Artista de Maringá usa cinzas humanas em pinturas cheias de vida

Arte picto crematória é uma forma de perpetuar a memória de entes queridos

Por: - 18 de setembro de 2017
José Adalberto Boh Firmino, artista plástico de Maringá
José Adalberto Boh Firmino, artista plástico de Maringá
Boh
Boh em sua casa, tendo ao fundo uma de suas telas em acrílico | Foto: Mariana Kateivas

Você já pensou em ter as cinzas do seu corpo eternizadas em um quadro repleto de cores? Pois em Maringá vive um simpático senhor de 70 e poucos anos, de apelido Boh, que se dedica a essa arte, chamada picto crematória. José Adalberto Boh Firmino da Silva, formado na Escola Panamericana de Artes, explica que a obra picto crematória se consiste basicamente em utilizar cinzas humanas, oriundas de cremação, como material de pintura de quadros.

Engana-se quem imagina que esse tipo de arte se inspira em sentimentos fúnebres. Boh, apelido de infância que apenas recentemente foi incorporado ao seu RG, acredita que seus quadros têm um papel fundamental não só para os familiares, mas também para o próprio morto. “A pessoa morre três vezes: quando ela para de respirar e deixa a vida, quando ela é enterrada e seu corpo não está mais aqui e quando ela é esquecida e sua presença deixa de pairar sobre nós. A terceira morte é mais dolorida e com as pinturas de cinzas, tento não deixar isso acontecer”, teoriza Boh.

As obras são feitas por encomenda de familiares, que ficam encarregados de enviar a matéria prima. Aliás, a inspiração de Boh para a nova técnica de produção de tinta e pintura, nasceu meio por acaso. Há algum tempo ele foi procurado por um antigo conhecido, admirador do seu trabalho em acrílico sobre tela, que lhe propôs o desafio de fazer um quadro utilizando as cinzas crematórias do filho.  Ele aceitou e conseguiu. Uma de suas obras picto crematória retrata uma paisagem e outra um dálmata.

José Adalberto Boh Firmino, artista plástico de Maringá | Foto: Mariana Kateivas

De acordo com o professor Árife Amaral Melo, do Instituto Federal do Paraná, em artigo publicado em veículos especializados, a arte picto crematória vai muito além de um cultivo de memória, já que pode ser encomendado pelo próprio morto, quando ainda vivo, e não apenas por aparentes e amigos. “A obra picto crematória não se configura tão somente como um cultivo da memória dos antepassados, mas também como uma forma de expressão dos que vivem e projetam suas aspirações e concepções de mundo através da composição desses diversos tipos de memoriais”, escreveu.

José Adalberto Boh Firmino da Silva começou a pintar utilizando tinta acrílico, hábito que iniciou ainda na Fama Filmes – onde, por tempos, trabalhou com um estojo de tinta acrílica de Samuel Bitencourt, a quem ele dá o título de “emérito professor na vida”. Diferentemente da tinta a óleo, a pintura acrílica é feita por camadas de cores, e não por mistura, como a óleo.

O artista adaptou-se a pintar utilizando tinta acrílico, hábito que iniciou ainda na Fama Filmes – onde, por tempos, trabalhou com um estojo de tinta acrílica de Samuel Bitencourt, a quem Boh dá o título de “emérito professor na vida”. Diferentemente da tinta a óleo, a pintura por tinta acrílica é feita por camadas de cores, e não por mistura, como a tradicional tinta a óleo. Por mais que a tinta não seja muito usual, o pintor desenvolveu uma forma de utilizá-la e, também, aprimorá-la junto ao pó de mármore, garantindo relevo às obras e tornando-as mais reais.

Veja vídeo mostrando como se prepara a tinta com cinzas humanas

 

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