Mulheres deixam de ser coadjuvantes e assumem o protagonismo no agro

Participação feminina cresceu, chegou à gestão das propriedades e ganhou espaço nas decisões de um dos setores mais importantes da economia brasileira
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O agronegócio brasileiro mudou, e uma das transformações mais importantes está na presença das mulheres. Antes associadas principalmente ao trabalho familiar e às atividades de apoio nas propriedades rurais, elas conquistaram espaço na produção, na gestão financeira, na tecnologia e nas decisões estratégicas do setor.

Os números mostram essa evolução. Em 2006, as mulheres representavam 12,7% dos produtores responsáveis pelos estabelecimentos agropecuários brasileiros. No Censo Agropecuário de 2017, esse percentual chegou a 18,6%, correspondendo a aproximadamente 945 mil mulheres.

Em outubro de 2026, um levantamento da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), com dados da Serasa Experian, ampliou essa perspectiva: as mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais considerados decisores no País. O indicador inclui uma definição mais ampla de participação nas decisões e não deve ser confundido com a proporção de mulheres que dirigem exclusivamente propriedades rurais.

A presença feminina também varia conforme a atividade. Na pecuária, por exemplo, mulheres lideram a produção em 33% das propriedades analisadas em estudo divulgado em 2026 pela Fundação IDH. No cultivo do cacau, a participação chega a 22%.

Na soja, uma das principais culturas brasileiras, a presença feminina na produção primária ainda enfrenta barreiras. O acesso à gestão, ao crédito e aos cargos de liderança continua sendo um desafio em diferentes segmentos.

Gestão, conhecimento e resultado

A transformação não se limita ao número de mulheres no campo. Ela envolve formação profissional, planejamento, controle financeiro, uso de tecnologia e adoção de práticas de conservação do solo.

O levantamento divulgado pela Abag em outubro de 2026 também identificou diferenças no comportamento de crédito. Entre as grandes proprietárias rurais, a inadimplência registrada foi de 6,85%. Na Região Sul, o índice das produtoras analisadas foi de 5,4%.

Esses dados ajudam a mostrar que a participação feminina também precisa ser observada sob a perspectiva da gestão e da saúde financeira dos negócios, e não apenas pela quantidade de propriedades comandadas por mulheres.

E nas grandes empresas do agro?

A presença feminina também alcança conselhos de administração, diretorias e posições estratégicas de empresas ligadas à produção, ao processamento e à comercialização de alimentos.

Entretanto, é importante separar duas situações: ter mulheres em conselhos e diretorias não significa necessariamente que elas sejam presidentes ou diretoras-executivas das companhias.

Não há, nos dados citados, um levantamento consolidado que permita afirmar quantas das 20 maiores empresas do agronegócio brasileiro são efetivamente comandadas por mulheres em 2026. Apresentar um número sem verificar individualmente os cargos atuais seria impreciso.

O desafio, portanto, não é apenas ampliar a participação feminina, mas garantir que essa presença se converta em poder de decisão, acesso a recursos e oportunidades de crescimento.

Uma mudança que ainda está em curso

A evolução registrada entre 2006 e 2026 mostra que as mulheres deixaram de ocupar apenas um espaço secundário no imaginário do agronegócio. Hoje, elas participam da produção, administram propriedades, tomam decisões e contribuem para a modernização do setor.

Ainda existem diferenças de remuneração, barreiras culturais e menor presença em algumas posições de liderança. Reconhecer esses obstáculos não diminui os avanços; ajuda a dimensionar o caminho que falta percorrer.