Dívida pública chega a R$ 9,29 trilhões e amplia pressão sobre a Selic

Mais da metade dos títulos acompanha os juros, aumentando o custo da dívida quando a Selic permanece elevada
foto de Rafa Neddermeyer/Agência Brasil) 87 concordamÍcone de reação Concordo Ícone de reação Concordo parcialmente Ícone de reação Penso diferente A dívida pública entrou no radar das principais preocupações econômicas e das grandes ameaças à estabilidade monetária e ao controle da inflação, pois ela não apenas bate recorde atrás de recorte – em junho, ela chegou a R$ 10,8 trilhões, ou 81,9% do PIB –, como também está se tornando cada vez mais cara: seu custo médio em junho é o maior registrado para o mês desde 2016, quando o país vivia a grande recessão lulodilmista, resultado de anos de política fiscal completamente irresponsável.O setor público consolidado é composto pelos entes federativos cuja existência e gastos dependem das receitas de tributos cobrados pela União, estados e municípios. Por sua vez, o montante total dos tributos é uma fração da renda interna nacional gerada no processo produtivo. No geral, a fração dos impostos recolhidos pelo setor público é limitada e, segundo os conhecimentos teóricos da economia mundial, em economias de livre mercado a fração da carga tributária deve se limitar a um máximo de um terço do PIB, pois tributação superior a esse patamar costuma agir contra o crescimento do PIB e contra a geração de empregos.Tendo em conta essa limitação, muitos países passaram a gastar mais que um terço do PIB e, para pagar os excessos (déficits de caixa), adotaram o recurso de tomar dinheiro emprestado das pessoas, bancos e empresas nacionais, bem como obter financiamentos em bancos e organismos financeiros internacionais. Isso faz com que uma nova despesa surja no orçamento público: os juros da dívida.A conjunção entre déficit primário e juros da dívida é combustível para uma crise de grandes proporçõesNunca é demais lembrar que a dívida pública total é a soma da dívida pública externa (dívidas para credores internacionais, em moeda estrangeira) mais a dívida pública interna (dívidas para pessoas, empresas e bancos sediados no Brasil, em moeda nacional). O conceito mais usual é a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), ou seja, a dívida de municípios, estados e União e seus órgãos, excluídas as empresas estatais que vivem de venda de seus produtos. A DBGG é o valor total que o governo geral deve, e tudo indica que seguirá aumentando em relação aos atuais 81,9% do PIB.A respeito do indicador dívida/PIB, é preciso recordar que o governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional (FMI) adotam metodologias diferentes para calcular o total da dívida do setor público consolidado. Segundo o FMI, que inclui os títulos da dívida pública em poder do Banco Central, a dívida brasileira fechará o ano em 96,5% do PIB. No entanto, independentemente das metodologias, existe um segundo problema, bastante grave, que diz respeito ao custo dessa dívida para os cofres públicos.Como os Estados Unidos têm um PIB encostando nos US$ 30 trilhões e dívida pública superior aos US$ 36 trilhões, representa 120% do PIB, há quem argumente que a situação brasileira não é tão grave. Ocorre que a dívida não deve ser examinada separada de seu custo em termos do total dos juros incidentes sobre seu valor, os prazos de vencimentos e o desembolso anual com o pagamento dos juros; e, enquanto o custo anual de juros sobre a dívida pública nos EUA é de 3,5% do PIB, no Brasil o total de juros anuais equivale a 8,8% do PIB.VEJA TAMBÉM:Durigan espera que o Brasil acredite em um “Lula fiscalmente responsável” (editorial de 30 de julho de 2026) A pobreza não é obra do acaso (editorial de 19 de julho de 2026) Juros altos têm tudo a ver com gasto público desenfreado (editorial de 6 de julho de 2026) Não é preciso um cálculo complicado para concluir que essa é a variável que, se não for modificada, fará a dívida pública explodir em poucos anos até o ponto de se tornar incontrolável, com potencial para lançar o país em uma grave crise. No entanto, é preciso que haja as condições necessárias para uma redução nos juros, o que não ocorre no Brasil de Lula e do PT, onde o governo geral consolidado continua gastando mais do que arrecada antes de contar a despesa com pagamento de juros – registrando, portanto, déficit primário ano após ano. A conjunção entre déficit primário e juros da dívida é combustível para uma crise de grandes proporções.A história econômica mundial vem mostrando, desde a Primeira Guerra Mundial, que há limite para o endividamento público. Quando esse limite é ultrapassado e a dívida segue crescendo, uma crise é inevitável, lançando o país em trajetória de insolvência do governo, quebra de confiança na moeda nacional, menos crescimento e mais pobreza. A essa altura, um programa de austeridade e de ajustes já não é mais um opção, mas uma obrigação, independentemente de o governo ser de esquerda ou de direita, pois as crises econômicas passam por cima das questões ideológicas e partidárias.17 Deixe sua opiniãoO que você achou desta análise?Ícone de reações Concordo Concordonewsletters
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A Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,293 trilhões em agosto, segundo dados divulgados nesta segunda-feira, 28, pelo Tesouro Nacional. O estoque cresceu 0,04% em relação a julho e atingiu novo recorde nominal.

O dado que mais chama atenção, porém, está na composição dessa dívida.

Os títulos remunerados por taxas flutuantes, principalmente aqueles vinculados à Selic, passaram de 51,11% para 52,74% do total. É o maior percentual da série histórica iniciada em dezembro de 2000.

Na prática, isso significa que mais da metade da dívida federal está diretamente exposta ao comportamento dos juros básicos.

Quando a Selic permanece elevada, o custo financeiro desses títulos também aumenta.

Em agosto, os juros incorporados à dívida somaram R$ 88,39 bilhões. Esse valor foi superior aos R$ 84,43 bilhões de resgates líquidos realizados pelo Tesouro e acabou mantendo a dívida praticamente estável no mês.

O custo médio da dívida também subiu. Passou de 12,45% ao ano em julho para 12,59% em agosto.

É nesse ponto que a dívida começa a se relacionar com a Selic.

Uma dívida elevada e com grande parcela pós-fixada torna as contas públicas mais sensíveis aos juros. Ao mesmo tempo, as condições fiscais e a percepção de risco podem influenciar as expectativas dos investidores, as taxas de mercado e as condições que o Banco Central considera ao definir a política monetária.

Portanto, não é correto dizer que uma dívida de R$ 9,29 trilhões obriga o Banco Central a manter a Selic elevada.

A relação é mais complexa.

O Banco Central define a Selic principalmente de acordo com as perspectivas para a inflação e seus riscos. Mas o ambiente fiscal e o comportamento da dívida fazem parte das condições econômicas observadas pelo mercado e pela política monetária.

O próprio Banco Central estima que uma elevação de 1 ponto percentual na Selic, mantida durante 12 meses, acrescenta aproximadamente R$ 57,3 bilhões à Dívida Bruta do Governo Geral.

Isso ajuda a entender o tamanho do problema.

Quanto maior a parcela da dívida corrigida pelos juros, maior é a velocidade com que uma taxa elevada se transforma em despesa financeira.

E há outro dado relevante: o Tesouro prevê que a participação dos títulos atrelados a taxas flutuantes termine 2026 entre 49% e 53%. A faixa anterior era de 46% a 50%.

Para o cidadão, o efeito não aparece apenas nas contas do governo.

Juros elevados encarecem empréstimos, financiamentos e capital de giro das empresas. Também aumentam a remuneração das aplicações financeiras e podem reduzir o consumo e os investimentos.

O objetivo da Selic elevada é conter pressões inflacionárias. O problema é que, quanto mais tempo os juros permanecem altos, maior também é o custo financeiro para uma dívida que possui mais da metade de seus títulos expostos às taxas flutuantes.

O Tesouro projeta que a Dívida Pública Federal termine 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

O número de R$ 9,29 trilhões, portanto, não representa apenas o tamanho atual da dívida.

Ele mostra também como o custo dos juros passou a ter um peso cada vez maior na administração desse estoque.

E essa é a questão que deverá acompanhar o mercado nos próximos meses: quanto tempo a economia brasileira permanecerá convivendo com juros elevados e qual será o impacto dessa combinação sobre o custo da dívida, o crédito, os investimentos e a atividade econômica.