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Por Arquiteta Adriana Lima
Ninguém melhor que o pintor expressionista Vicent Van Gogh para abrir essa conversa sobre psicologia das cores. Conhecido por suas obras multicoloridas e por suas crises emocionais, a cor era a sua forma de comunicação. Em seus quadros, a cena não era retratada de forma realista, mas para traduzir suas emoções através das cores e pinceladas. Nesta pintura, a arquitetura e piso em amarelo vibrante representam calor, movimento e sociabilidade, em contraste psicológico com o azul profundo que simula a noite fria ao redor.
Esse contraste não se limita às telas de Van Gogh. Quando contemplamos um quadro nos tornamos sensíveis às cores daquela arte, imaginando o que o artista sentia ou pensava quando a criou, mas na hora da escolha da cor para um ambiente subestimamos o quanto ela pode nos impactar. A forma como o nosso cérebro reage na percepção das cores, seja de forma consciente ou inconsciente, direciona as nossas sensações e decisões, por isso para a psico e neuroarquitetura, a cor é mais que estética.

Se nas artes a cor traduz emoções, nos espaços construídos ela se torna estratégia. Mas como usarmos as cores para projetarmos ambientes mais acolhedores ou vender mais? Primeiro precisamos entender que as cores também possuem associações culturais e simbólicas. Seu significado pode variar de acordo com os costumes ou crenças de cada indivíduo ou país, trazendo cargas emocionais que fazem alusão à vivência daquele povo específico.
Um bom exemplo dessa associação das cores com as cargas culturais e simbólicas é a arquitetura saturada de cores do arquiteto mexicano Ricardo Legorreta que resgata a herança dos tons vibrantes das “haciendas”, das cidades históricas e das ruínas précolombianas. Essas associações simbólicas, provenientes do inconsciente coletivo, podem dar significados diferentes às cores.
Essas leituras culturais revelam o poder do inconsciente coletivo na percepção das cores. Já individualmente, para entendermos melhor como somos influenciados em nossas escolhas de design e percepções das cores, a psico arquitetura se apropriou dos arquétipos da psicologia analítica de Carl G. Jung, utilizando-se desses padrões universais de comportamento de acordo com os doze traços de personalidades mais essenciais e suas cores correspondentes. Observe no gráfico abaixo.

Este gráfico ilustra essa relação. Ao projetarmos espaços alinhando as cores às personalidades dos seus usuários, criamos ambientes que traduzem sensação de pertencimento, propósito e estilo de vida adequando à expectativa de cada indivíduo. Abaixo, vamos exemplificar como alinhar o arquétipo e sua cor correspondente com o objetivo de provocar sensações específicas para o espaço que se quer trabalhar, observe:
Motivação: Conferir Estrutura (Azul / Verde), Arquétipos: Governante, Prestativo, Criador
Cor: verdes e azuis equilibrados. Sensação: ordem, organização, segurança.
Interiores: Paletas sóbrias (verde musgo, azul petróleo, cinza). Ideal para: escritórios
corporativos, recepções, cozinhas funcionais.
Exemplos da relação entre a cor, o arquétipo e a sensações e seus significados:
Azul → paz, confiança, espiritualidade (arquétipo do Sábio ou do Cuidador).
Verde → cura, renovação, natureza (arquétipo do Curador ou Amante da Vida).

Esses exemplos demostram a força simbólica da paleta escolhida. No entanto, outro aspecto importante para a definição da cor é analisar seu contexto, o que está em volta, o ambiente como um todo. Fatores como a luz natural ou não, o layout (disposição dos móveis em planta), a biofilia (a vegetação interagindo nos ambientes) e o design (volumetria, linhas retas, curvas, repetições) devem ser considerados na escolha das cores, que podem ressaltar ainda mais os elementos arquitetônicos ou decorativos direcionando para a intenção que se deseja aplicar.
Assim, depois de avaliar contexto e interações, chegamos à etapa final: ao especificarmos uma cor, devemos levar em consideração a sua função, que pode ser orientada pela função do ambiente. Por exemplo, em ambientes comerciais, corporativos ou projetos na área da saúde, educação, as cores podem ter um papel fundamental para estimular o consumo, reforçar autoridade, trazer memórias, melhorar o humor, concentração e produtividade. Neste caso, a intenção/função vai determinar a cor:
- Cores frias e tons suaves → ambientes mais tranquilos, sensação de amplitude e calma.
Cores frias (azul, verde, lilás) transmitem calma, tranquilidade e concentração. - Tons terrosos → conforto emocional e redução de estresse, neste caso as texturas
também são aliadas das cores para trazer acolhimento. Os tons terrosos são as cores que
remetem à natureza, como o marrom, bege, caramelo, terracota, ocre, verde-musgo, areia
e mostarda. - Cores quentes → ambientes mais sociáveis, energéticos que estimulam a cognição e o
aprendizado e o consumo rápido. As cores vibrantes são tons intensos, vivos e brilhantes,
como o vermelho, laranja, amarelo e as tonalidades resultantes de suas misturas.

Concluindo, a psicologia das cores é uma ferramenta poderosa na criação de projetos não apenas belos, mas que podem transformar o comportamento e o bem-estar das pessoas. Assim como Van Gogh expressava suas emoções em pinceladas intensas, cada cor que escolhemos em um projeto também comunica algo profundo, consciente ou não. Na intersecção entre a psicoarquitetura e a neuroarquitetura, a cor atua como um terapeuta silencioso: às vezes acalma, outras vezes desperta, conecta ou posiciona. Depois que começamos a entender melhor tudo isso, não dá mais para olhar as cores como antes…
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Arquiteta Adriana Lima
Pesquisadora em neuroarquitetura e psicoarquitetura
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E acesse o site: www.adrianalima.arq.br
Referências:
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
PEDROSA, Israel. O universo da cor. Rio de Janeiro: Ed. Senac Nacional. 2003.
https://conhecimentocientifico.r7.com/cores-quentes/
https://www.legorreta.mx/es/proyecto-hotel-camino-real-cdmx
https://www.douglasmaluf.com.br/os-12-arquetipos-de-jung-qual-e-o-seu/
https://casacor.abril.com.br/pt-BR/ambientes/living-do-acolhimento-ribeirao-preto-2022








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