Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, nefrologista Eduardo Amado defende transição para a medicina preventiva, detalha tratamentos para o lipedema e desmistifica uso clínico de anabolizantes.
Maringá — A busca pela longevidade e a mudança no perfil do paciente redesenham as diretrizes do atendimento clínico tradicional. Em um cenário marcado pelo acesso rápido a terapias medicamentosas e forte apelo estético em redes sociais, a medicina preventiva emerge não mais como alternativa, mas como ferramenta central para conter o avanço de disfunções crônicas na população.
O diagnóstico é do médico nefrologista Luiz Eduardo Bersani Amado, fundador da MedInfuse Maringá e especialista em Medicina do Estilo de Vida. O profissional abriu os bastidores da prática clínica em entrevista ao jornalista Ronaldo Nezo no podcast Ponto a Ponto, do jornal Maringá Post. Na conversa, fez um alerta contundente sobre os riscos de intervenções imediatistas e defendeu um modelo de saúde focado na linha de cuidado contínuo.
A exaustão do modelo focado na doença
Com anos de experiência no tratamento de doenças renais de alta complexidade, Eduardo Amado explica que a transição de sua carreira para a medicina integrativa nasceu de uma inquietação prática: a frustração diante de diagnósticos tardios e irreversíveis.
O médico relata que a grande maioria dos pacientes que chegam aos consultórios de nefrologia tradicional é composta por indivíduos com mais de 70 anos, cujos rins falharam em decorrência de décadas de hipertensão e diabetes mal controlados.
“É um paciente complexo e um tratamento um tanto quanto frustrante do ponto de vista de mudança de prognóstico. Depois que passou um certo tempo, aí é mais contenção de danos”, explica. A percepção o levou a estudar a fundo a Medicina do Estilo de Vida, área que estrutura o atendimento em pilares específicos: atividade física, alimentação, qualidade do sono, espiritualidade e relacionamentos interpessoais.
Para Eduardo Amado, o foco médico precisa se deslocar da doença para a prevenção. “Quando chega o paciente de 45 ou 50 anos, obeso e pré-diabético, e a gente consegue emagrecer o cara, reverter o pré-diabetes e melhorar a hipertensão a ponto de tirar o remédio, eu falo para ele: estou te libertando uns 20 anos de sobrevida”, aponta.
A ilusão das “canetas emagrecedoras” e a epidemia de perda muscular
O debate ganha contornos urgentes ao analisar o mercado do emagrecimento. Eduardo Amado reconhece que as novas gerações de medicamentos injetáveis, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, representam uma revolução terapêutica e metabólica, mas faz uma ressalva sobre a banalização e o uso dessas substâncias sem critério ou monitoramento profissional.
O especialista alerta que a mentalidade do leigo, focada puramente na redução rápida do peso na balança por meio de restrições calóricas severas, esconde um processo perigoso de perda de massa muscular.
“A próxima epidemia que vai ter é a sarcopenia, a perda de massa muscular. Por quê? Porque esses indivíduos vão fazer uso dessas canetas sem acompanhamento médico. Ele vai ver que parou de usar a caneta, vai engordar de novo e vai voltar a usar. Vai definhando”, adverte.
O médico lembra que as complicações desse déficit físico e ósseo — como fraturas por quedas, perda de autonomia e riscos elevados de comorbidades — cobram o preço de forma agressiva a médio e longo prazo. “Construir músculo é muito mais difícil do que perder gordura. Leva tempo para ganhar, para consolidar.”
Hormônios, anabolizantes e o resgate da autonomia
Para além do emagrecimento, o novo episódio do Ponto a Ponto aborda o manejo de quadros severos de perda de força física e desregulação hormonal. Eduardo Amado quebra barreiras ao discutir o uso clínico de substâncias comumente marginalizadas pelo senso comum, como os anabolizantes. Ele defende que a indicação médica de esteróides e testosterona possui ampla literatura científica de suporte e tem excelentes resultados no resgate de idosos e enfermos debilitados.
“A medicina convencional de faculdade deixou isso meio de lado porque era muito relegado ao uso clandestino de academia. Hoje em dia estamos vendo a indicação clínica precisa nesses pacientes. Nós fazemos os velhinhos andarem de novo”, afirma, citando o caso real de um paciente dialítico que recuperou a total autonomia de sua rotina após a correção de um quadro severo de déficit hormonal.
O médico estende a necessidade do equilíbrio hormonal à saúde feminina. Segundo ele, o consenso científico atual já pacificou a segurança da reposição de estradiol na menopausa para mulheres sem contraindicações específicas, demonstrando benefícios que vão muito além do controle de sintomas imediatos, alcançando a proteção cardiovascular, óssea e cognitiva.
Eduardo Amado ressalta que falhas hormonais na menopausa são frequentemente subdiagnosticadas e confundidas com transtornos psíquicos. “A mulher chega com dois ou três antidepressivos. Você começa o tratamento da menopausa e ela vai tirando os remédios. Era puramente uma questão hormonal.”
O fardo oculto do lipedema e o compromisso social
A linha de cuidado integrado descrita pelo profissional também joga luz sobre o lipedema, uma doença inflamatória crônica de origem hormonal e genética que atinge o público feminino. Caracterizada pelo acúmulo desproporcional e doloroso de gordura nos membros inferiores, a condição é comumente confundida com a obesidade comum.
O especialista enfatiza que o principal obstáculo dessas pacientes costuma ser o desgaste psicológico decorrente de diagnósticos errados e da autoculpabilização. “Quando ela descobre que é uma doença, ela desaba. Ela fala: ‘Eu lutei a minha vida inteira com isso’. O fardo psicológico melhora muito depois que começa o tratamento clínico voltado à desinflamação, dor e hematomas”, relata.
Ao fim da entrevista, Eduardo Amado recorre a dados internacionais para mostrar que o mercado de bem-estar no Brasil ainda engatinha: enquanto países desenvolvidos registram uma média de 20% do orçamento pessoal voltado a investimentos preventivos de saúde, o índice nacional gira em torno de 1%.
Direcionando a mensagem a empresários e líderes, o médico reforça que o autocuidado deixou de ser uma vaidade estética e passou a ser uma responsabilidade de liderança. “O novo luxo é você estar bem fisicamente e psicologicamente para tomar decisões. Se você é um tomador de decisão, seu compromisso é, além de tudo, social. Você precisa estar bem para gerir a comunidade que depende de você”, conclui.
Serviço
O episódio completo do podcast Ponto a Ponto com o médico Eduardo Amado está disponível no canal do Maringá Post no YouTube, com produção de áudio e vídeo do VMark Estúdio e apresentação de Ronaldo Nezo.











