Maringá — A busca contínua por eficiência operacional, metas agressivas e controle rígido de processos tem exposto os limites do modelo tradicional de administração. Em um cenário marcado por índices crescentes de esgotamento profissional, problemas de saúde mental e rotatividade de talentos, o ambiente corporativo é desafiado a migrar de uma estrutura fabril para um ecossistema centrado no desenvolvimento humano.
Essa transformação no mundo dos negócios foi o tema central da entrevista do mentor, conselheiro empresarial e escritor José Rodolfo Grou (J. Rodolfo Grou) ao programa Ponto a Ponto, podcast do portal Maringá Post. Com mais de dez anos de atuação no aconselhamento de executivos e lideranças, Grou defendeu a integração entre estratégia técnica e expansão da consciência — conceito que classifica como espiritualidade corporativa.
A desconstrução do modelo tecnicista
Formado em Administração de Empresas e com carreira construída no ambiente executivo, Grou detalhou seu próprio processo de reposicionamento profissional. Para o consultor, aplicar teorias clássicas de gestão sem considerar a realidade atual gera ruídos diretos na cultura e nos resultados das empresas.
“A gente vem de uma formação muito tecnicista, baseada em modelos de administração do século 19 que no século 21 não se aplicam mais. Tive uma construção de carreira executiva com base nessa abordagem técnica. A partir do momento em que entendi que aquilo não servia mais para a realidade, desfazer-se do que foi construído foi um processo”, explicou.
O conselheiro destacou que a resistência a mudanças atinge tanto grandes corporações quanto empresas familiares, travadas por padrões mentais rígidos de seus fundadores. “A cultura é uma maneira de tangibilizar a espiritualidade que o dono possui. Se o empresário utiliza um modelo de liderança tóxica com a justificativa de que isso é saudável para a performance, isso funciona em curto prazo. Em longo prazo, vêm rotatividade, adoecimento, absenteísmo e erros de processo”, pontuou.
O ‘burnout’ como divisor de águas
Durante a conversa com Ronaldo Nezo, Grou compartilhou uma reflexão pessoal sobre como o esgotamento físico e mental redefiniu sua prática de trabalho. Conhecido no passado por um estilo agressivo e focado exclusivamente em metas, ele apontou o burnout como um ponto de virada.
“O burnout foi um grande professor para mim. Ele me trouxe para o meu eixo principal, de compreender que as pessoas não são engrenagens. A engrenagem faz com que as pessoas apenas funcionem, mas sem sentir significado, conexão, propósito e pertencimento”, declarou.
O relato embasa a análise do consultor sobre o descompasso entre o discurso de liderança humanizada nas redes sociais e as práticas diárias nos escritórios. “O ambiente devolve, a gente nunca pode esquecer disso. A maneira pela qual construo a ambiência organizacional fala a maneira pela qual as pessoas e os resultados se sentem”, afirmou.
Espiritualidade como consciência e o papel da tecnologia
Ao abordar o ceticismo em relação ao tema no mundo corporativo, Grou foi direto ao separar religião de espiritualidade na gestão, citando pesquisas de instituições globais como Harvard, NYU e MIT.
“Espiritualidade não é religião. Para mim, espiritualidade é consciência. A partir do momento em que me torno um indivíduo consciente, me torno espiritualizado. A espiritualidade no contexto organizacional é entender que eu não sou, eu estou a serviço. Toda empresa está a serviço da vida”, disse.
Sobre o avanço da inteligência artificial e a automação de processos, o mentor rejeitou a ideia de que a tecnologia enfraquece as relações humanas. Ele demonstrou como ferramentas de IA podem organizar conhecimentos internos, elaborar guias e otimizar treinamentos, liberando os gestores do trabalho repetitivo para focarem no desenvolvimento das equipes.
Métodos, desligamentos e legado
O conselheiro reforçou que humanizar a gestão não significa adotar uma postura permissiva ou abrir mão de métricas e rigor financeiro. Ele defendeu a clareza nos acordos de trabalho e explicou que o desligamento transparente de um colaborador desalinhado é, muitas vezes, uma decisão necessária para ambas as partes.
No encerramento da entrevista, J. Rodolfo Grou comentou sua produção literária. Ele mencionou a obra “Falência Invisível”, que reúne aprendizados de seus 24 anos de carreira, e anunciou um novo livro focado na gestão empresarial para a nova era.
“A escrita e o conhecimento que compartilho têm a importância de deixar em vida aquilo que a vida está me permitindo receber. Se eu não colocar todo esse aprendizado a serviço da vida, terei sido egoísta”, concluiu o mentor, que também assina uma coluna semanal sobre negócios e gestão no portal Maringá Post.
Serviço
O episódio completo do Ponto a Ponto está disponível no canal do Youtube do Maringá Post. Apresentação do jornalista Ronaldo Nezo. Produção de áudio e vídeo: VMark Estúdio.




























