Da ocupação das escolas à Assembleia: deputada Ana Júlia fala sobre educação, ódio nas redes e política sem herança familiar

Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, parlamentar relembra início no movimento estudantil, conta como aprendeu a lidar com ataques nas redes e faz dura crítica ao modelo de educação no Paraná.

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    Aos 16 anos, uma estudante de escola pública paranaense subiu à tribuna da Assembleia Legislativa para defender as ocupações secundaristas e criticar a reforma do ensino médio proposta pelo governo Michel Temer. O discurso viralizou, percorreu o país e transformou a então “Ana Júlia das ocupações” em personagem central de um debate que ultrapassou os muros da escola. Anos depois, essa mesma jovem é deputada estadual e uma das vozes mais ativas na discussão sobre educação no Paraná.

    No novo episódio do podcast Ponto a Ponto, já disponível no YouTube do Maringá Post, a deputada Ana Júlia Ribeiro conversa com o jornalista Ronaldo Nezo sobre trajetória, política, ódio nas redes sociais, saúde mental de professores e a distância entre os bons números da educação paranaense e a realidade vivida na sala de aula.

    “Não sou deputada só de Curitiba”

    Logo no início da entrevista, Ana Júlia enfrenta uma percepção recorrente: a de que teria sido “eleita por Curitiba”. Ela reconhece a forte votação na capital e região metropolitana, mas faz questão de sublinhar que sua base é bem mais ampla.

    “Eu tenho mais de 50% da minha votação em Curitiba, região metropolitana e litoral”, afirma. “Mas tive voto em 389 municípios do nosso estado, tive uma boa votação em Maringá. Então, boa parte da minha eleição vem do interior.”

    A partir daí, ela apresenta sua compreensão sobre o papel de um deputado estadual.

    “Deputado estadual é pra cuidar do estado inteiro, é pra pensar o estado inteiro”, diz. “Eu sou meio contra essa coisa de pensar só na minha região, só na minha cidade, só no meu curral eleitoral, porque com isso a gente não consegue ter uma visão estratégica do estado.”

    Para ela, a lógica do “cada um cuida do seu pedaço” impede um planejamento mais amplo, tanto em infraestrutura quanto em políticas públicas. “Eu gosto de pensar o Paraná como um todo, trabalhar a logística, a estratégia do estado. Não sou deputada só para os curitibanos, sou deputada do estado do Paraná”, reforça.

    A menina que perguntava “por quê?” e o despertar político

    Questionada sobre quando nasceu a paixão pela política, Ana Júlia admite que não sabe apontar um momento exato. Mas lembra que, desde pequena, já apresentava um traço marcante: a curiosidade.

    “Eu sempre fui uma criança que gostava de debater, que gostava de perguntar, que falava ‘por quê, por quê, por quê?’”, conta. Em casa, diz, havia espaço para isso: “Na minha casa, a gente sempre discutiu sobre todos os assuntos. Sempre conversei muito com meus pais, sempre gostei de assistir jornal, de pesquisar, de estudar, de ler.”

    Esse ambiente doméstico ajudou a construir uma base de interesse por política, ainda que, no começo, sem militância organizada. O ponto de virada vem em 2016, com a reforma do ensino médio. Estudante da rede pública, ela decidiu ler a medida, tentar entender por que havia tanta revolta e concluir por conta própria se aquilo fazia sentido para a realidade dos alunos.

    “Eu concordava que a pauta dos estudantes não era aquilo que estava sendo apresentado”, lembra. A partir dali, entra no movimento estudantil, participa de atividades, ocupa escola, começa a se reconhecer como parte de uma luta mais ampla.

    Curiosamente, o discurso que a projetou nacionalmente quase não aconteceu. “Não era pra ser eu, eu não fui nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira convidada pra aquele dia, fui a ‘décima’”, relata. Mas foi justamente aquela fala que a colocou, de vez, no radar da política.

    Medo de ser usada – e o tempo até escolher um partido

    Nem todo reconhecimento, porém, se converte imediatamente em caminho partidário. Depois do discurso e da exposição, Ana Júlia conta que viveu um período de cuidado extremo.

    “Eu tinha um medo enorme de não entender as coisas, de ser usada, de ver a pauta das ocupações, que pra mim era tão legítima, ser mal interpretada, ser colocada como movimento partidário, que não era”, diz.

    Antes de se filiar, ela circulou por diferentes espaços: terceiro setor, ONGs, institutos, fundações. Participou de congressos, atividades políticas e partidárias, estudando, observando, conhecendo a dinâmica de dentro. Só depois de alguns anos é que se decidiu pelo Partido dos Trabalhadores.

    “Quando eu deixei de ser somente a Ana Júlia das ocupações e comecei a ter uma personalidade política mais própria, com um conhecimento mais próprio, eu pensei: para o que eu acredito em sociedade, eu preciso disputar num grupo político”, resume.

    Aprendendo a lidar com o ódio: “capa ou rodapé?”

    Se o discurso na Assembleia abriu portas, também trouxe uma enxurrada de ataques. Aos 16 anos, ela viu suas redes sociais explodirem em visualizações, comentários e ameaças, sem estar preparada para isso.

    “Eu tinha uma vida completamente comum de qualquer adolescente”, lembra. “De repente, o vídeo teve mais de um milhão de visualizações, era muito comentário, muita ameaça, muita coisa. Eu não soube lidar. Apaguei minhas redes sociais, chorava, queria me esconder do mundo.”

    O episódio ganha um ponto de virada num momento íntimo com o pai. Em casa, chorando por causa dos ataques, ela recebe dele um conselho que mudou a forma de ver o que estava acontecendo.

    “Meu pai chegou e falou: ‘Na vida, a gente tem escolhas. Para algumas pessoas você vai estar na capa [ela tinha sido capa da revista Carta Capital e sido destaque na revista Veja], na primeira página. Para outras, você precisa ser combatida e escondida, vai estar na última folha, numa notinha de rodapé. Você precisa escolher para quem você vai dar ouvidos’”, relata.

    A metáfora da “capa ou rodapé” marcou profundamente a deputada. “A partir daquele momento eu mudei minha perspectiva. Passei a entender que tem críticas construtivas, debates positivos, e tem gente que só sabe destilar ódio. Esses eu não preciso nem ver”, afirma.

    Hoje, diz que haters e comentários agressivos não a abalam mais. Já as críticas fundamentadas, os questionamentos respeitosos, ela faz questão de ler, reler e considerar.

    Política sem herança familiar: família de “normais”

    Ao assumir uma cadeira na Assembleia, Ana Júlia entrou num ambiente tradicionalmente dominado por sobrenomes conhecidos e trajetórias herdadas. E isso ficou evidente já na recepção dos colegas.

    “No primeiro momento, fui recebida com muita estranheza”, conta. “Muitos perguntavam como eu tinha me eleito, se era só por causa do discurso, se era por causa da internet.”

    Ela ressalta que não veio de uma família de políticos e que isso costuma causar certo espanto. “Direto as pessoas me encontram e perguntam: ‘Mas quem é seu pai? Quem é sua mãe? Quem são os avós?’ Eu respondo: ‘É o Júlio, é a Nina, é o Salvador, a Maria e a dona Diva’. ‘E eles foram candidatos a quê?’ A nada. Eles são todos normais, absolutamente comuns.”

    No ambiente legislativo, observa que jovens costumam chegar, em geral, como continuidade de uma tradição familiar. “Quem de fato se elege muito jovem sem ter essa tradição sou eu. E pra mim é uma alegria enorme, um orgulho enorme.”

    Mais estudo do que “lacração”: regimento, votos e respeito

    Outra ideia com a qual precisou lidar foi o rótulo da “deputada de internet” ou da “lacração”. Segundo ela, havia uma expectativa de que sua atuação se limitasse a vídeos e redes sociais.

    “Eu senti que tinha que provar e mostrar muita competência para estar ali”, afirma. “Tinha a perspectiva de que eu estaria ali pra stories, pra like, pra vídeo. Mas eu sempre quis discutir política com fundamento.”

    Ela conta que uma das primeiras decisões foi estudar a fundo o regimento da Assembleia, inspirada por uma frase que ouviu ainda na adolescência, numa visita ao Congresso Nacional: os melhores parlamentares são aqueles que conhecem o regimento da casa.

    “Quando me elegi, pensei: eu preciso conhecer a casa, preciso entender como funciona, porque o mínimo de segurança jurídica muitas vezes está no regimento”, explica. “Você pode não concordar comigo, mas nunca vai poder dizer que eu não conheço o que estou falando.”

    Na entrevista, ela destaca que busca fundamentar cada voto, seja favorável, seja contrário, citando Constituição, leis e pesquisas. “Eu não faço um discurso vazio. Quando sou contra um projeto, eu sei explicar por que sou contra. Eu conheço o que voto contra e o que voto a favor”, afirma.

    Educação: bons números, realidade preocupante

    Um dos pontos centrais da conversa é a educação, tema que a projetou e segue no centro de sua atuação parlamentar. Ana Júlia reconhece que o Paraná aparece bem em rankings e indicadores positivos, mas questiona o que está por trás desses resultados.

    “Todo mundo vai dizer que é a favor da educação, você não vai ver ninguém falando contra”, provoca. “Mas pouquíssimos sabem debater educação de verdade: modelo, financiamento, projeto pedagógico, LDB, currículo.”

    Para ela, há uma diferença fundamental entre defender “a educação” de forma genérica e saber que tipo de educação se está defendendo. “Eu sei qual modelo de educação eu defendo: pública, libertadora, emancipadora. E sei que educação molda um projeto de sociedade”, diz.

    Ao analisar os números do Paraná, ela é direta: “Temos excelentes índices, de fato temos. Mas ninguém diz como chegou nesses números.” Entre os fatores que aponta, estão a redução de turmas de ensino noturno, a diminuição da oferta de EJA (Educação de Jovens e Adultos) e práticas que, segundo ela, acabam excluindo estudantes com mais dificuldade.

    “Os números não mentem, mas o recorte que você faz para chegar neles pode ser deturpado”, afirma. Na visão da deputada, hoje o estado tem, sobretudo, “escolarização”, mas não necessariamente um verdadeiro processo de formação educacional.

    “Você não tem educação de qualidade se não tem professor valorizado, se o estudante não pode questionar, se ele precisa seguir uma cartilha única que não considera a realidade da escola”, avalia. “Educação e processo de formação cidadã é uma coisa; só escolarização é outra completamente diferente.”

    Professores adoecidos e falta de autonomia

    O quadro se agrava quando ela fala sobre a saúde mental de professores da rede pública. Segundo a deputada, o número de afastamentos por sofrimento mental é alarmante.

    “Hoje nós temos mais de 10 mil professores afastados por sofrimento mental. Quando você chega num número desses, não é mais uma questão individual, é um problema estrutural”, alerta.

    Na entrevista, ela descreve um cenário de pressão, assédio moral e perda de autonomia docente. “Os professores não têm autonomia para elaborar plano de aula conforme seus conhecimentos, têm que seguir uma cartilha de alguém que nunca entrou naquela escola”, critica. “Muitas vezes, nem são mais responsáveis pela maior parte da nota dos estudantes, que vem de plataformas em que o aluno pode simplesmente copiar e colar.”

    Para a deputada, o resultado é um ambiente de adoecimento: salários defasados, ausência de concursos, pressão por resultados e pouco espaço para o professor exercer de fato seu papel. “Se o professor vira um fantoche, isso adoece. Isso causa estresse, sofrimento mental”, resume.

    Política, educação e responsabilidade com a palavra

    Ao longo do episódio, Ana Júlia volta várias vezes ao tema da responsabilidade – seja com a palavra, seja com o mandato. Ela reconhece que sua trajetória começou com um discurso que ganhou manchetes, mas insiste em mostrar que o caminho posterior foi feito de estudo, trabalho e construção cotidiana.

    “É fácil falar que defende a educação”, afirma. “Difícil é dizer que modelo de educação se defende, como se financia, que projeto pedagógico se quer.”

    Serviço

    O episódio completo do podcast com a deputada Ana Júlia Ribeiro já está disponível no YouTube do Maringá Post. O Ponto a Ponto é apresentado por Ronaldo Nezo e gravado na V Mark Produtora e Estúdio, em Maringá.

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