Devo deixar meu cachorro cruzar?

A dúvida cruel: Devo deixar meu cachorro cruzar ou não?

Aqueles que possuem um animal de estimação quase sempre têm o desejo de que seus pets acasalem. E os motivos são vários: dar oportunidade a seu animal de cruzar “pelo menos uma vez na vida”, ficar com um filhote e reviver aqueles dias em que uma bolinha de pelos corria pela casa ou mesmo porque os donos pensam que acasalar é importante, “evita o câncer” ou “impede que o macho fique agressivo”. Vamos analisar os prós e contras, o que há de verdade e mito nesses conceitos populares.

Primeiramente, nem todo animal pode acasalar. Independente da idade, se o macho ou fêmea for portador de alguma doença geneticamente transmissível, ele não deve cruzar. Por exemplo, displasia coxofemural, falta de um testículo, alguns problemas de pele como sarna demodécica, alergias, epilepsia e outras. A chance dos descendentes apresentarem os mesmos problemas é grande, por isso, aconselha-se não acasalar esses animais para não perpetuar a doença.

Existem também doenças “sexualmente transmissíveis” entre os animas. Cães portadores de brucelose e tumor venéreo transmissível (tumor de Sticker), não devem cruzar.

A idade e a condição de saúde também são fatores limitantes. Cadelas e gatas, embora tenham cios até o final da vida, pois não existe a menopausa para elas, não devem cruzar após os 5 anos de idade, porque já são consideradas idosas. Os machos podem cruzar até o final da vida, mas o esforço do acasalamento é prejudicial para machos cardíacos, com alterações ósseas ou articulares. O correto é acasalar animais jovens, cadelas a partir do terceiro cio e machos após 1 ano de idade, desde que sejam saudáveis.

É importante lembrar que na criação de cães e gatos de raça, evita-se o cruzamento de animais que não apresentem todas as características da raça. Embora possa parecer, os criadores não fazem isso apenas com o objetivo de manter o padrão estético da raça, mas sim evitar desvios comportamentais e “defeitos”que possam comprometer a saúde dos animais. Por exemplo, cães brancos, em determinadas raças, não indesejáveis por serem mais frágeis e propensos a problemas de pele. Animais agressivos não devem ser acasalados se o comportamento da raça é calmo. Aliás, independente da raça, mesmo no caso de mestiços ou vira-latas, nunca é aconselhável cruzar cães ou gatos extremamente bravos.

É um erro pensar que cruzar um cão o fará ficar mais calmo. O cão não fica “louco” se não cruzar. A chance dele conseguir uma fêmea para cruzar, tendo raça ou não, é pequena. Cruzará uma ou duas vezes em toda a sua vida se não tiver acesso irrestrito à rua. É errado também abrir o portão e deixar o macho “ir atrás das fêmeas”. Isso gera um número crescente de cães e gatos de rua que são maltratados, atropelados, passam fome e frio. A castração dos machos aos 6 ou 7 meses é uma forma deles desenvolverem um temperamento controlado, evita as fugas e a demarcação de território (xixi pela casa toda).

As fêmeas também não desenvolvem câncer se não cruzarem. Para evitar tumores de mamas, comuns em cadelas e gatas acima de 5 anos, o único método eficaz é a castração antes do primeiro cio, por volta de 6 meses de idade.

Muitos donos deixam seus animais cruzarem para ficar com um filhote. Pelo lado sentimental do dono, isso é compreensível, porém, é preciso meditar no custo que isso terá: para ficar com um filhote, quatro ou cinco outros animaizinhos terão que ser gerados e nem sempre é possível conseguir bons lares para todos. Infelizmente, é gigantesca a quantidade de donos sem consciência do que é o bem-estar dos animais. Ficam entusiasmados pela “bola de pelos”, mas logo depois o encanto acaba quando o cão ou gato cresce. Não fosse assim, não teríamos um número assustador de animais nas ruas e em abrigos aguardando um lar.

É importante ter consciência de que acasalar um animal e gerar uma ninhada não é algo tão simples. E se você ainda pensa que a cadela ou a gata sentirá falta de “ser mamãe”, está enganado. Gatas e cadelas só acasalam durante os cios que é uma fase de mudança hormonal. Passada essa fase, ela não aceita o macho para cruzar e nem sente falta disso. O custo de deixar uma fêmea experimentar a maternidade pode ser alto demais: aumento da população de animais nas ruas, cães e gatos em abrigos ou em condições muito longe daquela que seu animal tem.

Este artigo não tem a intenção de passar a mensagem “não cruze seu animal”, mas sim de levar os donos à reflexão. Se o macho não fica “louco” por não cruzar e o cruzamento não evitar o câncer nas fêmeas, não seria o caso de pensar melhor antes de deixar seu animal acasalar?

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