Há literatura aqui: escritores maringaenses falam sobre os desafios do mercado editorial

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Divididos entre o trabalho formal e as demais obrigações da vida, eles lutam para que a escrita seja vista como mais do que um simples “hobby”. Na Cidade Canção, uma editora de livros fundada em 2015 tenta ajudar quem quer publicar uma obra pela primeira vez.

Por Victor Ramalho

O brasileiro está lendo menos? Apesar da premissa ter se tornado comum nos últimos anos, não há dados que façam disso uma verdade absoluta. Em 2022, por exemplo, o país publicou pouco mais de 387 mil livros, englobando todos os gêneros, segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) A mestra em Estudos Literários Thays Pretti, por exemplo, acredita que a discussão deveria estar em torno de novos formatos de publicações.

“Eu acho que as pessoas leem, sim, mas de um jeito diferente do que liam no passado. O tempo de atenção me parece menor hoje, porque são muitos os estímulos. Então talvez estejamos em um momento propício para textos mais curtos, sejam eles contos, crônicas ou poemas”, disse.

Thays tem propriedade para falar do assunto. Gerente de Conteúdo em uma publisher digital, ela está em contato com os textos diariamente, além da experiência enquanto escritora. Aos 36 anos, já tem três livros oficialmente publicados, além das centenas de crônicas e poemas publicados em outros espaços, como a coluna que escreveu no extinto “O Diário do Norte do Paraná”, entre 2015 e 2019.

Atualmente, a escritora segue no roll de maringaenses que se aventuram no mercado editorial. A última obra dela foi “A mulher que ri”,  uma coletânea de 18 contos publicada pela editora Patuá em 2019. “São 18 contos que enfocam mulheres muito diferentes umas das outras, em situações um tanto limítrofes, um tanto epifânicos. Eu gosto de trabalhar com microexperiências que se expandem dentro da narrativa, então o livro passa muito por aí. São miudezas, situações pequenas, mas que revolucionam o universo interior das personagens”, descreve.

Falar de escritores locais é sempre importante levando em consideração que, culturalmente, o público está mais propenso a consumir obras estrangeiras e/ou de autores já consolidados no mercado literário, algo que não ocorre apenas por consequência dos leitores: as grandes editoras, via de regra, publicam mais os escritores famosos, pela facilidade em vender esses títulos. Trata-se de uma questão de sobrevivência em um mercado de alto custo e baixo retorno.

Maringá, no entanto, é um terreno fértil de grandes escritores, dos mais variados gêneros. Além da Thays, quem também segue produzindo é o professor Luigi Ricciardi. Aos 41 anos, o doutor em Estudos Literários acabara de lançar um novo livro: trata-se de “O Descobrimento do Brasil”, uma reunião de contos que tratam as raízes da violência urbana e da sociedade brasileira contemporânea. A obra foi publicada pela editora Patuá e pode ser adquirida através deste link.

Além do último volume, Ricciardi já tem outros 5 livros publicados, sendo 4 de contos e um romance. Entre eles está “Os passos vermelhos de John”, de 2020. Segundo ele, a ideia de escrever surgiu ainda na graduação em Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Em 2011 (começou a escrever). Já escrevia desde a faculdade. O livro serviu como ponto de partida, uma maneira de me entender como escritor oficialmente”, explica.

Perguntando sobre qual dos livros é o mais especial, ele diz ser uma escolha difícil. “A gente se sente parte do próprio texto. Mas eu escolheria os dois livros mais recentes (Os passos vermelhos de John, 2020; O descobrimento do Brasil, 2023) por acreditar que estou mais maduro na escrita”, justifica.

Apesar da extrema qualidade das publicações dos dois escritores aqui entrevistados, nenhum deles ainda conseguiu fazer do ramo literário um meio de vida. Divididos entre o emprego formal e as demais obrigações do cotidiano, eles seguem na escrita como um hobby.

Ambos têm pontos em comum quando questionados sobre os desafios de se continuar escrevendo, como a falta de tempo e a questão financeira.

Acesso às editoras grandes que dominam o mercado só tem quem já é consagrado ou consegue um bom agente literário – coisa que está em falta. Hoje está um pouco mais fácil vender porque as editoras possuem seus próprios sites e também conseguem vender em market places como Amazon, Magazine Luíza, entre outros. Mas as pequenas ainda têm dificuldade em fazer o livro chegar às livrarias físicas. É muito custoso”, relata Luigi, que completa: “O maior desafio é um negócio chamado Brasil”.

Thays ressalta, por exemplo, a necessidade de dedicação ao processo criativo. “Acho que são vários pequenos desafios. Se fosse optar por um único, acho que seria a questão tempo/dinheiro, que sempre pega: não é muito visível socialmente que o escritor precisa dedicar muito do seu tempo para se aperfeiçoar, buscar referências, produzir algo. Daí que o trabalho artístico, criativo e intelectual nem sempre é muito valorizado – financeiramente, inclusive. Então acaba que muitos escritores precisam dividir o tempo entre trabalhos convencionais e o trabalho artístico (é meu caso). Você acaba renunciando a outras coisas daí, e demora mais tempo para a produção de um único objeto artístico”, relata a escritora. 

Os trabalhos dos dois escritores podem ser acompanhados pelas redes sociais: @thayspretti e @luigiricciardiescritor.

A escritora maringaense que abriu uma editora para facilitar publicações de…maringaenses

Como já citado anteriormente, publicar um livro não é um trabalho barato e, dependendo dos casos, pode ser bastante burocrático. E foi justamente para “encurtar” o caminho para os escritores locais que a também escritora Angela Ramalho fundou, em 2015, a A.R Publisher, uma editora de livros que auxilia os postulantes a publicar uma obra em todas as etapas.

Professora aposentada e membra titular da Academia de Letras de Maringá (ALM), com 12 obras publicadas, Angela acabou se tornando uma referência em publicação na cidade. Em oito anos de fundação, já são mais de 300 obras publicadas, atendendo 80 autores maringaenses. Ela diz que, no início, o trabalho era uma forma de ocupar a mente, mas depois viu que poderia preencher uma lacuna existente no mercado local.

Como sempre gostei de livros, inicialmente a intenção era produzir apenas os meus livros, mas quando comecei a mostrar as imagens das minhas produções literárias nas redes sociais, começaram a vir comentários do tipo: ‘Nossa, que lindo! Quem fez para você?’ A resposta era simplesmente: ‘eu!’ Então começaram os pedidos e quando vi estava produzindo meus livros e os das minhas amigas. Dai para produzir livros comercialmente foi um pulo”, relembra.

Conhecedora de todo o processo – e consequentemente das mazelas – para se publicar um livro, ela acabou tornando o processo de ajudar os escritores iniciantes uma “missão”.

“Como a maioria das pessoas não sabem quais os serviços editoriais necessários à produção de um livro e considerando que todos esses serviços são técnicos, ou seja, dependem de profissionais para executá-los, a chance de um autor iniciante contratar alguém que não dê conta de um ou mais desses serviços é grande. Com isso, vai perder tempo e jogar dinheiro fora. Lá no início, antes de abrir a editora, eu fui passada para trás, perdi dinheiro e tempo. Pessoas inescrupulosas existem em todas as profissões, mas quando certas editoras sabem que o autor é iniciante e desconhece o processo de produção, costumam cobrar valores exorbitantes. Ao abrir a editora, me propus a executar um serviço de qualidade, por um preço justo. E tenho isso como missão. Conto com uma rede de prestadores de serviços, desde revisores, redatores, capistas, diagramadores, gráficas parceiras e pessoal de catalogação. São todos profissionais, cumpridores de prazos, que oferecem bons preços e executam serviços de qualidade. Isso encurta o caminho, o autor investe, mas tem o retorno desejado”, explica.

Além do auxílio aos novos escritores, Angela também usa a editora para trabalhar na preservação do patrimônio literário local. Foi a A.R, por exemplo, que editou o livro “Nas Alturas”, em comemoração ao 50 anos da Catedral de Maringá, além da reedição comemorativa do livro “Robson”, de A.A de Assis, publicada em 2019 em homenagem ao título original, que foi o primeiro livro publicado em Maringá no ano de 1959. A obra da década de 1950, inclusive, foi tombada como Patrimônio Histórico do Município em 2023.

Imagem Ilustrativa/Marcelo Camargo/Agência Brasil


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