A Copa que a FIFA quer — e o futebol não merece

Das novas vagas ao arranjo de sedes, as decisões da FIFA revelam um Mundial moldado mais por interesses estratégicos que por critérios esportivos.

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    Por Edson Calixto Junior

    Enquanto você lê esta coluna, o sorteio dos grupos da próxima Copa do Mundo já deve ter sacudido os noticiários. Será a 23ª edição do torneio — e, pela primeira vez, dividida entre três países: Canadá, México e Estados Unidos.

    E, convenhamos, como espetáculo, a Copa seguirá soberana: o maior evento esportivo do planeta, maior até que a Olimpíada. Mas sejamos honestos… o trio Canadá–México–EUA funciona mais como uma participação protocolar de dois convidados, enquanto o núcleo duro, a vitrine global, ficará mesmo em solo estadunidense. Coincidência ou não, dois anos depois teremos também uma Olimpíada na “Terra do Tio Sam” (ou seria na “Terra do Tio Donald”?).

    A última Copa realizada nos Estados Unidos foi em 1994, quando o Brasil levantou o tetracampeonato. Curioso: dois anos depois — como agora — também houve uma Olimpíada por lá, desta vez em Atlanta (Geórgia). Algumas coincidências não pedem explicações, apenas seguem o fluxo do dinheiro.

    E aí chegamos ao ponto central: o “vil metal”, esse protagonista sorrateiro que empobrece até mesmo aquilo que chamamos, com razão, de “o maior espetáculo da Terra”. Porque o esporte, em sua essência, é um palco de magia: transforma gente comum em herói, dá bandeira, dá identidade, dá história. Mas basta seguir o cheiro do lucro para ver que a fantasia costuma perder para o caixa.

    Um exemplo? A bizarrice nada discreta de inflar a Copa de 32 para 48 seleções. Já imagino o cenário: Espanha, atual número 1 do ranking, enfrentando Curaçao — aquela ilha caribenha que um dia atendeu pelo nome de Antilhas Holandesas. Poderemos ter um novo recorde de gols? A chance é abissal. França x Suriname também promete uma disparidade técnica monumental — daqueles jogos em que só uma equipe entra em campo para competir de verdade. E sim, nossos vizinhos do norte (fronteira com Pará e Amapá) ainda disputam vaga na repescagem de março.

    E não para por aí. O festival de seleções “alternativas” inclui Uzbequistão, Jordânia, Haiti (que não aparece numa Copa há 52 anos) e ainda pode ter Albânia, Kosovo e Nova Caledônia (que disputam a repescagem em março). Um buffet futebolístico que desperta a dúvida: estamos ampliando o esporte ou apenas enchendo a plateia para manter o show?

    Há quem defenda a mudança com unhas, dentes e discursos prontos: globalização, crescimento do futebol, democratização… Mas por trás do figurino democrático, o truque é simples: poder. Ampliando o torneio, Gianni Infantino praticamente amarra sua cadeira na presidência da FIFA por mais uns bons anos, agradando confederações sedentas por vaga. Curiosamente, a UEFA ganhou “apenas” quatro novas seleções — um número magro para o continente que concentra a maior parte da elite do futebol mundial. Reclamaram, claro. Com razão, claro.

    Mas o circo não para. Se a próxima Copa já promete confrontos tão improváveis quanto indigestos (Catar x Curaçao numa fase de grupos seria um jogo de dar “cãibra nos olhos” de quem assiste), o que dizer da Copa de 2030? Um torneio em TRÊS CONTINENTES SEIS PAÍSES, logo naquela que deveria ser a Copa do Centenário.

    Uruguai, Paraguai e Argentina (América do Sul), Marrocos (África), Espanha e Portugal (Europa). Tudo junto, misturado e logisticamente infernal. Começa no inverno sul-americano, termina no verão europeu. Passaporte na mão, termômetro no bolso.

    E tudo isso apenas para agradar a todos os postulantes ao Centenário… enquanto se abre caminho para a cereja no bolo: uma Copa inteira na Arábia Saudita em 2034. O maior investidor do futebol atual, claro. Direitos humanos? Tradição esportiva? Contexto histórico? Isso tudo anda tendo menos peso que um cartão amarelo por reclamação.

    No fim das contas, a FIFA parece querer globalizar tudo — menos a sensatez.

    E o futebol, esse velho apaixonado que insiste em sobreviver apesar de seus donos, segue tentando lembrar ao mundo que ainda é mais bonito quando joga limpo. Mas vai explicar isso ao vil metal. Ele nunca foi muito fã de fair play.

    EDSON CALIXTO JUNIOR é escritor, teólogo e jornalista. Trabalhou na Rádio CBN, Diário do Rio Doce e Rede Novo Tempo de Comunicação. Foi assessor de imprensa na Assembleia Legislativa do Paraná (2003 – 2010). Bacharel em Administração de Empresas pela FGV, com MBA em Gestão, atualmente é servidor público federal.

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