José Carlos Barbieri: “Maringá é o que é porque nasceu do associativismo”

Presidente da ACIM e reitor da Unicev fala ao podcast Ponto a Ponto sobre sua trajetória, o papel do voluntariado, os desafios econômicos e o futuro da cidade.

  • O associativismo é um dos pilares que sustentam o desenvolvimento de Maringá. Essa é a avaliação do professor José Carlos Barbieri, atual presidente da Associação Comercial e Empresarial de Maringá (ACIM), reitor do Centro Universitário Cidade Verde (Unicev) e figura atuante em diferentes frentes educacionais e empresariais. Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, produzido pelo Maringá Post em parceria com a V Mark Studio, Barbieri compartilhou sua trajetória e analisou os desafios econômicos, sociais e políticos que impactam a cidade.

    Episódio gravado no V Mark Estúdio

    Da sala de aula ao associativismo

    A trajetória de Barbieri começou na educação básica, no antigo supletivo. Depois, passou pelo ensino médio, pelo pré-vestibular e se consolidou no ensino superior. Paralelamente, aproveitou oportunidades para empreender e se envolver em entidades representativas.

    “Comecei dando aula na educação básica, depois no ensino médio e no pré-vestibular. Aos poucos fui aproveitando oportunidades e me envolvendo também com o setor empresarial e associativo. Quando a gente faz sozinho pode até ir mais rápido, mas para ir longe mesmo é preciso caminhar junto com outras pessoas”, relatou.

    O professor destaca que sua visão plural surgiu justamente desse percurso: unir educação, empreendedorismo e voluntariado. Foi nesse caminho que passou a ocupar espaços importantes em entidades como o Sinep, o Codem e, mais recentemente, a presidência da ACIM. Segundo ele, assumir a função foi um grande desafio, mas também uma oportunidade de preparar o terreno para novas lideranças.

    O trabalho voluntário e a força do coletivo

    Ao comentar sua atuação em diversas entidades, Barbieri fez questão de frisar um ponto: todo esse trabalho é construído de forma voluntária.

    “As pessoas pensam que nós temos salários, e nós nunca tivemos. Seja no Sinep, no Codem ou na ACIM, é trabalho voluntário. Só na ACIM são 500 voluntários, distribuídos em conselhos e institutos. Maringá é o que é porque tem no associativismo a sua gênese”, explicou.

    Para ele, essa disposição coletiva é a marca que diferencia Maringá de tantas outras cidades do Brasil. O envolvimento da ACIM na fundação de instituições como Cocamar, Sociedade Rural, Codem e Observatório Social exemplifica como o associativismo ajudou a moldar a história local. Barbieri lembra que em momentos críticos, como quando a corrupção tomou conta da prefeitura, foram os empresários que se organizaram para proteger a cidade.

    Projetos estruturantes e investimentos

    A entrevista também destacou o papel da entidade em projetos estratégicos que têm impacto direto no desenvolvimento regional. Entre os exemplos, Barbieri citou a duplicação da PR-317 entre Maringá e Iguaraçu, o rebaixamento da linha férrea e as melhorias previstas para o Contorno Sul.

    “Os empresários colocaram dinheiro do próprio bolso para viabilizar projetos. Isso mostra como existe engajamento e senso de pertencimento”, ressaltou.

    Essas ações, segundo ele, reforçam a responsabilidade compartilhada entre setor privado e poder público. O caso do aeroporto é emblemático: já operando acima do limite, será ampliado graças à união de empresários da região. “O aeroporto não é só de Maringá, é regional. Estamos levantando recursos e sensibilizando associações vizinhas, porque todos serão beneficiados”, acrescentou.

    Segurança e vulnerabilidade social

    Outro tema recorrente é a segurança pública. Maringá, ao ganhar visibilidade nacional, também passou a atrair pessoas em situação de vulnerabilidade, o que exige respostas articuladas.

    “Não é fobia da pobreza, mas precisamos olhar para quem está em situação de rua. Uns precisam de tratamento, outros voltam para casa depois de um momento difícil, mas há também os que vivem do crime. Não é papel da ACIM resolver isso sozinha, mas estamos trabalhando junto com a sociedade civil e os poderes públicos”, afirmou.

    Nesse contexto, ele relembrou a campanha “Dar dinheiro não dá futuro, ajude uma entidade”, que buscou direcionar doações para instituições capacitadas a oferecer apoio. A ação envolveu igrejas, órgãos públicos e organizações sociais, mas também enfrentou resistências. Para Barbieri, a questão exige esforço conjunto, pois está diretamente ligada à sensação de segurança na cidade.

    Economia, instabilidade e futuro do trabalho

    Ao analisar o cenário nacional, Barbieri chama atenção para a instabilidade política como entrave ao desenvolvimento.

    “O Brasil não tem projeto de Estado, tem projeto de governo. A cada dois anos temos eleições e vivemos essa insegurança. Isso afeta diretamente quem empreende e precisa pensar no longo prazo”, avalia.

    Diante disso, a ACIM tem buscado alternativas para reduzir impactos locais. Programas como a Escola de Negócios (ENA), a Casa do MEI e o Excelência em Nível Empresarial, em parceria com o Sebrae, oferecem capacitação contínua a empresários e colaboradores. O objetivo é garantir que a gestão seja cada vez mais profissionalizada. Além disso, a inteligência artificial tem sido debatida como ferramenta para compensar a falta de mão de obra.

    “Algumas atividades podem ser substituídas pela IA, mas outras exigem o humano. O cliente precisa de uma jornada memorável, de atenção personalizada. O papel da tecnologia é liberar tempo para que o colaborador se dedique ao que realmente gera valor”, destaca.

    Turismo e internacionalização

    A entrevista também aborda os planos para fortalecer o turismo em Maringá. Barbieri relatou a viagem a Portugal, onde acompanhou o prefeito Silvio Barros em visitas técnicas e culturais. Na ocasião, com outras lideranças da cidade, participaram de um festival medieval – que a administração quer implantar em Maringá para promover o turismo. 

    “Fortalecer o turismo é essencial, ainda mais diante da reforma tributária, que fará com que os impostos sejam recolhidos onde se consome. Precisamos atrair pessoas para que deixem aqui os seus recursos”, sustenta.

    O projeto de um parque temático de inspiração portuguesa foi apresentado como uma aposta semelhante ao Parque do Japão, já consolidado como principal atrativo turístico da cidade. Para Barbieri, a iniciativa pode ampliar o potencial de Maringá como destino cultural e econômico, reforçando a conexão internacional da cidade.

    Novos projetos da ACIM

    Nos últimos anos, a entidade também tem lançado iniciativas para aproximar empresários e a comunidade. Entre elas, o “Café com o Presidente” e a “Conexão de Valor”, que promovem debates sobre temas como agronegócio, mercado de luxo e inovação.

    “Sozinho você vai mais rápido, mas em conjunto a gente vai muito mais longe”, conclui Barbieri, resumindo a filosofia que guia seu trabalho.

    Essas ações, segundo ele, mostram que a ACIM não é apenas uma entidade de representação, mas também um espaço de aprendizado, troca de experiências e fortalecimento coletivo. Para o professor, a combinação entre associativismo, educação e empreendedorismo é o que permitirá que Maringá continue sendo referência no cenário nacional.

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