Silêncio no 206

As mentes estão distraídas, o existencialismo da vida humana já não importa. E talvez isso seja apenas fuga, uma defesa de quem não tem sequer coragem de encarar a própria consciência numa reflexão necessária sobre o caminho pelo qual estamos percorrendo.

  • Por Wilame Prado
    [email protected]

    Quando a vida se esvai, muitas vezes resta apenas um recado curtíssimo no grupo de Whatsapp do condomínio: a dona R., do 206, havia falecido. A cerimônia de despedida seria às 8h30, antes da cremação do corpo. E fim.

    Ninguém do prédio compareceu à despedida. Bola pra frente. Apenas mais uma mensagem em meio a tantas destacadas no app de conversas aleatórias. Whatsapp segue bombando, graças a Deus. Bom dia, boa tarde e boa noite.

    Logo, todos já estariam de olhos bem vidrados nas notícias dos corpos enfileirados em uma avenida do Rio de Janeiro, após mega-operação que segue dividindo um País em duas torcidas. Ou então na impressionante virada de um time de futebol no torneio sul-americano. É tão confortável se envolver com coisas distantes.

    A senhora do 206 não mais visitaria a área social do prédio onde morava. Ou então apertaria o número 2 do elevador. Ou então pegaria as correspondências com o porteiro. Mas a vida dos vivos seguiria normalmente, sem surpresas, sem alarde. Um silêncio absoluto no 206.

    Estamos tão perto de vizinhos, colegas de trabalho, ou os mesmos caixas de sempre no supermercado no bairro. Mas é melhor evitar uma distância segura. Se envolver muito é correr o risco de também prestar contas da vida particular. Fiquemos no bom dia do app, apenas.
    Os filhos da dona R. eu não sei se vieram para a despedida. Eu não conheço nem mesmo a senhora do 206, quem dirá algum parente, alguma amiga, alguém que pudesse nos dizer sobre os problemas de saúde de alguém já enfermo.

    É aquela velha história já tanto replicada do funcionário que faltou no serviço durante meses e só foi notado quando alguém do RH retirou o porta-retratos de cima de uma mesa que já acumulava poeira. Ou daquele “grande amigo” que desistiu dos mesmos bares, dos mesmos ambientes, e que surpreendeu a todos virando manchete de jornal com alguma notícia dramática.

    Todos, todos, têm se ferido muito com relações familiares invasivas, com maridos e mulheres que tomam de posse a alma e o corpo alheio, com parentes que adoram as desgraças rendendo fofocas ou amigos que sugam como vampiro a energia daquele que tanto deu ouvidos e que agora não consegue sequer abrir a boca para desabafar, para gritar, talvez. Mande um Whats com “Bom dia”, é melhor.

    Dona R. silenciou o segundo andar, os ambientes compartilhados do condomínio onde morava e os seus chilenos arrastados não mais deixarão marcas no azulejo do hall do prédio. Mas as pessoas não gostam deste silêncio, optam pela poluição sonora dos vídeos infinitos do TikTok.

    As mentes estão distraídas, o existencialismo da vida humana já não importa. E talvez isso seja apenas fuga, uma defesa de quem não tem sequer coragem de encarar a própria consciência numa reflexão necessária sobre o caminho pelo qual estamos percorrendo.

    Vá em paz, dona R. Eu nunca vi você, mesmo sendo minha vizinha. E o celular acusando notificações de mensagens sobre a morte de um grande artista para a comoção de todos do grupo do condomínio. É mais fácil “sofrer” com aquilo que está bem longe.

    Comentários estão fechados.