Chimpanzés podem se tornar animais de estimação?

Os chimpanzés encantam as pessoas por serem animais extremamente inteligentes e demonstrarem, não apenas expressões faciais, mas comportamento idêntico à espécie humana. Não é à toa que centenas de chimpanzés foram arrancados cruelmente de suas famílias, ainda bebês, e transformados em astros de propagandas e apresentações circenses por todo o mundo. E há aqueles que vão mais longe, desejando ter um desses simpáticos animais como “bicho de estimação”.

É preciso lembrar que o chimpanzé é um animal bastante longevo, podendo chegar à idade de 60 anos. Adquire tamanho próximo ao humano quando adulto e força extraordinária, bem superior à do homem. Manifesta suas vontades e preferências, assim como nós. A imagem do chimpanzé como um “macaquinho” sorridente e engraçado se desfaz totalmente no momento em que ele, já crescido, passa a demonstrar seu descontentamento, seja por ciúmes ou algo que lhe desagrade, de forma violenta. Já não é mais um animal fazendo graça e sim um ser poderoso que pode causar graves acidentes.

Bebê Guga (7 meses)
Travis (15 anos)

O dr. Pedro A. Ynterian, responsável pelo Projeto GAP no Brasil (www.projetogap.org.br), que abriga dezenas de chimpanzés adultos, a maioria deles resgatados ou “descartados” pelos circos, conhece profundamente a relação entre seres humanos e chimpanzés. Em fevereiro de 2009, o caso do chimpanzé Travis que morava com sua proprietária nos USA e atacou violentamente uma visitante, chocou a todos. Não foi um caso isolado. Apenas trouxe à tona uma realidade que a maioria das pessoas desconhece, mas Pedro Ynterian compreende muito bem:

“Travis era um chimpanzé de 15 anos, que já tinha trabalhado em comerciais de TV, como da Coca-Cola. Ele morava com a família que o criou como uma criança e o mantinha em uma casa, sem segurança, na cidade de Stamford, Estado de Connecticut.

Sandra Herold, a proprietária (segundo as leis humanas atuais), recebia a visita de uma amiga, Charla Nasch, de 55 anos, que Travis atacou de forma inesperada, com graves danos em seu rosto e mãos, já que durante minutos ninguém conseguiu tirá-lo de cima dela. Sandra atacou Travis com uma grande faca de cozinha, porém ele não revidou ao ataque de sua dona e mãe adotiva, e terminou fugindo para algum lugar afastado da propriedade. Sandra ligou para a polícia, enquanto Charla quase agonizava em um banho de sangue.

Quando a policia chegou se formou uma área de segurança para que os paramédicos atendessem Charla, que estava em estado crítico. Nessa mesma noite ela foi operada e sobreviveu ao ataque. Minutos depois Travis voltou à cena do ataque e os policiais, que não tinham armas químicas ou elétricas de contenção, se refugiaram em suas viaturas. Travis golpeou o vidro de uma delas e conseguiu abrir a porta para pegar o policial que estava dentro, o qual o atingiu com vários disparos. Travis, ferido ainda teve tempo e força de voltar para dentro da casa e morrer em seu quarto, segundo relata o Capitão da Polícia de Stamford, Richard Conklin.”

Um estranho no ninho…
Antes de construir o Santuário do Projeto GAP, Pedro Ynterian teve uma experiência marcante que lhe ensinou como deve ser a relação humanos-chimpanzés:

“Há quase 10 anos, Guga, com 7 meses de idade, morava em nossa casa em Itu. Ele tinha seu quarto, seu quadrado, seus brinquedos, era parte da família. O Santuário do GAP ainda não existia. Um dia uma amiga de minha filha Aline entrou na casa e Guga foi para cima dela, a mordendo na perna levemente, já que conseguimos tirá-lo de cima dela. No dia anterior ela tinha nos visitado também e tinha brincado com os brinquedos de Guga, talvez pegando algum durante um tempo. Guga, ciumento com suas coisas como era, deu um recado para ela, no dia seguinte.

Travis foi mais uma vítima do egoísmo e da insanidade humana. Dezenas de casos similares já existem na história. Nossa decisão de colocar Guga em um Santuário, quando tinha 1 (um) ano de idade, se fundamentou no que aprendemos com ele, durante o tempo que morou conosco. O chimpanzé dentro de uma família humana é um estranho no ninho, ele deve viver com seus iguais e fazer sua vida. Ele também pode, junto com seu grupo, ser civilizado, a fim de facilitar sua vida e daqueles que cuidam dele, porém, não pode compartilhar a vida entre nós.

Guga já adulto e Pedro Ynterian no Santuário GAP

Travis, como Guga, era um ser primitivo, sem a capacidade de falar, o que limitava seu aprendizado e uma educação para viver em sociedade, com outros humanos. Essa limitação dramática nos força a desistir de humanizá-lo ao máximo, como Sandra o fez e que ele nunca entendeu seu lugar neste mundo doentio.
A resposta ao título desta matéria é simples: Não! Os chimpanzés não podem se tornar animais de estimação. Assim como jamais deveriam ter sido brutalmente retirados do lugar que verdadeiramente os acolhe e os compreende: a natureza.
Características dos Chimpanzés:
– Tempo de vida: até 60 anos
– Tempo de gestação: 230 dias (8 meses)
– Habitat natural: savanas e florestas da África Central
– Hábitos alimentares: frutas, folhas, larvas e pequenos animais (onívoros)
– Comportamento: locomovem-se no solo durante o dia e alimentam-se preferencialmente nas árvores. Formam grupos onde os machos são os líderes.
– Tamanho: podem chegar a 1 metro de altura
– Peso: podem chegar a 100kg
(fonte: www.zoologico.sp.gov.br)

Agradecimentos:
Dr. Pedro A. Ynterian
Presidente do Projeto GAP Internacional

Silvia C. Parisi
Médica veterinária (CRMV SP 5532) - Formada pela Universidade Federal de Uberlândia em 1987 - Criadora do site Web Animal