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A presidente da Câmara de Maringá, vereadora Majô Capdeboscq, concedeu uma entrevista de mais de uma hora ao podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post, em que abordou os bastidores de sua chegada ao comando do Legislativo, os principais desafios administrativos enfrentados nos primeiros meses de gestão e os episódios políticos que marcaram o ano na cidade.
Primeira mulher a assumir a presidência da Câmara em 70 anos de história do município, Majô chegou ao cargo após uma reviravolta institucional provocada pelo afastamento judicial do então presidente. Eleita com 18 dos 23 votos, ela afirma que a ascensão não foi fruto de improviso, mas de uma construção política iniciada ainda nos bastidores, muito antes da conquista do primeiro mandato.
“Mandato de vereador é maratona, não é corrida de 100 metros”, afirmou durante a conversa com o jornalista Ronaldo Nezo.
A eleição antecipada e o peso simbólico da presidência
Eleita vereadora em 2024 após quatro tentativas anteriores, Majô assumiu inicialmente a função de primeira-secretária. Segundo ela, a presidência estava nos planos apenas para o segundo biênio da legislatura. Porém, a mudança no cenário político com o afastamento do então presidente da Câmara, Mário Hossokawa, antecipou o processo. “Estava nos meus planos pleitear no segundo biênio. Veio antes”, declarou.
Ela atribui a eleição ao apoio da base partidária, à articulação interna e à confiança construída ao longo de mais de uma década de atuação política ao lado de lideranças locais. Ao mesmo tempo, reconhece que assumir o comando do Legislativo sendo mulher, jovem e em primeiro mandato ampliou o nível de cobrança. “A régua já é alta. Por ser a primeira mulher, ela fica ainda mais.”
Para a presidente, o simbolismo do cargo exige não apenas representação, mas desempenho administrativo e político consistente.
Mudança de cultura e reorganização interna
Se a chegada à presidência teve peso político, o exercício do cargo revelou um desafio administrativo. Majô relata que, logo ao assumir, percorreu todos os setores da Câmara para ouvir servidores e compreender os fluxos internos antes de promover mudanças estruturais. “Vereador é passageiro. Servidor é quem permanece.”
A frase sintetiza a lógica adotada pela atual gestão: fortalecer a estrutura técnica da Casa e redefinir atribuições. Entre as ações citadas estão a reorganização de competências administrativas, a contratação de softwares profissionais para o setor de comunicação e a busca por maior autonomia dos servidores.
Ela também destacou a obtenção de equipamentos junto à Receita Federal — como câmeras e drone — e a distribuição de tablets aos gabinetes. A intenção, segundo afirmou, é modernizar o trabalho legislativo e ampliar a transparência.
A presidente afirmou ainda que estuda a implementação de inteligência artificial para auxiliar na triagem de requerimentos e indicou a preparação para implantação de um canal de televisão aberto da Câmara, com o objetivo de aproximar o Legislativo da população.
Reforma da Câmara: atrasos, ajustes e fiscalização
A ampliação do prédio da Câmara foi outro ponto central da entrevista. A obra, iniciada na gestão anterior, prevê cerca de 1.100 metros quadrados de ampliação e enfrentou atrasos decorrentes da ausência de projetos estruturais antigos e da necessidade de ajustes técnicos durante a execução.
Majô explicou que o modelo de pagamento é feito por medição das etapas concluídas e afirmou que a atual gestão glosou mais de R$ 120 mil da empresa responsável por serviços que não teriam sido executados conforme o contrato. “
Segundo ela, foi contratada uma empresa de engenharia para fiscalização técnica independente e a fase de acabamento representa a etapa mais onerosa da obra. A parte superior do prédio, que abriga os gabinetes, deve ser concluída antes das áreas de recepção e acessibilidade.
Readequação de gabinetes e debate sobre custos
A reestruturação dos gabinetes parlamentares, com ampliação do número de assessores legislativos, gerou debate público. A medida foi alvo de críticas nas redes sociais, especialmente após a ampliação do número de vereadores de 15 para 23 nos últimos anos.
Majô defendeu a decisão afirmando que o impacto corresponde a cerca de 0,07% do orçamento da Câmara e que a Casa tem direito a 5% da Receita Corrente Líquida do município, mas utiliza menos do que isso, devolvendo recursos ao Executivo ao fim de cada exercício. “Nem todo investimento é gasto”, argumentou.
Para a presidente, a ampliação busca qualificar a fiscalização de um orçamento municipal superior a R$ 3 bilhões e dar maior suporte técnico às atividades legislativas.
A cassação inédita e o papel da presidência
A entrevista também abordou a primeira cassação de vereadora na história de Maringá. Cris Lauer, eleita pelo Novo com o maior número de votos já registrado em eleições para a Câmara na cidade, foi cassada em agosto do ano passado.
Majô explicou o rito legal, as diferenças entre o Decreto-Lei 201 e o procedimento via Comitê de Ética, e afirmou que a abertura do processo ocorreu após determinação judicial. Depois de 90 dias de investigação interna e votação em plenário, a cassação foi aprovada pelos demais vereadores. “Meu papel é garantir o devido processo legal”, afirmou.
O episódio gerou repercussão política e mobilização nas redes sociais, marcando um dos momentos mais tensos do ano legislativo.
Relação com o Executivo e o primeiro ano de ajustes
Aliada do prefeito Silvio Barros, Majô reconheceu que o primeiro ano da atual gestão municipal foi marcado por ajustes estruturais. Ela citou problemas encontrados em diferentes secretarias, como falta de manutenção predial, equipamentos defasados e necessidade de reorganização interna. “Estamos aqui para resolver problema, não para enaltecer problema”, disse.
A presidente também mencionou os impactos futuros da reforma tributária e a necessidade de fortalecer o consumo local para manter a arrecadação e os investimentos na cidade.
Redes sociais, crítica pública e comunicação
Em um dos trechos mais incisivos da entrevista, Majô refletiu sobre o ambiente digital e o impacto das redes sociais na percepção pública da política. “Tem muita gente colecionador de likes. ‘O avião que pousa não é notícia. Só o que cai’”, afirmou – como já havia feito o prefeito Silvio Barros ainda no início do mandato, em 2025.
Para ela, o desafio do poder público está em comunicar resultados positivos em um cenário de múltiplas gerações conectadas, cada uma com formas distintas de consumir informação.
Futuro político e amadurecimento
Questionada sobre eventual candidatura a deputada na disputa de 2026 ou prefeita, em 2028, a presidente da Câmara afirmou estar focada no mandato atual, mas não descartou novos passos no futuro. “Meu nome está à disposição, se for construção coletiva.”
Ela afirmou que amadureceu intensamente nos primeiros meses de mandato e classificou a política como vocação. “Eu amadureci dez anos em um.”
Serviço
A entrevista completa com a presidente da Câmara de Maringá, Majô, está disponível no canal do Maringá Post no YouTube.
Apresentação: Ronaldo Nezo
Produção de áudio e vídeo: VMark Produtora e Estúdio







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