Tingimento de tecidos com casca de cebola e fios feitos de garrafas PET são práticas sustentáveis da moda em Maringá

Por: - 7 de junho de 2019
Criada há 30 anos, "O Casulo Feliz" produz fios, tecidos e peças de roupa com tingimento natural / Reprodução Facebook

As práticas sustentáveis têm ganhado espaço no mercado da moda em Maringá. De olho no meio ambiente, mas sem perder o foco na rentabilidade, há negócios mais recentes ou com décadas de história que comprovam a viabilidade da produção consciente.

Fazer o tingimentos de fios com produtos naturais, usar matérias-primas recicladas e o reuso de roupas são algumas das iniciativas inovadoras e sustentáveis presentes na economia da cidade.

A ideia de que as empresas são parte integrante do mundo e não consumidoras do mundo faz parte do modelo de trabalho do “O Casulo Feliz”, criado há 30 anos em Maringá, no Conjunto Santa Felicidade.

A empresa é motivada pela ideia de que a produção do fio de seda é natural, orgânica e sustentável. Os fios são elaborados por processos naturais, com a mínima intervenção de maquinário e sem resíduos de fios e casulos no final do processo.

A produção é feita com casulos do bicho-da-seda que são descartados pelos produtores e são usadas técnicas de tingimento natural para aproveitar elementos da biodiversidade como casca de cebola, raiz de cúrcuma, folhas de manga, erva mate e sementes de urucum. Por mês, a empresa produz 2 mil metros de tecido e 400 quilos de fio. 

“A preocupação do ‘Casulo Feliz’ em trabalhar com sustentabilidade e meio ambiente está sempre voltada para a preservação do planeta e, principalmente, dos seres humanos”, diz o proprietário e criador da empresa, Gustavo Rocha.

“O Casulo Feliz” produz fios, tecidos feitos em tear manual e tear industrial, tapetes, cortinas e roupas. O empreendimento maringaense fornece figurino para novelas da Rede Globo, Record TV, peças de teatro e filmes.

Na Record TV, por exemplo, cerca de 90% do figurino utilizado pelos personagens das produções “Sansão e Dalila”, “Os Dez Mandamentos” e “Rei Davi” foram produzidos pela empresa.

Em 2017, O Casulo Feliz desfilou com coleção completa no São Paulo Fashion Week. Além disso, a empresa também fornece fios e tecidos para marcas como Animale, Cantão, Osklen e outras. Os produtos também são comercializados para o público em geral em uma loja na sede da empresa, no bairro Santa Felicidade.

Loja comercializa roupas de segunda mão

Para a empresária Jacque Rubim, idealizadora da loja consciente “Gaia de Saia”, em Maringá, “a roupa sustentável é aquela que já existe”. A loja surgiu há oito meses na cidade e vende roupas de segunda mão, além de promover reflexões sobre o consumo consciente.

Na visão de Jacque Rubim, ser 100% sustentável é quase impossível, mas ser consciente e ter hábitos sustentáveis é viável nos negócios. “Não tenho a loja só porque é bonitinha e quero ajudar o planeta, mas também é um negócio. Além de vender uma peça com preço justo, quero mostrar que existem no planeta muitas peças paradas que podem ser usadas por outras pessoas”, afirma.

Ela explica que os impactos ambientais pela produção da peça de roupa já foram causados, portanto o objetivo é evitar o descarte errado. De acordo com o relatório “A new textiles economy: Redesigning fashion’s future”, lançado em 2017 pela Ellen MacArthur Foundation, com o apoio da estilista Stella McCartney, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de sobras de tecido é queimado ou descartado em aterros sanitários. 

As peças comercializadas na loja passam por um processo de higienização, conserto e  customização antes de serem colocadas a venda. A Gaia de Saia trabalha com roupas para o público masculino e feminino e as peças custam, em média, R$ 35.

Garrafas PET e sobras de malhas se tornam fio

Na indústria de Fios da Cocamar, em Maringá, 80% da produção total é feita a partir de matéria prima sustentável. A linha dos desfibrados, por exemplo, é produzida por meio do reaproveitamento das sobras de malhas ou roupas que seriam descartadas.

A partir de embalagens de refrigerante, óleo e outros produtos também são produzidos fios com poliéster reciclado, o que contribui para redução do PET no meio ambiente. Na primeira etapa do processo, da garrafa à fibra, o material é moído, descontaminado e condicionado em fardos. 

No processo de fiação, a fibra se transforma em fio para que tecelagens e malharias possam dar andamento aos produtos. Em seguida, vai para a confecção de artigos de vestuário, cama, mesa, banho ou acessórios, até chegar aos consumidores finais.

Segundo o gerente executivo do Negócio Fibras, Luis Fernando Gomes, 15% da produção é feita com fibras recicláveis de PET. A unidade conta com 300 colaboradores e são produzidas, em média, 800 toneladas por mês. Para ele, “mais do que uma grande tendência, a sustentabilidade é uma necessidade”.

Perfil dos consumidores leva a práticas sustentáveis

A sustentabilidade foi listada pelo Sebrae-PR entre as tendências de negócios para 2019/2020. Para a coordenadora estadual de empreendedorismo e gestão do Sebrae, Vânia Paula Claus, é importante aliar sustentabilidade e negócios. Segundo ela, práticas sustentáveis não devem ser adotadas apenas por médias e grandes empresas, mas também por pequenos negócios.

“O consumidor está mudando e os jovens que estão se tornando consumidores dão muito valor ao propósito da marca e isso tem relação com a sustentabilidade. Não é fazer qualquer coisa a qualquer custo, mas ter respeito ao meio ambiente, já que existem causas sociais e coletivas fortes”, explica.

De acordo com Vânia, a sustentabilidade não deve ser apenas um discurso da empresa, mas algo que possa ser colocado em prática. Algumas ações como separar o lixo, fazer captação da água da chuva, instalar placas solares e até trabalhar com a digitalização dos documentos são atitudes que podem ser adotadas nas empresas.

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