Maringá — A memória costuma retratar os primórdios das cidades pioneiras com tons heróicos, exaltando o trabalho árduo que resultou em riqueza e segurança. Ao analisar os arquivos criminais e registros fundiários das primeiras décadas de Maringá, contudo, o historiador Miguel Fernando apresenta uma realidade diferente e contraditória.
Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo no podcast Ponto a Ponto, gravado no VMark Estúdio, Miguel apontou que a construção de um mito fundacional perfeito oculta a trajetória daqueles que sucumbiram às adversidades.
“Eu me interesso demais pelas histórias de quem não conquistou o Eldorado. Porque essas pessoas representam, na verdade, a imensa maioria dos que chegaram aqui. Durante muito tempo repetiu-se que todos arrumavam emprego fácil, que a cidade era pacata e sem conflitos. Os documentos mostram o exato oposto”, declarou.
Favelas e conflitos armados no nascedouro urbano
Conforme o pesquisador, o forte apelo publicitário veiculado pela colonizadora atraiu fluxos migratórios gigantescos de diferentes origens sociais. A intensidade do crescimento acelerado superou a capacidade de absorção ordenada da época.
“Maringá tinha favelas, áreas de ocupação desordenada e índices severos de violência. Havia assassinatos frequentes e ocorrências que hoje se enquadrariam como crimes hediondos. A cidade era vendida no Brasil e no exterior como uma terra de oportunidades ilimitadas. Era inevitável que chegasse gente de boa índole, mas também pessoas mal-intencionadas. Seria uma anomalia estatística se Maringá não tivesse vivido isso”, alertou.
Para o documentarista, encarar a dureza do passado serve como lição para a geração atual: “Quando a gente se debruça sobre a história real, percebe que perdemos a noção da gravidade do que era dificuldade de verdade. O presente tem problemas complexos, mas a vida hoje é infinitamente melhor e mais segura do que naquele início”, ponderou.
Serviço
Apresentação: Ronaldo Nezo
Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio
Assista o episódio completo do podcast no canal do Maringá Post no YouTube.
















