Os Sutis, o povo que vivia em Maringá antes da chegada dos pioneiros

O povo sutil, que ainda está presente em várias regiões brasileiras

10 de maio de 2021
Cemitério dos Caboclos
O Cemitério dos Caboclos, na PR-323, é tombado pelo Patrimônio Hstórico

MARINGÁ 74 ANOS

Engana-se quem pensa que as matas que existiam na região em que nasceram Maringá e outras cidades eram terra de ninguém. Elas já tinham moradores e muitos continuaram vivendo por aqui depois que os desbravadores criaram a pequena comunidade que ganhou o nome de Maringá e hoje é conhecida como Maringá Velho.

A região tinha algumas aldeias indígenas, mas o povo que vivia onde está Maringá era o povo sutil, encontrado também em várias outras regiões brasileiras. Era gente culturalmente adiantada, sabia o Português dos pioneiros, falava alguma língua africana e eram todos muçulmanos.

O jornalista a historiador Airton Donizete Oliveira fez uma pesquisa sobre o povo sutil para sua tese de mestrado e encontrou, inclusive, vários pioneiros que conviveram com o povo que já estava por aqui a pelo menos um século antes do início do Maringá Velho. Segundo descobriu, eram vistos no núcleo urbano que se formou e negociavam com os novos moradores. O povo desapareceu sem deixar rastros e hoje a única marca da presença dos sutis na região é o Cemitério dos Caboclos, às margens da PR-323, entre Paiçandu e o distrito de Água Boa.

Com o material colhido na pesquisa, Donizete pretende dar início a um livro. “Este foi um bom momento para estudar a presença dos sutis na região porque muitas pessoas que conviveram com eles ainda vivem em Maringá e região e puderam descrever como era este povo, que hoje está caindo no ostracismo da história”, explica o mestre em Comunicação, que durante três anos conversou com alguns dos primeiros pioneiros a chegar a Maringá.

Donizete justifica seu interesse nesta pesquisa porque “a maioria desconhece a trajetória daqueles caboclos de baixa estatura, de fala mansa e pausada, descendentes de negros e índios que viviam em casas de pau a pique cobertas com tábuas de embira e habitaram esta região antes dos colonizadores e desapareceram e hoje nem são citados como parte da história do Paraná”.

Antonia Moreno Doce
Antonia Moreno Doce cresceu na região do distrito de Iguatemi e conviveu com os sutis

A dona de casa Antonia Moreno Doce, de 90 anos, provavelmente a moradora mais antiga da região ainda viva, chegou com a família em 1943, antes da existência do núcleo conhecido como Maringá Velho, e conviveu com os sutis onde depois nasceu o povoado que hoje é o distrito de Iguatemi. Os únicos vizinhos da família eram os sutis, que já moravam na região fazia mais de 20 anos. Segundo ela, “era um povo bom, de fácil convivência, que vivia em comunidades em que tudo era dividido e ninguém tinha preocupação de ser dono de nada”.

Outros pioneiros ouvidos por Airton Donizete, como o violeiro Julio Pires de Morais, de Floriano, Severino Bolognese e Luciano Contardi, de Paiçandu, contaram que os sutis eram alegres, realizavam festas e participavam das festas dos pioneiros. Ficou bastante conhecido nesta época o lider espiritual Sebastião Justus, que abençoava casais que pediam bênção depois de casamento na igreja católica. A bênção tinha origem em ritos africanos, mas era bem aceita pelos católicos.

 

Cemitério

O Cemitério dos Caboclos, uma pequena área, de menos de 100 metros quadrados, cercada de pedra e com uma pequena capela de pedra, toda pintada de branco às margens da PR-323, entre Paiçandu e o distrito de Água Boa, é a marca mais visível da passagens dos sutis por esta região.

Cemitério dos Caboclos, na PR-323
O Cemitério dos Caboclos, na PR-323, próximo a Paiçandu

A muralha de pedra não existia até a década de 1940 e presume-se que ela foi feita por moradores de Marilá, Paiçandu e Água Boa, já que vários pioneiros também foram sepultados lá.

Donizete descobriu que na época em que somente os sutis viviam na região, praticamente não se usava caixões. A exemplo do que acontecia em comunidades tribais, os mortos eram transportados em banguês, uma espécie de rede amarrada em um pedaço de madeira. Quando chegaram os primeiros pioneiros, os sutis continuaram enterrando seus mortos no velho cemitério, mas o defundo era depositado na terra, não em caixão. O caixão, se tivesse um, ficava por cima do corpo.

 

Espalhados pelo Brasil

Os sutis do norte e noroeste do Paraná eram negros, mas já misturados com um pouco de branco, um pouco de índio, resultado da convivência com outros povos nas andanças até chegarem aqui. Embora participassem das atividades católicas dos pioneiros, eles eram originalmente muçulmanos.

Acredita-se que o grupo que estava aqui seja originário de escravos da Bahia, que deixaram a região após a Grande Revolta dos Malês, em 1835, quando muçulmanos escravos e libertos pertencentes aos povos iorubá/nagô, haussá, nupe e jeje se espalharam pelas matas do Brasil. Nômades, não se fixavam por muito tempo em uma região, viviam do que encontravam nas florestas, criavam animais, principalmente porcos, praticavam a agricultura de sobrevivência, eram hábeis artesãos e viviam em moradias de pau a pique com cobertura de folhas de palmeira ou de sapé. Várias cidades foram formadas pelos sutis, entre elas Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso, e Cuiabá.