A composição do Senado Federal a partir de 2027 poderá colocar pela primeira vez no centro da agenda legislativa uma questão que ganhou força durante a campanha eleitoral: o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
O Senado terá 81 integrantes. Para a condenação de um ministro do Supremo e a consequente perda do cargo, são necessários 54 votos, o equivalente a dois terços da Casa.
Um levantamento divulgado após a eleição aponta que 54 dos 81 futuros senadores já declararam apoio à possibilidade de impeachment de ministros do STF. O número coincide exatamente com o quórum de dois terços.
O levantamento considera declarações públicas de senadores que permanecerão na Casa e dos 54 eleitos ou reeleitos em 4 de outubro.
Mas há uma ressalva importante: declarar apoio ao impeachment não significa que o senador necessariamente votará pela condenação de um ministro em um processo específico. O posicionamento pode depender das acusações, das provas e da análise de cada caso.
Quem se comprometeu durante a campanha
Entre os senadores eleitos ou reeleitos que defenderam publicamente a possibilidade de impeachment estão nomes de diferentes estados e partidos.
No Paraná, Filipe Barros (PL) declarou apoio ao impeachment de Alexandre de Moraes. Deltan Dallagnol (Novo) também fez da responsabilização de ministros do STF uma de suas bandeiras durante a campanha.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL) foram eleitas defendendo a pauta.
Em São Paulo, Guilherme Derrite (PP) declarou apoio à abertura de processos. André do Prado (PL) também afirmou ser favorável à abertura de processo contra Moraes para apuração das acusações.
No Rio de Janeiro, foram eleitos Carlos Portinho (PL) e Carlos Jordy (PL). Portinho já havia defendido a abertura de processo contra ministros do Supremo.
Em Minas Gerais, Domingos Sávio (PL) defendeu a abertura de processos de impeachment.
No Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem (Novo) e Sanderson (PL) também chegaram ao Senado com posicionamentos favoráveis à responsabilização de ministros.
No Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL) fizeram críticas à atuação do Supremo e defenderam medidas de responsabilização.
No Amazonas, Plínio Valério (PSDB) foi reeleito defendendo abertamente a possibilidade de impeachment.
Em Sergipe, Alessandro Vieira (MDB) também adotou posição crítica ao STF e defendeu medidas contra ministros.
No Tocantins, Eduardo Gomes (PL) reafirmou seu posicionamento favorável à abertura de processo contra Alexandre de Moraes.
Outros nomes eleitos que defenderam a medida incluem Márcio Bittar (PL-AC), Evair de Melo (Republicanos-ES), Gustavo Gayer (PL-GO), Lahesio Bonfim (Novo-MA), Mauro Mendes (União-MT), José Medeiros (PL-MT), Fernando Máximo (PL-RO), Bruno Scheid (PL-RO), Nicoletti (PL-RR), Teresa Surita (MDB-RR), Caroline de Toni (PL-SC) e Styvenson Valentim (Podemos-RN).
O caso do Paraná
O Paraná terá dois novos representantes no Senado a partir de 2027: Filipe Barros e Deltan Dallagnol.
Barros foi o candidato mais votado para o Senado no Estado e declarou durante a campanha que Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro ministro a responder a um processo de impeachment.
Dallagnol, por sua vez, construiu sua campanha defendendo uma atuação mais rigorosa do Senado diante do Supremo.
A presença dos dois coloca o Paraná dentro do grupo de Estados que elegeram representantes que defenderam publicamente a discussão sobre impeachment de ministros do STF.
Mas são realmente 54 votos?
Essa é a principal questão.
O número de 54 aparece em um levantamento que considera declarações públicas dos parlamentares. Outro levantamento identificou 51 senadores favoráveis, enquanto outro contabilizou 49.
A diferença ocorre porque alguns parlamentares defendem apenas a possibilidade de abertura de processo quando houver crime de responsabilidade comprovado. Outros são classificados como favoráveis ao impeachment de maneira mais ampla.
Por isso, não é correto afirmar que já existem 54 votos garantidos para retirar um ministro do STF.
O que os resultados mostram é que o novo Senado poderá chegar muito próximo — ou até ao número exato — do quórum necessário, dependendo da posição adotada pelos parlamentares em um caso concreto.
O que diz a regra
A Constituição estabelece que cabe ao Senado processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade.
A condenação exige dois terços dos votos dos senadores. Portanto, são necessários 54 votos.
Uma decisão liminar do ministro Gilmar Mendes, de dezembro de 2025, também estabeleceu o quórum de dois terços para a abertura do processo de impeachment contra ministros do Supremo, suspendendo a regra de maioria simples prevista anteriormente para essa etapa.
O Senado terá a palavra
O novo Congresso tomará posse em 1º de fevereiro de 2027.
Até lá, a composição política da Casa ainda poderá sofrer alterações e os partidos deverão definir suas bancadas e a disputa pela presidência do Senado.
O cargo de presidente da Casa terá importância especial porque cabe à Presidência receber e dar andamento aos pedidos de impeachment.
Assim, a eleição de 2026 não significa que um ministro do STF será afastado.
Significa que o novo Senado terá uma quantidade maior de parlamentares que durante a campanha declararam apoio à possibilidade de responsabilização de ministros da Corte.
A diferença entre discurso de campanha e voto efetivo será conhecida somente quando — e se — um processo chegar ao plenário.
A partir de 2027, portanto, uma das principais perguntas do Congresso será objetiva: os 54 votos existem de fato ou existem apenas no discurso de campanha?












