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“Maringá é uma cidade bonita, planejada, rica. Mas ela tem um outro lado que não figura no cartão-postal.” A frase da vereadora Ana Lúcia Rodrigues, dita durante entrevista ao podcast Ponto a Ponto, resume uma crítica recorrente ao longo da conversa: por trás dos indicadores positivos e da imagem de qualidade de vida, existe uma cidade marcada por exclusão social, segregação territorial e dificuldade de acesso à moradia para parte significativa da população.
Ao longo do episódio, Ana Lúcia sustenta que o próprio planejamento urbano de Maringá, desde sua origem, produziu esse efeito. “O planejamento já incluía, desde o princípio, a exclusão das populações de baixa renda para as periferias ou para cidades da região”, afirmou.
Trabalhadores que produzem riqueza, mas não moram na cidade
Para ilustrar essa contradição, a vereadora cita o deslocamento diário de trabalhadores de municípios vizinhos. “Quando nós temos hoje 80 mil trabalhadores que vêm todo dia para Maringá trabalhar, isso significa que o posto de trabalho está aqui, mas a moradia da pessoa não está”, disse.
Segundo ela, parte dessa população até gostaria de morar na cidade, mas não consegue. “Pode ter gente que escolheu não morar aqui, sim. Mas tem muita gente que trabalha em Maringá e gostaria de morar aqui e não consegue, por causa desse processo de segregação, de exclusão.”
Ana Lúcia explica que o modelo priorizou atrair moradores com maior poder aquisitivo. “É o que se chama de cidade ‘solvável’. Uma cidade onde só mora quem tem poder de compra. Isso não é, por si só, ruim, mas não pode desconsiderar as questões sociais.”
CadÚnico revela realidade distante da imagem oficial
Para reforçar o argumento, a vereadora cita dados do Cadastro Único para programas sociais. “Maringá tem 160 mil famílias e quase 50 mil estão no CadÚnico”, afirmou. “É muita gente.”
Ela chama atenção para o contraste entre esses números e o custo de vida da cidade. “Somos uma cidade rica, com aluguéis altíssimos, preços imobiliários supervalorizados, especulação imobiliária muito alta, e, ao mesmo tempo, muita gente vivendo na pobreza aqui em Maringá.”
Segundo Ana Lúcia, essa realidade raramente aparece no debate público. “Essa população não figura no cartão-postal, não está presente na agenda pública.”
Moradia como direito e política pública
No podcast, a vereadora é enfática ao afirmar que o acesso à casa própria, para a população de baixa renda, depende exclusivamente de políticas públicas. “A única forma de a população de baixa renda ter acesso à casa própria é pela política habitacional”, disse.
Ela lembra que a moradia é um direito constitucional e uma necessidade básica. “Uma pessoa que tem a casa própria consegue enfrentar melhor os outros problemas da vida. O difícil é não ter casa para morar.”
Ana Lúcia explica que, mesmo quando a pessoa consegue financiar um terreno, a construção se torna inviável. “O sujeito paga o terreno em muitas parcelas, usa toda a renda nisso, e nunca consegue construir, porque a construção é muito cara. A mão de obra precisa ser valorizada, o material é caro.”
Falta de vontade política e poder do mercado imobiliário
A vereadora afirma que o município não consegue enfrentar o problema sozinho. “É preciso recurso federal, recurso estadual, mas também é preciso gestor local com vontade política de fazer casa para a população pobre.”
Ela critica o peso do mercado imobiliário nas decisões urbanas. “Os agentes imobiliários detêm muito poder político. Têm o telefone do prefeito, do governador, do presidente. A população não tem esse acesso.”
Segundo Ana Lúcia, mudanças recentes na legislação urbana reforçam esse desequilíbrio. “A legislação está sendo alterada para atender interesses especulativos.”
Questionada se a cidade já perdeu a batalha pela moradia acessível, ela responde de forma direta: “Por enquanto, sim. Enquanto não houver compromisso com o direito à moradia, nós vamos continuar perdendo essa batalha.”
Podcast completo no YouTube
As críticas ao modelo urbano de Maringá, à exclusão social e à dificuldade de acesso à moradia fazem parte da entrevista concedida pela vereadora Ana Lúcia Rodrigues ao podcast Ponto a Ponto, apresentado pelo jornalista Ronaldo Nezo. A gravação e a produção de vídeo são do V Mark Estúdio, parceiro do podcast.
O episódio completo está disponível no YouTube do Maringá Post, onde a vereadora aprofunda os temas e comenta outros aspectos da política local e estadual.







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