Dilema da alface por entre os dentes, ou a ausência de amigos por perto

“O amigo então cutuca a vítima dos restolhos alimentícios, chega num canto e diz baixinho no ouvido do companheiro: “seu dente tá sujo.” Ainda assim, é bem provável que as águas da torneira que limparão aquela alface dos dentes se misturará com lágrimas de quem já está com o psicológico detonado naquele dia.”

  • Por Wilame Prado
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    Dizem que os verdadeiros amigos são os únicos com capacidade de falar duras verdades, como denunciar que há um naco de alface estampado em meio aos dentes superiores da frente, grudado após uma refeição que continha salada, um prato de comida no almoço aligeirado durante o expediente de trabalho, um x-salada devorado sem condições de escovar os dentes depois.

    Não foi isso, porém, o que aconteceu com ele naquela sexta chuvosa. Ninguém avisou sobre o restolho de alimentação repousado na arcada dentária que se estampa com um simples abrir de boca. Tratava-se de um elemento verdíssimo por entre dentes meio amarelados, quase brancos. Assustadoramente evidente. 

    Pistas de uma pós-refeição em dentes sujos, carentes de escova, pasta dental ou pelo menos um gargarejo com água de torneira ou enxaguante bucal, são incômodos para quem dá o flagrante e, claro, também para quem se vê vítima da teimosia alimentícia vexatória e com ausência de charme causada pelo resto de comida estampada por entre dentes.

    A testemunha daquele absurdo opta pelo silêncio (até amigos podem ser covardes nessas horas), postergando o sofrimento de quem se descuidou durante uma digestão e na negligência com a higienização de incisivos, caninos, molares e pré-molares.  

    Saladas são facilmente observadas em dentes por aí de gente que come e logo se distrai com o cotidiano envolvido em checagem de e-mails, planilhas, a velha rotina de um escritório qualquer. Mas também sabota trabalhadores em outras funções, que voltam para obras inacabadas, volantes de automóveis ou caixas de supermercados.

    Cascas de feijão, especialmente quando se trata de uma feijoada, também são inimigos da gente, pois o preto no branco dos dentes ficam insuportavelmente sobressalentes. Biscoitos e bolachas sabor chocolate costumam trair muita gente desatenta com os malefícios da alimentação aligeirada.

    E a depender da correria ou mesmo da impossibilidade de se reencontrar com uma escova de dentes, o alimento permanecerá cheio de vaidade naquele cartão-postal humano que se chama sorriso. Mostrar um dente sujo arrebenta com qualquer demonstração de felicidade.

    Sorrir, nesses casos, pode levar ao desvio do olhar, à mudança de assunto ou, em casos mais graves, ao abandono da conversa porque, às vezes, é insuportável ver aquele resto de alimento nos dentes do interlocutor. Ele – aquele pequeno resto de alimento maldito – parece gritar por socorro, mas nem todos tem a ousadia de denunciar.  

    Uma gargalhada em mais um vídeo bobo da internet pode ser fatal para a postura de quem está com os dentes sujos perante colegas de trabalho, patrões, clientes ou quem sabe parentes e conhecidos sentados após uma refeição cheia de sabores, mas também cercada por armadilhas, como a de não notar o dentão da frente colorizado com o verde da alface, o escuro da casca do feijão, ou uma incômoda sobra de proteína de carne vermelha que resolveu ficar na boca e não ir direto para o estômago.

    Só que quem tem amigo tem tudo, até para quem comete o terrível pecado de exibir dentes com restos de comida. O camarada fica comovido, sente empatia, sente as dores, busca resolução imediata. 

    O amigo fanfarrão opta pela estratégia da piada, da gracinha, da bravata. Crê, em sua mente zombeteira, que aquilo pode se tornar mais uma história hilária que vai descontrair o ambiente. Menos para quem tem uma alface ancorada nos dentes, que vai disfarçar, entrar por alguns segundos nas brincadeirinhas e depois correrá para o banheiro mais próximo com intuito de enxaguar imediatamente a arcada dentária. E talvez chorar. 

    Também existe aquele amigo sábio, entendedor de que situações como essas exigem cautela e atos cirúrgicos no sentido de não expor ainda mais o pateta com alface no dente e que já fora notado por meia dúzia de seres humanos ao redor. O amigo então cutuca a vítima dos restolhos alimentícios, chega num canto e diz baixinho no ouvido do companheiro: “seu dente tá sujo.” Ainda assim, é bem provável que as águas da torneira que limparão aquela alface dos dentes se misturará com lágrimas de quem já está com o psicológico detonado naquele dia.

    Pois bem. Quem tem amigo, dificilmente terá resto de comida nos dentes por muito tempo. Mas estranhamente, naquela sexta chuvosa, ele só foi perceber a alface fincada entre os superiores da frente quando o cair da tarde já prenunciava o término de mais uma semana de trabalho. No espelho de casa, e não do trabalho, ele notou que aquele alimento teimoso permaneceu por horas nos dentes.

    Antes de dormir, refletindo sobre a vida, ele chegou à seguinte conclusão: não havia amigos por perto e ele sequer abriu a boca durante praticamente todas as horas do horário comercial daquela sexta. Deu alívio: ninguém notou a alface por entre os dentes. Mas deu tristeza: ele já quase não conversa com ninguém, não sorri, não gargalha. E amigos quase não há. Grande dilema. 

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