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O dia 25 de dezembro costuma ser mais silencioso. Depois das luzes, da ceia e dos encontros — ou das ausências —, o Natal revela um lado menos visível, marcado pela memória, pela introspecção e, para muitos, pela dor da perda. É nesse contexto que o arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, propõe uma reflexão sensível sobre luto, esperança e o sentido profundo da celebração natalina, em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do Jornal Maringá Post.
Durante a conversa, Dom Severino compartilha uma experiência pessoal que marcou sua família: a perda de um sobrinho às vésperas do Natal, após uma longa luta contra o câncer. O jovem foi sepultado no dia 24 de dezembro, data que, desde então, carrega uma memória dolorosa. “Se ficarmos apenas no símbolo externo do Natal, ele pode trazer tristeza, porque lembra a morte”, afirma o arcebispo.
Quando o Natal encontra a dor
Para Dom Severino, o Natal não elimina o sofrimento nem apaga o luto. Pelo contrário, ele reconhece que essa é uma época especialmente difícil para quem perdeu alguém ou atravessa um momento de fragilidade emocional. O problema, segundo ele, surge quando não há espaço para acolher essa dor ou quando se tenta impor uma alegria artificial, incompatível com a realidade de quem sofre.
No entanto, o arcebispo propõe um olhar que vai além da negação da tristeza. Ele relembra que, pouco antes de morrer, o sobrinho disse à família que, apesar da derrota para a doença, deixaria um legado de cuidado e presença. “Vocês vão ter um anjo no céu. Cuidem-se”, teria dito. Para Dom Severino, esse gesto representa um novo nascimento, que ajuda a ressignificar a perda sem anulá-la.
Ressignificar sem romantizar
A partir dessa vivência, o arcebispo defende que o Natal oferece uma chave simbólica importante para compreender o luto: a ideia de que a vida não se encerra na dor, mas também não ignora o sofrimento. “É uma tristeza pela perda, mas uma esperança que domina a tristeza”, explica.
Segundo Dom Severino, a fé cristã não propõe uma fuga da realidade, mas um caminho de sentido. Ressignificar não é romantizar a dor, e sim permitir que ela seja atravessada com apoio, escuta e esperança. Ele alerta que muitas pessoas, especialmente jovens, têm perdido o sentido da vida justamente por não encontrarem alguém que as ajude a interpretar suas dores.
O papel da escuta e da presença
Outro ponto destacado na entrevista é a importância da escuta. Para Dom Severino, muitas vezes não faltam discursos ou conselhos, mas presença verdadeira. “Quando eu olho nos olhos, eu sei muito mais da pessoa do que quando ela fica falando”, afirma. O silêncio, segundo ele, também comunica cuidado e pode ser mais terapêutico do que palavras apressadas.
O arcebispo observa que a sociedade contemporânea, marcada pela pressa, pela ansiedade e pelo excesso de estímulos, tem dificuldade em lidar com a dor alheia. No Natal, essa dificuldade se torna ainda mais evidente. Por isso, ele defende que o dia 25 seja vivido como um tempo de acolhimento, inclusive para quem não conseguiu celebrar como gostaria.
Esperança que sustenta
Ao final da reflexão, Dom Severino reforça que o Natal continua sendo uma mensagem de esperança justamente porque nasce em um contexto de fragilidade. Para ele, o nascimento de Jesus em uma manjedoura lembra que a vida pode brotar mesmo em cenários de perda, limitação e sofrimento.
“Essa mensagem precisa ser ecoada”, afirma o arcebispo, ao defender que o Natal não seja apenas um evento, mas uma experiência capaz de devolver sentido à existência. Para quem vive o luto, o dia 25 pode não ser de festa, mas pode ser de consolo, memória e esperança silenciosa.
Assista
Serviço
A entrevista completa com Dom Frei Severino Clasen integra o episódio especial de Natal do podcast Ponto a Ponto, apresentado pelo jornalista Ronaldo Nezo. O conteúdo está disponível no canal do Jornal Maringá Post no YouTube.







