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No podcast Ponto a Ponto, do Jornal Maringá Post, o diretor de futebol do Galo Maringá, Paulinho (Paulo) Regini, detalhou os desafios de gerir um clube fora do eixo dos grandes centros, explicou a importância estratégica das categorias de base e descreveu o caminho traçado para tornar o projeto sustentável a médio e longo prazo.
A entrevista concedida ao jornalista Ronaldo Nezo e gravada no VMark Estúdio, também percorre a trajetória pessoal do dirigente no futebol maringaense, o processo de reconstrução do clube após mudanças societárias e a ambição de alcançar um calendário nacional — considerado por ele o ponto de virada para a estabilidade esportiva e financeira.
Um envolvimento que começa cedo: “10 anos de idade”
Antes de ocupar cargos de gestão, Paulinho relata que sua relação com o futebol nasce ainda na infância, acompanhando o trabalho social desenvolvido pelo tio, o ex-vereador Aparecido Regini, conhecido como Zebrão, na região do Jardim Alvorada.
“No futebol me envolvi lá com 10 anos de idade, ajudando ele, andando atrás”, afirmou, ao lembrar das peneiras e da mobilização de crianças e adolescentes nos bairros da cidade.
A profissionalização vem mais tarde. “Profissionalmente, começou em 2012”, disse. Desde então, o envolvimento deixou de ser pontual. “Estou desde 2012 envolvido bem a fundo mesmo”, completou.
O futebol não era o plano inicial: “trabalho com construção civil desde os 14 anos”
Apesar da longa convivência com o futebol, Paulinho deixa claro que sua trajetória profissional principal sempre foi outra. “Trabalho com construção civil desde os 14 anos”, contou, ao relatar que começou como servente, passou por diferentes funções e hoje atua no comando da empresa da família.
O futebol, por muitos anos, era uma atividade paralela. “O futebol era um hobby… eu sempre gostei, eu, meu pai, meu tio, a família inteira”, afirmou.
A mudança de patamar acontece quando ele decide assumir responsabilidades mais diretas na estrutura do clube, em um momento de incerteza. “Na volta, nós conversamos e eu falei: os caras não vão voltar. Querem encarar?… vamos encarar, vamos junto”, disse, ao relembrar a conversa após uma reunião do arbitral, em Curitiba.
A saída do Maringá e o retorno inesperado: “não queria mais mexer com futebol”
Depois de anos no Maringá, Paulinho conta que deixou o clube em 2019 com a intenção clara de se afastar do futebol. “Eu não queria mais mexer com futebol… porque é cansativo”, afirmou.
O afastamento, porém, durou pouco. Em 2021, ele foi procurado por Alex Santos (ex-meia que atuou no futebol japonês e jogou pela seleção japonesa) para montar um time para a terceira divisão estadual. A aceitação veio com prazo e limites bem definidos. “Eu vou montar pra você pra terceira. E depois acabou, saí, tá bom?”, relembrou.
Ele enfatiza que o envolvimento foi movido por amizade, não por retorno financeiro. “Não ganhei um real só pela amizade que eu tinha com ele mesmo”.
O trabalho, no entanto, trouxe resultado imediato. “Campeão também, graças a Deus, invicto da terceira”, disse. Pouco depois, o projeto passou por nova mudança com a saída do investidor ligado à marca Aruko. “O japonês não vem mais… você vai ter que vir comigo”, relatou, descrevendo o convite para assumir sociedade e dar continuidade ao clube.
A troca de nome e o peso da identidade: “não tem por que criar outro nome”
A mudança de identidade do clube aparece como um dos momentos mais sensíveis do projeto. Paulinho explica que, desde o início da negociação para seguir com o time, a retirada do nome Aruco já estava prevista. “Já estava combinado… que eu tinha que tirar o Aruko, que é o nome da empresa deles”, disse.
A partir daí, começou a busca por uma marca que tivesse vínculo com a cidade e estivesse juridicamente disponível. Foi nesse processo que entrou em cena o empresário Marcos Aurélio Falleiro, conhecido como Marquinho Falleiro. “A gente conversou com o Marquinho Falleiro… ele falou: ‘pra vocês a marca tá disponível’”, relatou.
Para Paulinho, o resgate do nome Galo não foi apenas estratégico, mas também afetivo. “Quem encheu o estádio, que foi bem, foi o Galo do Marquinhos… ele ficou ali na memória”, afirmou. E completou: “Quando veio ali do Aruko… falei: não tem por que criar outro nome”.
O impacto do calendário curto: “você monta um elenco pra jogar efetivamente oito jogos”
Ao entrar na realidade atual do futebol do interior, Paulinho chama atenção para um problema estrutural: a falta de calendário. “Esse ano… nós temos oito jogos garantidos no Paranaense e só. Não tem mais nada”, disse.
Segundo ele, isso muda completamente a lógica de planejamento. “Você prepara, você monta um elenco pra jogar efetivamente oito jogos”, reforçou.
A consequência aparece na disputa por treinadores e atletas. “O treinador primeiro vai escutar os clubes que têm calendário… que podem oferecer algo melhor”, explicou. O mesmo vale para jogadores: “É profissional, não pode ficar trinta dias aqui, trinta dias lá”.
Contratos curtos e adaptação difícil: “é um desafio bem grande mesmo”
Além da questão esportiva, o dirigente destacou o impacto humano desse modelo. “Os jogadores vêm, muitas vezes não traz a família porque é um tempo curto”, afirmou.
Ele descreve um cenário de adaptação rápida e frágil. “Não só o jogador não conhece a cultura… nós também não conhecemos os jogadores”, disse, ressaltando que a construção de identidade fica comprometida quando tudo precisa acontecer em poucos meses.
A base como eixo central do projeto: “o coração de qualquer clube no mundo é a base”
Quando o tema é sustentabilidade, Paulinho é direto. “A base é o pulmão de tudo. O coração de qualquer clube no mundo é a base”, afirmou.
No Galo Maringá, o trabalho começa cedo. “Hoje, no Galo Maringá, a gente trabalha desde os 9 anos”, explicou, citando categorias organizadas até o sub-20. Ele detalha a construção gradual desse processo. “Fizemos 15, 17… esse ano de 25 criamos o 20”, disse, lembrando que o sub-20 conquistou acesso recentemente. “Fomos campeões da segunda divisão do sub-20 também”.
A formação de atletas segue regras claras. “Você só pode alojar a partir dos 14 anos. O Ministério Público só permite alojamento depois dos 14”, explicou. Antes disso, o foco é regional. “Antes dos 14 são todos da cidade… Maringá, Sarandi, Paiçandu… toda a nossa região”.
Com o alojamento, o raio de captação se amplia. “Aí vem gente de todo lugar… vem da Bahia, Tocantins”, relatou. “Esse ano a gente chegou a ter 40 meninos alojados”.
Parcerias como vitrine: “o telefone começa a tocar”
A parceria com o São Carlense, para disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior, é apresentada como estratégica. “O São Carlense tinha a vaga e a vitrine… então a gente tá usando a vitrine deles com nossos jogadores”, explicou.
Segundo Paulinho, o efeito é imediato. “O telefone começa a tocar”, disse, ao falar do interesse de empresários e clubes quando os atletas entram em competições de grande visibilidade.
Venda de atletas e sobrevivência financeira: “sem vender, ninguém se mantém”
O dirigente também tratou do futebol como negócio. “A gente tem que vender o destaque”, afirmou. E foi enfático: “Sem vender, nenhum clube consegue se manter… sem base, sem venda, não existe futebol profissional”.
Ele destacou que outras fontes de receita não dão conta da operação. “Ninguém consegue pagar com o dinheiro de TV… patrocinador não paga”, resumiu.
Nos últimos anos, parte do investimento foi direcionada à estrutura. “Fizemos academia, fisioterapia, refeitório, sala de imprensa, comissão”, relatou. Ele destaca que muito desse trabalho não aparece para o torcedor. “Quando você investe em fisioterapia, ninguém vê… mas tem muito ali dentro”.
A avaliação é positiva. “A estrutura do Galo hoje é muito boa. Ganha de muito time da primeira”, afirmou.
Orçamento, comparação e metas: “ou é o menor dos 12, ou o segundo menor”
Paulinho afirmou que o investimento anual do clube gira entre R$ 2 milhões e R$ 2,5 milhões. “Ou é o menor dos 12, ou é o segundo menor”, disse, ao comparar com outros clubes da elite estadual.
O objetivo, segundo ele, é claro: calendário contínuo. “Esse calendário anual… pra gente poder jogar e não parar mais”. A lógica é de construção gradual. “Todo ano Série D, Copa do Brasil… que um ano você vai conseguir o acesso pra Série C”, concluiu.
O episódio completo do Ponto a Ponto com Paulinho Regini está disponível no YouTube do Maringá Post. A entrevista é apresentada por Ronaldo Nezo e produzida em parceria com o VMark Estúdio.
Confira a conversa na íntegra e todos os detalhes sobre o Galo Maringá. Conheça o processo que passa pela base, pela estrutura e pela paciência — em um cenário onde fazer futebol é, antes de tudo, um exercício de sobrevivência planejada.







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