A carta para o Papai Noel mais triste do mundo

“Quero ver alguém ‘adotar’ a cartinha do Paulo Marcos da Silva Oliveira, jovem de 11 anos, morador de São Roque (SP), que pediu um Natal feliz para uma mãe diagnosticada com depressão. A mãe dele tem 55 anos e não consegue encontrar a paz na vida, não vamos nem falar em felicidade, seria pedir muito.”

  • Por Wilame Prado
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    Nesta época do ano, a gente fica comovido pra burro. Não pode ver propaganda de margarina na tevê que marmanjo lambuza a cara de lágrima e diz que entrou um cisco no olho. Esse parece ser o milagre do Natal: todo mundo fica mais empático, seres humanos melhores.

    As cartinhas para o Papai Noel é um dos ótimos projetos dos Correios que ainda funcionam no Brasil. Poder “adotar uma cartinha”, comprar um brinquedo chinês de vinte reais e encaminhar ao Bom Velhinho significa, para muita gente, o sentimento de dever cumprido. 

    E tudo isso com direito à emoção na hora que entrega e durante as reportagens da televisão que mostram nossas crianças puras e ingênuas doando para a audiência sorrisos maravilhosos ao abrir o embrulho e pegar a boneca de plástico, o carrinho colorido ou outras coisas baratas demais para qualquer bolso do brasileiro médio que reclama de programas de assistência social direcionados aos pobres e miseráveis.

    Agora eu quero ver alguém “adotar” a cartinha do Paulo Marcos da Silva Oliveira, jovem de 11 anos, morador de São Roque (SP), que pediu um Natal feliz para uma mãe diagnosticada com depressão. A mãe dele tem 55 anos e não consegue encontrar a paz na vida, não vamos nem falar em felicidade, seria pedir muito. Não sei se a carta chegou a ir para os Correios, mas sei que a mensagem de desespero desta família deveria sim chegar a todo mundo.

    É um pedido de socorro do garoto, que talvez nem acredite mais no Papai Noel nesta altura do campeonato. “Tantas mágoas, tantas frustrações”, como cantou belamente um dia Antônio Marcos. Não precisa de videogame, bicicleta ou até um celular. Paulo Marcos quer ver o sorriso da sua pobre mãe. E quem não quer?

    Ver a mãe sorrir é para, um filho, autoafirmação, confiança e caminho suave para as desventuras da vida, e isso desde a mais tenra idade. Bebês que acabaram de aprender a falar interferem pais em discussões porque não suportam ver a cara fechada da mãe, o tom de voz exaltado do pai. E às vezes o casal nem estava brigando! Era apenas uma discussão sobre pizza ou rondeli para o jantar na noite de sábado em família.

    “Às vezes, não tem comida para comer. E eu queria passar um Natal muito bom, por isso pedi toda saúde para a minha família, mas principalmente para minha mãe, ela é tudo que eu tenho”, comentou o garoto numa reportagem, para nos arrebentar de vez.

    E num trecho da carta, ele abriu o jogo: ainda tem sonhos para sonhar. “Tenho muitos sonhos, mas o meu maior sonho é passar o Natal bem com a minha mãe e meus irmãos. Tivemos muitas perdas na família. Meu pai nos deixou por causa de bebidas. Todos os dias oro para Deus nos guardar, só Deus sabe de nós”, escreveu.

    Dia desses, li por aí em uma das centenas de mensagens que chegam todos os dias pelo celular: “Vamos normalizar poder passar um Natal com nossa pequena família: pai, mãe e o filho ou filhos”. É isso. Só agradecer por isso, nada mais. É só isso. E orar pela família de Paulo Marcos, símbolo daquilo que insistimos em não ver: a pobreza causa depressão, e muitas vezes as pessoas não são culpadas pela condições financeiras que se encontram ou pelas doenças que podem acometer o corpo e a alma.

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