O arroz pode voltar a pesar mais no orçamento das famílias brasileiras nos próximos meses.
A razão está no campo. A área destinada ao cultivo do cereal na Região Sul, principal produtora do Brasil, ficará abaixo de 1 milhão de hectares na safra 2026/27. É a menor área para o arroz na região desde 1982.
A primeira estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta área nacional de aproximadamente 1,53 milhão de hectares. A produção brasileira, que chegou a cerca de 12,8 milhões de toneladas em 2025, deverá recuar para aproximadamente 10,8 milhões nesta nova safra.
A diferença é expressiva: são cerca de 2 milhões de toneladas a menos.
E é justamente essa redução que pode mudar o comportamento dos preços.
O arroz não chega ao supermercado imediatamente depois de ser plantado. Existe um estoque formado pela produção anterior, além das compras externas. Por isso, uma redução da área plantada não significa aumento automático e imediato no preço do pacote.
Mas, à medida que a oferta diminui, o mercado fica com menos margem para absorver qualquer problema adicional de produção.
O cenário internacional também merece atenção.
Segundo dados citados pela Folha com base nas projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção mundial de arroz deve cair para 534 milhões de toneladas em 2026/27, enquanto o consumo deve chegar a 540 milhões.
Isso significa que o mundo deverá consumir mais arroz do que produzir no período.
Como consequência, os estoques mundiais também deverão diminuir, para aproximadamente 197 milhões de toneladas.
É uma combinação que pode aumentar a pressão sobre as cotações internacionais e tornar o mercado brasileiro mais sensível às oscilações externas.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já registrou alta de 0,5% no preço médio mundial do arroz em seu relatório mais recente.
No Brasil, portanto, existem dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo.
De um lado, o país deverá produzir menos arroz. De outro, o mercado internacional também trabalha com menor disponibilidade e consumo maior.
Isso não significa que o consumidor verá uma alta repentina no supermercado.
O preço do arroz passa por várias etapas antes de chegar à prateleira. Entre o produtor e o consumidor estão armazenagem, beneficiamento, transporte, distribuição, margens comerciais e impostos. Além disso, os supermercados ainda podem trabalhar com estoques comprados anteriormente.
Por isso, o reflexo tende a aparecer gradualmente.
Se as projeções de menor produção forem confirmadas e os estoques continuarem diminuindo, a tendência é de maior pressão sobre as cotações do arroz ao longo do ciclo.
E há uma diferença importante em relação aos períodos de excesso de oferta.
Quando existe muito arroz disponível, o produtor encontra dificuldade para elevar o preço. Quando a oferta fica mais apertada, a situação se inverte: qualquer redução adicional na produção, aumento do consumo ou necessidade maior de importação pode provocar uma reação mais rápida das cotações.
Para o consumidor, o sinal de alerta não é uma possível falta de arroz nas prateleiras.
É a mudança na relação entre oferta e demanda.
O Brasil ainda terá arroz para abastecer o mercado. A questão será quanto custará colocar esse produto à disposição do consumidor.
Se a produção nacional realmente cair para perto de 10,8 milhões de toneladas, a diferença terá de ser compensada por estoques, importações ou por uma combinação dos dois.
E importação também tem custo. Quando o produto externo fica mais caro ou o mercado internacional está pressionado, essa alternativa deixa de funcionar como um freio tão eficiente para os preços internos.
Por isso, o consumidor deve acompanhar os próximos meses com atenção.
A redução histórica da área de arroz no Sul não significa que o preço do pacote vai disparar imediatamente. Mas indica que o mercado está deixando para trás um período de maior folga na oferta.
O que começa no campo pode terminar no supermercado.
E, desta vez, o primeiro sinal está justamente na área que deixará de receber arroz: menos de 1 milhão de hectares no Sul, o menor espaço destinado ao cereal na região em 44 anos.




















