E disse Jesus “Pega a visão”

O carnaval não é apenas para quem deseja se entregar a esbórnia, é também um palco livre para a arte de rua e expressão popular, travestidas de humor, licença poética e muita ironia.

Em 2019, o samba-enredo da Mangueira trouxe uma releitura da história do Brasil através de uma letra que refletiu o momento político e social daqueles tempos. No ano de 2020 a escola de Samba conta com um enredo igualmente cheio de referencias que merecem ser destacadas.

“Meu nome é Jesus da Gente”

O samba começa por pedir que o ‘Senhor tenha piedade dos seus filhos’, em seguida a música se converte em uma reza, ou oração. Uma comparação similar é feita em outra música que diz no meio da multidão, a dança é oração” (BRAZA). Mas será que esta letra da Mangueira tem um caráter litúrgico ou espiritualista?

Na quarta estrofe da letra é revelado o personagem principal em primeira pessoa, e ele tem características bem definidas; Além de ser da “Estação Primeira de Nazaré”, tem “rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”, filho de um carpinteiro desempregado e da Dona Maria das Dores Brasil. O que este ‘Jesus brasileiro’ está dizendo através desta reza da Estação Primeira?

O Jesus retratado pela letra traz consolo ao enxugar “o suor de quem desce e sobe a ladeira” e pode ser encontrado “no amor que não encontra fronteiras”. É um Cristo que morre todos os dias por balas de fuzis, que tem “corpo de mulher” e por isso sabe o que é ser assediado ou estuprado, que sente na pele o desprezo causado pelas fobias de gênero.

“Os profetas da intolerância”

Não é de se admirar que o Jesus brasileiro tenha ouvido, desde o céu, o desabafo sincopado de todo um País que sofre sob a égide de outro Messias. O Messias daqui também é cristão, mas defende – e até condecora – outro tipo de pessoa que “sobe e desce a ladeira” nas comunidades.

A diferença entre o Messias brasileiro e o “jesus da gente” é clara, enquanto um é apoiado pelos “profetas da intolerância” que invadem os locais de religiões de matriz africana, o outro junta sua cruz aos tambores num grito por liberdade.

“Favela, pega a visão”

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Aquele Jesus da Galileia, nascido em Belém, também pregou o amor, foi ele que disse as palavras registradas no livro bíblico de Marcos 10:21 incentivando a caridade e partilha. É curioso pensar que em nome daquele mesmo Jesus que perdoou, ressuscitou e ensinou, muitas pessoas ao longo dos séculos estão sendo julgadas, mortas e tendo negado o seu direito a educação.

O jesus que reencarna no Brasil de 2020 deseja que suas palavras sejam entendidas, sua mensagem não é para brancos europeus mas para todos os que tem fé no Brasil: Aquele que tiver ouvidos ouça  “Favela, Pega visão! Não tem futuro sem partilha nem Messias de Arma na mão”.

Bom carnaval, que Jesus te acompanhe, e manda um abraço lá.

 

Vanderson Souza
Graduado em Letras, acadêmico de história e professor nas horas vagas, escrevo porquê não tenho dinheiro pra análise. Vamos refletir e relembrar um pouco sobre Literatura, Música, Antropologia e História? Aqui no "Inter Ditos" você irá encontrar a articulação desses saberes, com os temas comuns à vida cotidiana e as últimas notícias.
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