas Gerais com dois objetivos muito claros: comer um sonho numa confeitaria mineira e embarcar no trem Vitória–Minas em direção à capital capixaba. Descobre que alguns desejos são simples — e exatamente por isso, revolucionários.
Pois é, nobre leitor… no Brasil, o roteiro raramente segue o script. E talvez seja exatamente por isso que estamos concorrendo pelo segundo ano seguido — às vezes por talento, às vezes por teimosia histórica, quase sempre por excesso de material dramático.
Entre batalhas diárias, monstros orçamentários, joias itinerantes, mauricinhos convertidos e pecadores disciplinados, sobra enredo para mais de uma temporada. E como em toda boa cerimônia, a estatueta é simbólica. O que fica mesmo é a narrativa.
Diante de tantos roteiros possíveis, a pergunta inevitável é: se você pudesse votar, qual deles você escolheria?
EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou na Rádio CBN, Diário do Rio Doce e Rede Novo Tempo de Comunicação. Foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.
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