“O inimigo dorme ao lado”: Secretária Olga Agulhon alerta para abusos de maridos e filhos

No Ponto a Ponto, secretária revela como o “Botão do Pânico” evita feminicídios em segundos, a estratégia de independência financeira e o drama oculto das idosas exploradas pela própria família.

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    Ela não veio ao mundo para “gastar oxigênio”. A frase virou um mantra pessoal para Olga Agulhon. Sobrevivente de um câncer que lhe custou quase metade do pulmão esquerdo, a secretária de Políticas Públicas para Mulheres de Maringá tem pressa.

    “Eu acho que a violência é muito pior que qualquer câncer”, disparou durante a entrevista ao podcast Ponto a Ponto desta semana. “Um câncer, se descoberto no início, tem mais de 90% de chance de cura. Na violência, às vezes a mulher não tem essa oportunidade.”

    Em uma conversa densa com o jornalista Ronaldo Nezo, Olga revisitou sua trajetória — da menina que precisou “sobreviver” entre primos na roça à gestora que criou a FLIM (Festa Literária Internacional de Maringá) — e abriu a “caixa preta” da rede de proteção na cidade.

    A armadilha da “Lua de Mel”

    Por que elas ficam? Essa é a pergunta que a sociedade faz. Olga tem a resposta na ponta da língua: o ciclo da violência é perverso.

    Ela detalhou ao podcast a fase conhecida como “lua de mel”. Após a explosão e a agressão física, o homem se transforma. “Ele manda flores, pede perdão de joelhos, chora. E a mulher, muitas vezes com um instinto maternal de querer ‘consertar’ aquele homem, acredita”, explica.

    Para romper esse feitiço psicológico, a Secretaria aposta no bolso. A autonomia financeira é tratada como vacina. Olga citou o caso de uma aluna do projeto Qualifica Mulher que, após um curso de churrasqueira, assumiu o comando do restaurante da família, tirando o protagonismo do marido. “Quando ela tem o dinheiro dela, a dinâmica muda.”

    Casa Abrigo: um “bunker” financiado por Maringá

    Um dos momentos mais reveladores da entrevista tocou em uma ferida política: o custo da proteção regional.

    Maringá mantém uma Casa Abrigo de alta segurança, com endereço sigiloso, suítes, brinquedoteca e suporte 24 horas. O local salva vidas de mulheres marcadas para morrer. O problema? A demanda não é apenas local.

    Municípios vizinhos como Sarandi, Paiçandu e Floresta, que não possuem estruturas semelhantes, recorrem a Maringá em emergências. “Não é obrigação legal nossa, mas diante do risco de morte, acabamos atendendo”, desabafou Olga.

    A secretária defendeu a criação urgente de um consórcio ou convênio. O objetivo é que as prefeituras da região ajudem a custear o serviço, garantindo que o contribuinte maringaense não arque sozinho com uma responsabilidade que é metropolitana.

    Tecnologia contra o feminicídio

    Olga Agulhon também ressalta que o sistema que garante o pedido de socorro foi modernizado. O antigo “Botão do Pânico” físico virou um aplicativo ágil, concedido via medida judicial.

    A integração é direta com a Guarda Civil Municipal. “São três toques na tela. Toca uma sirene alta na central e a viatura mais próxima voa para o local”, descreve. O sistema já provou sua eficácia em tempo real, evitando tragédias minutos antes de acontecerem.

    O filho algoz

    Se o marido agressor é um problema, o filho abusador é um tabu. Olga trouxe à tona o aumento assustador da violência contra idosas.

    Diferente da violência conjugal, aqui o algoz tem o mesmo sangue da vítima. “É a violência patrimonial. O filho pega o cartão da aposentadoria, passa a casa para o nome dele e, às vezes, expulsa a mãe”, revelou.

    O combate a esse crime esbarra no amor materno – que leva muitas idosas a não denunciarem. “A mulher não quer ver o filho preso. É uma dor diferente”, analisa. Para furar esse bloqueio, a Secretaria realiza busca ativa em bairros e unidades de saúde, tentando identificar sinais de abuso em idosas que sofrem caladas.

    Da cultura à proteção

    Antes de proteger mulheres, Olga protegeu livros. Ex-secretária de Cultura e uma das idealizadoras da FLIM, ela vê uma linha direta entre as duas pastas.

    “Educação e cultura são as ferramentas reais de mudança”, defende. Seja ensinando artesanato no projeto Feito por Elas ou debatendo literatura no Clube do Livro da secretaria, a estratégia é a mesma: ocupar a mente e fortalecer o espírito para que a mulher perceba que a vida pode ser maior do que o medo.

    Serviço

    O episódio completo, com detalhes sobre a rede de proteção e os caminhos para buscar ajuda, já está disponível.

    Produção de áudio e vídeo: Vmark Estúdio 

    Apresentação: Ronaldo Nezo

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