Da Kombi na geada de 1975 a um grupo de R$ 4,2 bilhões: Ariovaldo Costa Paulo analisa negócios, associativismo e o futuro no Ponto a Ponto

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Homenageado com a Comenda Américo Marques Dias, empresário abre bastidores de decisões que moldaram Maringá, detalha sucessão familiar e projeta impacto da tecnologia no varejo.

Maringá — A trajetória de um dos nomes mais influentes do empresariado e da sociedade civil organizada de Maringá é o tema do novo episódio do podcast Ponto a Ponto, veiculado pelo portal Maringá Post em parceria com o VMark Estúdio. Em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo, Ariovaldo Costa Paulo revisita os 40 anos de fundação da Arilu Distribuidora e detalha os bastidores de períodos decisivos para a cidade, vividos durante suas passagens pela presidência da Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim), do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem) e do Observatório Social.

A publicação da entrevista coincide com um marco simbólico na biografia do empresário. Na noite anterior à estreia do programa, Costa Paulo recebeu a Comenda Américo Marques Dias, mais alta distinção concedida pela Acim a lideranças de relevo comunitário. A homenagem fecha um ciclo histórico: a honraria foi instituída pelo próprio Ariovaldo quando presidiu a entidade.

Lições da Kombi, a geada de 1975 e o salto com a Cica

A vocação para os negócios, segundo Ariovaldo, nasceu observando a perseverança do pai, um ex-agricultor que não temia recomeçar após sucessivos fracassos comerciais. O empresário guarda com nitidez a madrugada da histórica geada de julho de 1975, quando acompanhou o pai em uma viagem de vendas de frios pelo interior. Ambos pernoitaram no veículo: “Eu acordei durante a noite com o teto da Kombi suando e aquele pingo gelado caindo na testa. Passei a mão no vidro de madrugada e estava tudo branquinho lá fora. Era a geada de 75. Só depois fui entender a dimensão daquela tragédia”.

Disposto a empreender por conta própria e precisando estruturar a vida antes do casamento com a esposa, Lucinei — cuja junção dos nomes deu origem à marca Arilu —, Ariovaldo convenceu o pai a avalizar o financiamento de uma Kombi no banco, estabelecendo uma sociedade em que dividiam os resultados. O negócio começou focado no fornecimento de queijo e presunto para pizzarias e lanchonetes.

A demanda crescente dos clientes por condimentos e atomatados abriu portas para um salto decisivo. Ao abordar um representante comercial na sala de espera de um supermercado, Costa Paulo conseguiu o cadastro para distribuir os produtos da Cica (Companhia Industrial de Conservas Alimentícias), principal referência nacional do segmento à época.

Apesar de a estrutura inicial funcionar nos fundos da residência da família, a operação deslanchou em meio ao cenário hiperinflacionário brasileiro dos anos 1980, quando os índices anuais ultrapassavam a marca de 3.000%. “Quando a mercadoria chegava da indústria, o preço já tinha subido 30% ou 40%. Se eu vendesse rápido antes do vencimento do boleto, colocava outro pedido com margem superior. Aprendi a trabalhar com a inflação alta; meu preço chegava a ser melhor que o da própria fábrica”, explicou.

Sucessão familiar com conhecimento de causa

Quatro décadas após a fundação, a empresa consolidou um processo de sucessão estruturado na rotina operacional. Os filhos de Ariovaldo ingressaram no negócio submetidos às mesmas exigências dos demais colaboradores, sem privilégios de herdeiros.

“Para a família dar certo no negócio, dentro da empresa ela não pode ser tratada como família; tem que ser mais uma pessoa da equipe. Meu filho começou comigo carregando caixa no depósito, foi vendedor de rua, fez entrega de caminhão e atuou como promotor de vendas”, pontuou o empresário. Atualmente, André comanda as operações do grupo na região Sul. 

Da desconfiança à presidência da Acim

A atuação de Costa Paulo no associativismo maringaense começou marcada por resistência. Convidado pelo empresário Jefferson Nogaroli para integrar a diretoria da Acim, Ariovaldo inicialmente rejeitou a ideia, argumentando que a entidade funcionava como uma “panelinha” restrita a poucos grupos de interesse. 

Uma das primeiras medidas foi a criação do Conselho do Comércio e a mobilização direta para ampliar a base de associados, que não passava de 800 empresas na época. Diretores passaram a visitar pessoalmente comerciantes em seus estabelecimentos, abrindo as portas da entidade para donos de pequenos negócios que historicamente não tinham interlocução com o poder público ou com comandos policiais e militares.

Ao assumir a presidência da Acim, Ariovaldo liderou um processo de profissionalização interna e modernização tecnológica. No início dos anos 2000, para permitir a transição analógica das consultas de crédito do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), a entidade firmou parcerias com o Banco do Brasil e fabricantes de tecnologia para oferecer computadores financiados a parcelas acessíveis de R$ 99 aos lojistas.

Defesa técnica da concessão da TCCC

Durante seu mandato na associação, Costa Paulo enfrentou debates públicos acalorados sobre temas estruturantes de Maringá. Um dos mais emblemáticos envolveu a proposta do então prefeito José Cláudio de romper a concessão do transporte coletivo municipal e fatiar a cidade em quatro lotes operacionais operados por empresas distintas.

Ariovaldo chamou o Executivo para uma análise técnica de custos: “Expliquei ao prefeito que, se dividíssemos a cidade em quatro empresas, teríamos quatro garagens, quatro diretorias e quatro estruturas operacionais. Como o valor da tarifa era calculado dividindo o custo global pelo número de passageiros pagantes, multiplicar os custos fixos por quatro resultaria inevitavelmente em uma passagem muito mais cara para a população”. Convencido pelos números, o prefeito recuou da medida.

Codem e a independência da sociedade civil

A experiência à frente do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem) e do Observatório Social consolidou no empresário a convicção de que o planejamento das cidades não pode ficar refém da alternância de mandatos partidários.

“As pessoas precisam entender que os prefeitos e os vereadores passam pela prefeitura, mas nós ficamos. A cidade pertence à comunidade. A segurança, a limpeza e o planejamento dependem da nossa postura”, defendeu. Sobre a atuação do conselho, Ariovaldo destacou a postura de parceria propositiva com quem vence as urnas: “Aqui em Maringá preferimos somar com o gestor eleito, independentemente de partido”.

Sociedade com a Braveo e o valor do contato humano na era da IA

Nos negócios corporativos, Ariovaldo detalhou o processo de negociação que durou quatro anos até a formalização da sociedade com o grupo Braveo. A transação resultou na formação de uma potência nacional do setor atacadista distribuidor, reunindo sete empresas coligadas, 20 centros de distribuição em pontos estratégicos do país, 4.500 colaboradores e faturamento combinado de R$ 4,2 bilhões.

O movimento envolveu uma mudança cultural na governança, substituindo o modelo centralizador e ágil do fundador por estruturas colegiadas de conselho administrativo, auditorias e comitês de compliance. A decisão de compor sociedade com um grupo de capital nacional, segundo Costa Paulo, decorreu da necessidade de escala para absorver as transformações tecnológicas que estão redefinindo a logística global.

O empresário prevê mudanças profundas na cadeia de suprimentos nos próximos cinco a dez anos, com a substituição do esforço físico braçal por automação, esteiras inteligentes, robótica e humanoides em plataformas de carga e descarga — realidade que já presenciou em operações no exterior.

Serviço

Apresentação: Ronaldo Nezo

Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio

Onde assistir: Canal do Maringá Post no YouTube.