A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante no ecossistema jurídico para se transformar em ferramenta do expediente diário, impondo desafios técnicos e culturais aos escritórios locais. Distante de discursos alarmistas ou modismos tecnológicos, a advocacia maringaense passa a encarar a tecnologia sob a ótica da produtividade, da gestão de acervos e da segurança da informação, equilibrando o ganho de eficiência operacional com a manutenção do rigor ético e do raciocínio crítico que caracterizam o exercício do Direito.
Em entrevista exclusiva ao Maringá Post, Rony Peterson Pedroso Barbosa — presidente da Comissão de Estudos de IA da OAB Maringá e fundador da Atus Tech — detalha como a subseção tem capacitado os profissionais da cidade para o uso prático e seguro de modelos de linguagem. Em pauta, a aplicação de ferramentas para a triagem de processos, as diretrizes sobre LGPD e sigilo de dados, o risco de “alucinações” em decisões judiciais e as novas oportunidades para o profissional do futuro na região.
Capacitação e quebra de barreiras
Segundo Rony Peterson, a atuação da Comissão da OAB Maringá tem sido focada na aplicação real do dia a dia do contencioso, longe do discurso de “vitrine tecnológica”. A subseção já promoveu apresentações sobre agentes, memórias de longo prazo e a criação de um “segundo cérebro” para escritórios integrando ferramentas de anotação. Além disso, foi estruturado o curso IA na Advocacia 101, voltado para a construção de prompts jurídicos em peças, pesquisas e triagens.
Para o especialista, o maior entrave para a adoção das ferramentas na cidade não é o aspecto técnico, mas sim a mudança cultural. A advocacia, por ser uma profissão tradicional pautada no rigor da norma, muitas vezes desconfia do uso de tecnologia por receio de perder a essência do oficio. Do ponto de vista prático, os desafios envolvem o domínio do know-how de prompts, a compreensão de que modelos de linguagem “alucinam” — exigindo obrigatoriamente a curadoria humana — e a garantia de proteção ao sigilo do cliente.
Atendimento
O ganho mais imediato apontado pelo presidente da Comissão está na triagem processual. Modelos bem calibrados conseguem analisar centenas de páginas, identificar teses, prazos e inconsistências em minutos, liberando a equipe jurídica para atividades estratégicas, negociações e audiências.
Outro benefício direto para a população maringaense é a simplificação da linguagem jurídica. A tecnologia possibilita “traduzir” decisões e petições complexas para um português claro para o cliente leigo, tornando o acesso à Justiça mais inclusivo. Essa agilidade no atendimento e na análise documental gera um efeito cascata positivo, aumentando a eficiência na Defensoria Pública e pressionando o próprio Judiciário a acelerar fluxos com maior padrão de qualidade.
Automação x trabalho
Questionado sobre o risco de padronização excessiva de peças e petições, Rony Peterson define de forma clara os limites entre a automação e a atuação intelectual: “A IA entra na tarefa repetitiva, modelo de peça, levantamento de jurisprudência, primeira lapidação de texto e sai antes da tese. A estratégia processual, a leitura fina do caso concreto, a decisão de qual argumento pesa mais diante daquele juiz específico, isso é raciocínio jurídico, e raciocínio jurídico não se terceiriza para uma ferramenta estatística. Se o profissional cola o output sem revisão crítica, ele está automatizando a mediocridade, não a eficiência. A boa prática que defendo é: IA rascunha, advogado lapida. O trabalho artesanal não desaparece, ele se desloca.”
LGPD e atenção ao Judiciário
Na área ética, a orientação da OAB Maringá é rigorosa: nenhum dado identificável de cliente deve ser inserido em ferramentas de IA generalistas sem anonimização prévia. O uso responsável exige a diferenciação entre sistemas gratuitos de prateleira — cujos termos muitas vezes autorizam o treinamento do modelo com os dados inseridos — e plataformas profissionais com ambientes seguros e cláusulas de não retenção de informações.
A Comissão também acompanha com atenção a adoção da tecnologia por juízes e magistrados. Embora o apoio da IA na gestão de acervos do Judiciário seja visto como positivo, há forte preocupação com o fenômeno das “alucinações” algorítmicas, onde o sistema gera citações de jurisprudências inexistentes com aparente coerência textual. A OAB defende a obrigatoriedade da conferência humana em minutas e a transparência sobre o uso de suporte tecnológico nas decisões, cabendo aos advogados o papel de vigilância técnica para identificar e contestar eventuais erros.
Perfil do advogado do futuro
Diante dos debates sobre a regulamentação da IA no Congresso Nacional, a Comissão de Maringá acompanha o texto legislativo com foco nos critérios de responsabilização civil em caso de erros e na exigência de transparência algorítmica para resguardar o direito de defesa e o contraditório.
Apesar das transformações, o presidente da comissão afasta cenários apocalípticos sobre a substituição de profissionais. Para ele, a tecnologia reduzirá espaço para tarefas puramente mecânicas, mas abrirá frentes promissoras em Direito Digital, compliance de IA para empresas e consultorias operacionais. O profissional do futuro em Maringá será aquele que dominará as novas ferramentas sem abrir mão do senso crítico, utilizando o ganho de tempo para focar na estratégia e na relação de confiança com o cliente.














