Bons números, realidade frágil: deputada questiona indicadores da educação no Paraná

Em entrevista ao Ponto a Ponto, Ana Júlia Ribeiro afirma que indicadores positivos não refletem, necessariamente, a realidade vivida nas escolas públicas do estado.

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    Nos últimos anos, o Paraná tem aparecido com destaque em rankings e indicadores educacionais nacionais. Taxas de aprovação elevadas, bons resultados em avaliações externas e presença frequente entre os estados com melhor desempenho ajudam a sustentar o discurso de sucesso da política educacional. Para a deputada estadual Ana Júlia Ribeiro, no entanto, esses números contam apenas parte da história.

    Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post, a parlamentar faz uma crítica direta ao modo como os dados da educação são apresentados e interpretados no estado. “Os números não mentem, de fato”, afirma. “Mas o recorte que você faz para chegar nesses números pode ser completamente deturpado.”

    Segundo Ana Júlia, o problema não está na existência de indicadores, mas na forma como eles são construídos e divulgados. Para ela, há uma diferença fundamental entre bons resultados estatísticos e uma educação que, de fato, funcione na sala de aula. “Hoje, o Paraná tem excelentes índices, mas isso não significa que tenhamos a melhor educação pública na ponta, no cotidiano da escola”, diz.

    Durante a conversa, a deputada aponta que parte dos avanços numéricos está associada à exclusão de determinados perfis de estudantes do sistema. Entre os exemplos citados estão a redução do ensino noturno e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidades que atendem alunos que trabalham, enfrentam dificuldades de aprendizagem ou vivem realidades mais complexas. “Quando você exclui esses estudantes, os números melhoram. Mas isso não é sinônimo de qualidade”, afirma.

    Outro ponto levantado é a forma como avaliações e metas acabam moldando a política educacional. Para Ana Júlia, há uma tendência de priorizar aquilo que é mensurável, mesmo que isso empobreça o processo de ensino-aprendizagem. “É muito fácil dizer ‘defendo a educação’. Difícil é dizer que modelo de educação se defende, como ela é financiada, qual projeto pedagógico está por trás”, argumenta.

    A deputada também chama atenção para a confusão entre escolarização e educação. Na avaliação dela, cumprir carga horária, aplicar provas padronizadas e garantir aprovação não significa, necessariamente, formar cidadãos críticos. “Escolarização é uma coisa. Educação, enquanto processo de formação, de debate, de construção de pensamento, é outra completamente diferente”, afirma.

    Para Ana Júlia, quando o debate público se limita a rankings e percentuais, perde-se a oportunidade de discutir questões estruturais. “Pouquíssimos sabem debater educação de verdade. Poucos sabem falar de financiamento, de currículo, de LDB, de concepção de ensino”, critica.

    A fala da parlamentar reforça um alerta: bons números podem coexistir com problemas profundos no cotidiano escolar. E, sem uma leitura crítica dos dados, políticas públicas correm o risco de se orientar mais por aparência de sucesso do que por transformações reais.

    O episódio completo com a deputada Ana Júlia Ribeiro está disponível no YouTube do Maringá Post, no Ponto a Ponto Podcast, apresentado por Ronaldo Nezo e gravado na V Mark Produtora e Estúdio.

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