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A vereadora Ana Lúcia Rodrigues é a convidada do novo episódio do podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post, que estreia neste domingo (11) no YouTube. Ao longo de mais de uma hora de conversa, ela faz uma leitura crítica sobre o modelo de desenvolvimento de Maringá, o funcionamento da Câmara Municipal, as mudanças recentes na política educacional e os desafios da habitação popular, além de comentar as articulações políticas para as eleições de 2026.
O episódio é apresentado pelo jornalista Ronaldo Nezo e tem gravação e produção de vídeo do V Mark Estúdio, parceiro do podcast.
Da universidade à Câmara
Com trajetória ligada à pesquisa urbana, Ana Lúcia foi coordenadora do Observatório das Metrópoles na Universidade Estadual de Maringá por 15 anos. Segundo ela, a atuação acadêmica foi decisiva para sua entrada na política institucional.
“Eu sempre estive com um pé na academia e outro aqui, na realidade concreta. No Observatório, a gente construiu diagnósticos, trabalhou com políticas setoriais, legislação urbana, planejamento metropolitano. Hoje, como vereadora, eu conheço a realidade e consigo dar respostas”, afirmou.
Ela destaca que, no primeiro mandato, apresentou mais de 200 projetos de lei, dos quais mais de 140 foram sancionados. “O vereador tem duas funções principais: fiscalizar o Executivo e legislar. E a gente precisa fazer legislação que responda às necessidades da população.”
Qualidade de vida e exclusão social
Embora reconheça os indicadores positivos de Maringá, a vereadora sustenta que a cidade carrega uma contradição estrutural. “Maringá é uma cidade diferenciada, sim. Mas ela também é uma cidade excludente”, afirmou.
Para Ana Lúcia, o planejamento urbano historicamente empurrou a população de baixa renda para as periferias e municípios vizinhos. “Quando você tem hoje cerca de 80 mil trabalhadores que vêm todos os dias de fora para trabalhar em Maringá, isso significa que o posto de trabalho está aqui, mas a moradia não está.”
Ela cita dados do Cadastro Único como evidência. “Maringá tem quase 50 mil famílias no CadÚnico. É muita gente vivendo na pobreza em uma cidade rica, com aluguéis altíssimos e mercado imobiliário supervalorizado.”
Habitação e especulação imobiliária
No podcast, a vereadora é categórica ao afirmar que o acesso à casa própria, para a população de baixa renda, depende exclusivamente de políticas públicas.
“A única forma de o povo ter acesso à casa própria é pela política habitacional. Moradia é um direito constitucional e uma necessidade básica. Sem isso, o resto da vida da pessoa fica muito mais difícil”, disse.
Ela critica a falta de vontade política para ampliar programas habitacionais e aponta o peso do mercado imobiliário nas decisões urbanas. “Os agentes imobiliários têm muito poder, acesso direto ao prefeito, ao governador, ao presidente. A população não tem esse poder. E, por enquanto, sim, estamos perdendo essa batalha.”
Legislativo, Executivo e o “regime de urgência”
Um dos pontos mais duros da entrevista é a avaliação sobre a relação entre a Câmara Municipal e o Executivo. Para Ana Lúcia, o alinhamento da maioria dos vereadores com a Prefeitura enfraquece o papel fiscalizador do Legislativo.
“O legislativo de Maringá hoje é um puxadinho da prefeitura”, afirmou. “O que o prefeito manda é aprovado.”
Ela critica o uso recorrente do regime de urgência. “Você fica sabendo do projeto na véspera, às vezes nem isso. Fazem sessões extraordinárias no mesmo dia. Isso esvazia o debate e desrespeita o papel do Legislativo.”
A vereadora também relata dificuldades no atendimento a requerimentos apresentados por ela. “Faço requerimentos desde janeiro. Na maioria deles, eu sequer sou respondida, mesmo com prazo regimental de 15 dias.”
Educação e a mudança no programa de uniformes
Na área da educação, Ana Lúcia critica a substituição do tradicional programa de fornecimento de uniformes e materiais escolares por um sistema de voucher ou cartão. Embora o início do novo modelo de fornecimento dos uniformes ainda não esteja definido, já foi aprovado pelo Legislativo.
“Era uma política consolidada, que garantia igualdade no primeiro dia de aula. Todas as crianças com o mesmo material, sem competição, sem desigualdade”, afirmou.
Segundo ela, a mudança tende a aumentar custos. “Quando a prefeitura compra para mais de 40 mil alunos, paga muito mais barato. Agora, no mínimo, vai se gastar 50% a mais de recurso público.”
Ela também aponta riscos sociais. “Existe o risco de desvio de finalidade. E o pior: a criança chegar no primeiro dia de aula sem material ou uniforme adequado.”
Câmara ampliada e instabilidade interna
O episódio também aborda a nova composição da Câmara, que passou de 15 para 23 vereadores. Para Ana Lúcia, o início da legislatura tem sido marcado por instabilidade.
“Em nove meses, estamos na terceira presidência. Tivemos comissão processante, cassação de vereadora, reforma com a casa em funcionamento. O clima ainda é muito conturbado”, avaliou.
Ela relata ainda tratamento diferenciado por estar na oposição. “Não me importa o debate político. Isso é legítimo. O que eu não aceito é deselegância, rispidez e distinção no tratamento.”
Olhando para 2026
No encerramento, Ana Lúcia fala sobre as articulações do PDT para as eleições de 2026. Ela destaca a reorganização do partido no Paraná e afirma que a legenda trabalha para lançar chapas completas.
“Estamos construindo um projeto grande para o Estado. Meu nome está à disposição do partido, seja para estadual, federal ou no papel que couber. Apesar de dura, eu continuo encantada com a política.”
O episódio completo do Ponto a Ponto com a vereadora professora Ana Lúcia Rodrigues está disponível neste domingo (11), no YouTube do Maringá Post.




