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Em uma entrevista de mais de uma hora marcada por posicionamentos firmes, o ex-prefeito de Maringá e atual secretário de Planejamento do Paraná, Ulisses Maia, revisita quatro décadas de vida pública e comenta, sem rodeios, temas sensíveis da política local e estadual. O episódio do Ponto a Ponto, publicado neste domingo (16), traz o Ulisses político, técnico e que não foge das polêmicas.
Trajetória, transparência e a política que começou cedo
Ulisses relembra que iniciou sua participação política ainda adolescente, participando desde o colégio (o Santo Inácio, onde estudou) de centros acadêmicos (na época, chamados de centros cívicos) e, aos 15 anos, acompanhou o irmão Ricardo Maia no processo de fundação de um partido, com suas filiações partidárias e primeiras reuniões. Aos 27 anos, em 1997, foi eleito presidente da Câmara Municipal com 21 votos entre 21 vereadores, e implementou iniciativas que, até hoje, ele considera estruturais para a cidade.
Foi naquele período que surgiram as primeiras transmissões das sessões da Câmara, feitas de forma improvisada, com fitas que eram trocadas e levadas de moto até a RTV, no centro da cidade.
“Não existia TV Câmara, não existia YouTube. Mas nós colocamos a Câmara na televisão. E a transparência muda comportamento”, afirma.
A comunicação, aliás, é um eixo recorrente da entrevista. Ulisses detalha sua estratégia de presença, prestação de contas e diálogo direto com a população — uma postura que, segundo ele, o acompanha desde os primeiros mandatos.
“A maior reclamação das pessoas é o sumiço do eleito. O político aparece na eleição, some depois e volta quatro anos depois. Eu nunca aceitei isso.” Ele recorda iniciativas como o 0800 da Câmara, as cartas de porte pago, o uso pioneiro do Periscope para transmissões ao vivo e o gabinete de portas abertas, quando atendia diariamente quem chegasse, sem agendamento e sem filtro. “Foram dias de mais de 200 atendimentos. Não é populismo, é obrigação.”
Críticas diretas à gestão atual: IPTU, cortes e decisões administrativas
Um dos blocos mais fortes da entrevista é dedicado a uma série de críticas à administração atual, comandada por Silvio Barros. Sem elevar o tom, Ulisses comenta decisões recentes que, segundo ele, afetam diretamente a população.
O primeiro ponto é o reajuste do IPTU, que chega próximo de 30%. Ulisses questiona a necessidade da medida, argumenta que Maringá possui superávit financeiro e crescimento vegetativo elevado, e compara a situação do município com a do Estado, que reduziu o IPVA após equilibrar suas contas. “A própria administração comemorou aumento de arrecadação dias antes de propor o reajuste. A transparência precisa vir antes do boleto”, provoca.
Além disso, critica o corte de programas esportivos, como o “TEA em Ação” — voltado ao atendimento de crianças autistas —, que tinha custo baixo e impacto social alto. Também menciona a suspensão de iniciativas como “Brincar na Rua” e “Esporte para Todos”, que atendiam milhares de jovens.
Ulisses ainda chama atenção para decisões administrativas que, na avaliação dele, têm impacto financeiro e simbólico importante, como gastos com viagens internacionais e o aumento do orçamento de publicidade. “Existem lugares para cortar. Faltou critério.”
Outro ponto comentado é o atraso na entrega de uniformes e kits escolares para alunos da rede municipal. Ele relata que a equipe de transição da gestão atual teve acesso completo às informações e que, ainda assim, os processos demoraram. “Não foi maldade, mas foi falha. E falha tem consequência.”
Pandemia: um dos momentos mais difíceis da carreira
A entrevista dedica tempo ao período da pandemia, que o ex-prefeito descreve como o mais difícil do período como prefeito da cidade. Ele relata protestos na porta da sua casa, inclusive buzinaços que assustaram os filhos, e a pressão de setores que discordavam das medidas restritivas.
Ulisses, porém, mantém convicção sobre suas decisões. “Era a maior tragédia dos últimos cem anos. E se eu precisava escolher entre prejudicar parte do comércio ou salvar vidas, eu escolhi salvar vidas.”
Planejamento do Estado: obras, infraestrutura e futuro energético
Como secretário de Planejamento do Paraná, Ulisses explica que a pasta é responsável por coordenar todo o planejamento estratégico do governo, do orçamento anual às obras estruturantes.
Entre os projetos citados, destacou o plano de descarbonização do Estado, com foco em biogás, biometano e hidrogênio — incluindo a construção, em Araucária, da maior fábrica de hidrogênio da América Latina. Também mencionou a atuação da Paraná Projetos, responsável por elaborar projetos arquitetônicos e de engenharia para obras estaduais; o programa Conecta 399, que acompanha a gestão dos municípios; e a criação da Escola do Planejamento, voltada à capacitação técnica de administradores públicos.
Para Maringá, Ulisses cita investimentos expressivos, como os R$ 450 milhões liberados para o Contorno Sul, uma das maiores obras das últimas décadas, além de recursos para infraestrutura urbana, estradas rurais e saneamento.
Eleições de 2026 e cenários possíveis
No papel de analista político, Ulisses avalia que a eleição presidencial de 2026 deve manter o tom polarizado. Segundo ele, a direita — que considera numericamente maior — busca um nome competitivo, e a definição do governador Tarcísio de Freitas sobre renunciar ou não ao governo de São Paulo pode alterar completamente a disputa.
Caso Tarcísio não concorra, Ulisses diz que o governador Ratinho Junior se torna o principal nome desse campo. “O Paraná se tornou referência. Isso projeta o Ratinho nacionalmente.”
Sobre sua própria participação em 2026, ele mantém a resposta que vem repetindo há meses: está “à disposição” do grupo político. “Posso disputar qualquer cargo, de deputado a governador. Mas a candidatura vem depois da entrega.”
Raízes, família e o lado humano da política
A entrevista também abre espaço para um lado mais íntimo. Ulisses revisita a história do pai grego que migrou para o Brasil, a mãe mineira, os 11 irmãos, e o peso dos valores familiares na sua trajetória. Fala da esposa, Eliane, psicóloga, e dos filhos, e reconhece que a família sofre com críticas, ataques e momentos de tensão — especialmente durante a pandemia.
“Eu sei lidar com crítica. A família nem sempre. E isso dói”, admite.
Um episódio denso, político e profundamente maringaense
A conversa do Ponto a Ponto reúne passado e presente, técnica e emoção, gestão pública e disputa política. Ulisses aparece como gestor, comunicador, estrategista e também como cidadão.
O episódio completo está disponível no canal do Maringá Post no YouTube, publicado neste domingo (16), às 7h.







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