Casas Bahia: crise é resultado da economia, do e-commerce ou de problemas de gestão?

Especialistas apontam que a recuperação judicial do grupo não pode ser explicada por uma única causa; juros elevados, transformação do varejo, endividamento e decisões internas se combinaram para levar a empresa à atual situação
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O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, anunciado nesta segunda-feira (17), com uma dívida declarada de R$ 17,3 bilhões, fechamento de 298 lojas e cerca de 3 mil demissões, levanta uma questão central: afinal, o que levou uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro a essa situação?

A resposta dos especialistas aponta para uma combinação de fatores. A economia brasileira teve papel importante, principalmente pelos juros elevados e pela restrição ao crédito. O economista Pedro Menezes, ouvido pelo UOL, avalia que os juros altos foram determinantes para uma empresa fortemente dependente do crediário. Com dinheiro mais caro, ficou mais difícil financiar o consumidor e, ao mesmo tempo, administrar uma dívida elevada.

O problema econômico, porém, não explica tudo. O próprio desempenho da companhia mostra que havia também uma mudança estrutural no comportamento do consumidor. No primeiro trimestre de 2026, o GMV das lojas físicas caiu 1,6%, enquanto o comércio eletrônico cresceu 14,6%. As vendas próprias pela internet avançaram 27,4%.

Isso indica que o e-commerce acelerou a necessidade de redução da estrutura física, mas não significa que a internet seja a responsável isolada pela crise. O consumidor continua comprando; o desafio é saber onde, como e com qual custo a empresa consegue vender.

Há ainda um terceiro elemento: a gestão e as decisões estratégicas tomadas ao longo dos anos. Reportagem da Folha de S.Paulo, baseada na avaliação de especialistas, aponta que conflitos societários e familiares envolvendo os controladores contribuíram para atrasar a modernização do grupo e prejudicar sua gestão.

Outro dado reforça essa interpretação: a companhia vinha acumulando prejuízos antes do atual agravamento. No segundo trimestre de 2026, registrou perda contábil de R$ 10,1 bilhões, sendo R$ 9,1 bilhões relacionados a efeitos não recorrentes. Mesmo desconsiderando esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em aproximadamente R$ 978 milhões.

O Banco Safra já havia identificado, em 2025, um problema importante: apesar de sinais de melhora operacional, a empresa continuava enfrentando forte pressão das despesas financeiras e queima de caixa.

Assim, a crise das Casas Bahia parece estar mais próxima de uma tempestade perfeita do que de uma causa única. A economia brasileira aumentou o custo da dívida e reduziu o crédito; o e-commerce mudou a lógica das lojas físicas; e decisões empresariais, estrutura financeira e problemas de gestão agravaram a dificuldade de adaptação.

A própria direção reconhece a necessidade de mudança. O CEO Renato Franklin afirma que a recuperação judicial é um instrumento para reorganizar passivos e preservar a operação, com foco em canais mais rentáveis, redução do capital empregado e geração de caixa.

Portanto, entre as três hipóteses, a resposta mais adequada é: as três contribuíram, mas em pesos diferentes. A economia criou um ambiente adverso; o e-commerce mudou o mercado; e a gestão teve de responder rapidamente a essas transformações — e não conseguiu evitar que problemas financeiros e operacionais se acumulassem.

O caso das Casas Bahia, portanto, não é apenas a história de uma empresa vítima da economia ou da internet. É também o retrato de uma companhia tradicional tentando sobreviver à transformação acelerada do varejo brasileiro.