O mercado financeiro entrou nesta quarta-feira (7) olhando para um cenário que, há poucos dias, parecia distante: o dólar voltou a ficar abaixo de R$ 5.
No fechamento de terça-feira (6), o dólar comercial terminou negociado próximo de R$ 4,98, enquanto a taxa PTAX de venda do Banco Central ficou em R$ 4,9698. Foi a continuidade de um movimento de valorização do real iniciado depois do primeiro turno das eleições.
A pergunta agora é se esse novo patamar representa apenas uma reação imediata do mercado ou se pode permanecer nas próximas semanas.
O mercado ainda prevê dólar acima de R$ 5
Apesar da forte queda observada nos últimos dias, o Boletim Focus divulgado na segunda-feira (5) mantinha a projeção mediana para o dólar no fim de 2026 em R$ 5,20.
Para o fim de 2027, a previsão estava em R$ 5,28, enquanto para 2028 permanecia em R$ 5,30.
Existe, portanto, uma diferença importante entre a cotação observada agora e a expectativa para o encerramento do ano.
O dólar pode permanecer abaixo de R$ 5, mas, para isso, o mercado terá de incorporar de forma mais permanente as novas expectativas econômicas, principalmente em relação às contas públicas, juros e política econômica.
Por que o real ganhou força?
A reação começou imediatamente depois do resultado do primeiro turno das eleições.
Na segunda-feira (5), o Ibovespa subiu 7,70%, ultrapassou pela primeira vez os 200 mil pontos e o dólar caiu mais de 4%, fechando praticamente em R$ 5.
Na terça-feira, houve uma acomodação da Bolsa, mas o dólar continuou recuando.
Analistas ouvidos pelo mercado apontam principalmente o aumento da entrada de capital estrangeiro e a mudança nas expectativas sobre a condução econômica como fatores que favoreceram o real. Ao mesmo tempo, alertam que a manutenção desse movimento dependerá das próximas etapas do processo eleitoral e das propostas econômicas que forem apresentadas.
E o euro?
O euro também acompanhou a valorização do real.
A PTAX do Banco Central para o euro fechou a terça-feira em aproximadamente R$ 5,60.
O euro, porém, depende de dois movimentos simultâneos: a relação entre o euro e o dólar no mercado internacional e a cotação do real.
Por isso, mesmo que o dólar permaneça abaixo de R$ 5, o euro não necessariamente acompanhará a queda na mesma proporção.
O que isso significa para quem importa?
Um real mais valorizado reduz, em reais, o custo de produtos e insumos comprados no exterior.
Empresas que importam máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, produtos químicos, medicamentos, peças e outros itens cotados em dólar ou euro passam a ter uma condição cambial mais favorável.
Na prática, uma empresa que precisa pagar US$ 100 mil por uma importação desembolsaria cerca de R$ 500 mil com dólar a R$ 5.
Com o dólar a R$ 4,97, seriam aproximadamente R$ 497 mil, antes de impostos, tarifas, frete e demais custos.
A diferença aumenta conforme cresce o valor da operação.
E para quem exporta?
Aqui o efeito é inverso.
O exportador brasileiro recebe em moeda estrangeira e converte esse dinheiro para reais.
Com o dólar mais baixo, cada US$ 1 exportado representa menos reais para a empresa.
Isso pode reduzir a receita em moeda brasileira, especialmente para empresas que possuem custos predominantemente em reais.
Por outro lado, o exportador também pode se beneficiar de outros fatores, como preços internacionais de commodities e aumento da demanda externa.
Por isso, dólar baixo não significa automaticamente prejuízo para todo exportador.
A balança comercial continua forte
Os dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o comércio exterior brasileiro segue apresentando números robustos.
Em setembro, o Brasil exportou US$ 34,418 bilhões e importou US$ 26,678 bilhões, produzindo um superávit de US$ 7,741 bilhões.
No acumulado de janeiro a setembro, as exportações chegaram a US$ 284,654 bilhões, enquanto as importações somaram US$ 222,259 bilhões.
O resultado foi um superávit de US$ 62,396 bilhões, 34,8% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Exportações cresceram, importações recuaram em setembro
O resultado de setembro chama atenção também pela combinação dos dois movimentos.
As exportações cresceram 12,9% em relação a setembro de 2025.
As importações, por outro lado, caíram 2,4%.
Entre os principais produtos exportados estiveram petróleo, soja e minério de ferro. As vendas brasileiras para os Estados Unidos cresceram 31,9% em setembro, enquanto as exportações para a China recuaram 7,6% no mês.
Governo reduziu projeção do superávit
Mesmo com o resultado forte de setembro, o governo revisou para baixo sua previsão para o saldo comercial de 2026.
A estimativa passou de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões.
Ainda assim, o resultado projetado seria 24% superior ao superávit de 2025, de US$ 68,1 bilhões, e ficaria entre os maiores já registrados pelo país.
O que observar daqui para frente
Para o consumidor e para as empresas, o principal ponto de atenção será saber se o dólar abaixo de R$ 5 conseguirá se sustentar.
Se o real permanecer valorizado, importadores ganham espaço para reduzir custos e empresas que dependem de produtos estrangeiros podem ser beneficiadas.
Para os exportadores, o cenário exige atenção maior à margem de lucro e à proteção cambial.
Mas há um dado que impede conclusões precipitadas.
O mercado fechou terça-feira com dólar perto de R$ 4,97, enquanto o Focus ainda prevê R$ 5,20 no fim do ano.
Isso significa que o mercado está diante de uma nova realidade cambial, mas ainda não abandonou a expectativa de que parte dessa valorização do real possa ser devolvida até dezembro.
Para quem importa, o momento é de atenção à oportunidade.
Para quem exporta, é de atenção à margem.
E para todos, a questão central agora é uma só: o dólar abaixo de R$ 5 veio para ficar ou é apenas a primeira reação do mercado ao novo cenário político?












