‘Ele me vendeu como garota de programa’: documentário sobre Rose Leonel tem pré-estreia no cinema de Maringá

O documentário foi lançado vinte anos após Rose Leonel se tornar uma das primeiras vítimas públicas de “pornografia de vingança” no Brasil

  • Tempo estimado de leitura: 7 minutos

    “Ele fez uma história e me vendeu como garota de programa”. Esse é o sentimento da jornalista maringaense Rose Leonel vinte anos após ter sido uma das primeiras vítimas públicas de “pornografia de vingança” no Brasil.

    Na noite desta terça-feira (10), ela reuniu representantes do Judiciário, do Ministério Público e do Batalhão da Patrulha Maria da Penha do Paraná, além de integrantes de organizações da sociedade civil e entidades voltadas à defesa dos direitos das mulheres, para a pré-estreia do documentário “Nua na Rede – A Verdade Sobre Rose Leonel”.

    Participaram representantes do Fórum Maringaense de Mulheres, da Procuradoria da Mulher da Câmara, da ONG Marias do Ingá, da Coordenadoria do NUNAPE da UEM, da OAB Maringá e da Comissão das Mulheres Advogadas, além de profissionais da área jurídica, acadêmica e de coletivos de apoio às mulheres.

    A noite foi marcada pela lembrança de um episódio doloroso que, ao longo dos anos, ganhou um novo significado: de luta, coragem e apoio a outras mulheres.

    Em um momento especial do encontro, Rose também fez uma apresentação musical ao lado de seu professor de canto. Ela admitiu que ainda está em processo de aprendizado, mas demonstrou que ainda está aberta a novas experiências, superando a narrativa que um dia criaram sobre ela.

    Foto: Stephanie Masson / Maringá Post

    A sessão também teve um contratempo com o som: como o material havia sido produzido originalmente para streaming, não estava ajustada para o cinema. Ainda assim, a situação foi resolvida algum tempo depois, e o primeiro episódio da série documental pôde ser exibido ao público.

    A série completa conta com cinco episódios, que estarão disponíveis na HBO Max.

    O começo da história

    O caso começou em 2006, quando a internet ainda era uma novidade no país, e crimes digitais eram pouco debatidos. Foi nesse contexto que a vida de Rose virou um pesadelo: após o fim de um relacionamento de pouco mais de três anos, o seu ex-noivo passou a divulgar fotos íntimas sem o consentimento dela.

    Em entrevista ao Maringá Post, Rose Leonel explica que o objetivo da série é trazer uma conscientização sobre a importância de responsabilizar os autores do crime e proteger quem sofreu a exposição. Segundo ela, as vítimas precisam enfrentar a situação “de cabeça erguida”, pois elas não têm culpa do que estão sofrendo.

    “Nós somos vítimas desse tipo de crime, de divulgação de imagem íntima não autorizada. E como vítimas, nós merecemos respeito. As pessoas precisam entender que o crime não é se deixar fotografar. O crime é divulgar uma imagem íntima que estava sendo feita dentro de um relacionamento íntimo”, declarou.

    Sobre esse assunto, a jornalista se inspira nas palavras da autora francesa Gisèle Pelicot, que sobreviveu a anos de abuso dentro de seu casamento. “Como disse Gisèle Pelicot, ‘a vergonha tem que mudar de lado’. Então, que nós possamos não nos omitir e lutar por isso”, afirma Rose.

    Reputação destruída

    O primeiro episódio do documentário traz um olhar humanizado sobre a jornalista Rose Leonel, contando sua história antes, durante e depois do crime. Fala sobre seu trabalho na imprensa maringaense, seus casamentos passados, seus filhos, até chegar ao início do relacionamento que desencadearia a exposição das fotos íntimas.

    Um detalhe que chamou a atenção foi que as imagens foram reproduzidas por uma atriz que não mostra o rosto. Esse recurso cinematográfico permitiu que os espectadores pudessem entender a gravidade da ação, ao mesmo tempo em que o documentário preserva a dignidade de Rose, evitando que ela seja revitimizada.

    Todos os entrevistados — amigos, colegas, conhecidos de Rose — descreveram como ela era vista pela sociedade maringaense: uma mulher bonita, inteligente, bem vista. Na época, ela era colunista social e apresentadora de televisão, profissões que exigiam boa reputação.

    No entanto, toda essa imagem foi destruída da noite para o dia, quando as fotos íntimas de Rose foram divulgadas.

    “Me vendeu como garota de programa”

    Apesar de ter sido vítima de um crime, Rose foi quem acabou enfrentando críticas e julgamentos perante a sociedade: perdeu trabalho, amizades e até relações familiares, sendo tratada como culpada pela própria exposição. Isso porque o ex-noivo enviou as fotos íntimas em um e-mail que tinha o nome de Rose, como se ela mesma estivesse se promovendo como garota de programa.

    “Ele criou um e-mail para mim, na verdade, com o meu domínio. E as pessoas achavam então que era eu me divulgando. Porque era muito mais fácil acreditar num lado pior da história do que acreditar na verdade”, explica Rose.

    No total, cerca de 400 fotos foram divulgadas. Nem todas eram reais: muitas foram manipuladas ou criadas pelo autor, que ainda publicou algumas em sites pornográficos, e algumas chegaram a ser impressas e espalhadas pelas ruas de Maringá.

    Uma amiga de longa data, a presidente da ONG Decida Viver, Regina Aparecida de Paula, comentou que a violência sofrida por Rose pode gerar gatilhos graves, incluindo ideação suicida. Por esse motivo, o apoio e a denúncia são essenciais.

    “Enquanto mulheres, não podemos nos desligar uma da outra. […] A Rose, na minha opinião, é uma mulher muito guerreira, que tem transformado a vida dela”, afirmou Regina.

    O desfecho — e a continuidade da luta

    Após uma longa batalha judicial contra o ex-noivo, a jornalista recebeu uma indenização de R$ 30 mil, mas as consequências do crime nunca puderam ser apagadas. Para evitar que outras vítimas passassem pela mesma coisa, Rose criou a ONG Marias da Internet, que oferece acolhimento e suporte jurídico para mulheres que sofreram exposição.

    Em 2006, não havia entendimento sobre crimes cibernéticos, o que revelou lacunas da legislação brasileira diante da violência digital. A história de Rose ganhou tanta repercussão que, anos depois, motivou a alteração na Lei Maria da Penha, para tipificar o crime de vazamento de fotos íntimas. E assim surgiu a Lei nº 13.772/2018, batizada de Lei Rose Leonel.

    “Infelizmente, eu passei por isso, mas é importante que outras mulheres possam se utilizar dessa lei”, afirma Rose. “Não importa que a lei não retroaja para mim. O que eu puder fazer — e sempre farei pela ONG, enfim, na minha luta — eu acho que acabo me salvando ajudando outras mulheres também”.

    Comentários estão fechados.